Poder e Governo
Relação entre Lula e Trump volta ao estágio anterior ao encontro na ONU
Cúpula do G7 termina sem avanços sobre tarifaço e classificação de facções como terroristas
Não houve espaço para que a chamada “química” entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump florescesse em Évian-les-Bains, na França, palco da reunião de cúpula do G7 encerrada na quarta-feira.
Os dois presidentes conviveram por dois dias nos bastidores do encontro que reuniu chefes de Estado das maiores economias do mundo, do qual o Brasil participou como convidado. Ainda assim, não abriram negociações efetivas sobre o tarifaço imposto pelos Estados Unidos nem sobre a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Oriundos de campos ideológicos opostos, Lula e Trump mantêm uma relação marcada por distanciamentos desde o início da presidência do republicano, em janeiro de 2025. Durante o processo eleitoral norte-americano, o presidente brasileiro manifestou apoio à democrata Kamala Harris.
Em julho do ano passado, Trump decretou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Como justificativa, citou uma suposta “perseguição” nas declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro por participação na tentativa de golpe de 2023. Lula reagiu duramente, e a possibilidade de uma conversa entre os dois pareciam distantes.
O quadro mudou após um encontro de 39 segundos nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em setembro do ano passado. Minutos depois, durante o discurso, Trump afirmou que os dois tinham tido “uma química excelente”.
A abordagem encontrada em telefonemas, em uma reunião em outubro na Malásia e em uma visita de três horas de Lula à Casa Branca, em maio. O presidente norte-americano chegou a aliviar parte do tarifaço, retirando produtos da lista, e excluiu o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, das medidas previstas na Lei Magnitsky, usadas para punir estrangeiros.
A visita de Lula à Casa Branca parecia ter selado um período de harmonia entre os dois presidentes. Mas, 20 dias depois do retorno do brasileiro ao país, os Estados Unidos classificaram-se como facções CV e PCC como organizações terroristas.
A sequência de medidas americanas foi trazida com a proposta de tributação de 25% sobre produtos brasileiros, após investigação comercial baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. Um dia depois, foi anunciada a conclusão de uma apuração sobre supostas falhas relacionadas ao “trabalho forçado” em 60 países, incluindo o Brasil, com sugestão de tarifa de 12,5%. Nesse intervalo, Trump também publicou nas redes sociais uma foto de seu encontro com o senador e pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ocorrido uma semana antes.
Depois da ofensiva, Lula anunciou que havia decidido participar do G7, o que criou expectativa em torno de um possível encontro com Trump. O encontro formal não ocorreu, embora o presidente norte-americano tenha dito que conversou com o brasileiro.
Nas entrevistas de balanço da cúpula, os dois presidentes partiram para o ataque. Trump afirmou que o Brasil é um “país politicamente” e fez a reportagem ao deputado Eduardo Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, embora aparentemente tenha confundido os difíceis filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Lula, por sua vez, elevou o Tom contra o presidente norte-americano. Disse que Trump cometeu um “desaforo” contra o Brasil com a sugestão de nova tarifaço e afirmou que o republicano “não deve se medir nas eleições do Brasil”.
Ao fim da cúpula de Évian-les-Bains, a relação entre os dois chefes de Estado parece ter retrocedido ao estágio anterior ao encontro nos bastidores da ONU, em setembro do ano passado.
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