Poder e Governo

Flávio Bolsonaro aposta em plano de segurança para conter crise e ampliar eleitorado

Senador tenta equilibrar acenos a independentes e à base bolsonarista em meio à queda nas pesquisas

Agência O Globo - 18/06/2026
Flávio Bolsonaro aposta em plano de segurança para conter crise e ampliar eleitorado
Flávio Bolsonaro - Foto: © Lula Marques/Agência Brasil

Em meio à crise na pré-campanha provocada pela queda nas pesquisas de intenção de voto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem alternado acenos a eleitores independentes e ao núcleo bolsonarista. A segurança pública passou a ser vista por aliados como um caminho para unificar o discurso e atrair os dois grupos. O pré-candidato à Presidência lança nesta quinta-feira, em São Paulo, um plano dedicado ao tema e deve voltar a defender que facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), sejam tratadas como organizações terroristas.

A segurança pública se consolidou como uma das principais vitrines da candidatura. Em maio, Flávio viajou aos Estados Unidos e levou ao governo norte-americano uma ofensiva para que PCC e Comando Vermelho fossem classificados como organizações terroristas. A medida acabou sendo adotada posteriormente pelo presidente Donald Trump e passou a ser explorada por aliados do senador como demonstração de sua capacidade de articulação internacional.

A aposta nessa agenda ganhou novo capítulo na terça-feira, quando, em um vídeo produzido com inteligência artificial, Flávio aparece pilotando um caça militar ao lado do pai enquanto ataca embarcações identificadas com as siglas das duas facções criminosas. A publicação foi acompanhada da mensagem: “Na próxima quinta-feira eu vou dar uma péssima notícia para o CV, o PCC e o PT. Me aguardem”.

Segundo interlocutores do senador, o vídeo serviu como antecipação do anúncio de um conjunto de propostas para a área de segurança pública previsto para esta semana. A expectativa é que sejam apresentadas medidas voltadas ao combate ao crime organizado.

Integrantes mais identificados com o bolsonarismo tradicional avaliaram o vídeo como um acerto da campanha. Defendida por Eduardo Bolsonaro para uma eventual vaga de vice na chapa presidencial, a deputada federal Julia Zanatta (PL-SC), ligada ao núcleo mais bolsonarista, apoiou a iniciativa.

Líder da oposição na Câmara e integrante do mesmo partido de Flávio, o deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB) também defendeu o endurecimento do discurso na área de segurança pública.

— Sou um dos que mais cobram do Flávio uma postura mais firme contra o crime organizado, porque estou vivendo isso na pele lá no Nordeste. O momento exige isso. As facções estão dominando tudo. Quem está no Sul às vezes não tem ideia do que está acontecendo na Paraíba, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, no Ceará, no Maranhão e na Bahia. Eu cobro mesmo que ele fale mais sobre esse tema, mas não mando nele. Ele está dando atenção a um problema que ninguém aguenta mais — disse.

Integrantes do grupo que defendem uma estratégia voltada a eleitores independentes, porém, consideraram que a peça reforçou justamente aspectos da candidatura que vinham sendo trabalhados para reduzir resistências fora da base bolsonarista. Na avaliação dessas pessoas, o combate ao crime organizado poderia ter sido apresentado sem recorrer a imagens associadas a confrontos militares ou a uma estética de guerra.

Tom vai variando

O endurecimento do discurso, com a defesa inclusive de castração química para condenados por crimes sexuais, tem se alternado com gestos direcionados a eleitores mais distantes do bolsonarismo. Nesta semana, Flávio afirmou que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, errou na relação com a imprensa. Também defendeu bandeiras do governo Lula, como o Bolsa Família e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.

Aliados dizem que não há como se posicionar contra temas de forte apelo junto ao eleitorado, como programas sociais e a isenção do IR, mas enxergam movimentos “desencontrados” na campanha. Há um debate interno sobre qual perfil deve prevalecer na tentativa de conquistar novos eleitores. De um lado, está a tentativa de emplacar a imagem do “Bolsonaro vacinado”, com uma persona pública distinta da do pai; de outro, a necessidade de manter mobilizada a base mais radical do bolsonarismo, parte já cristalizada de seu eleitorado.

A discussão ganhou força à medida que pesquisas analisadas pela campanha passaram a indicar que a maior parte do eleitorado bolsonarista já está consolidada em torno da candidatura de Flávio. Entre auxiliares e estrategistas, há a percepção de que a eleição será decidida por um contingente de eleitores independentes que não se identifica integralmente nem com Lula nem com o estilo político que marcou a trajetória de Jair Bolsonaro.

A defesa de uma candidatura mais moderada reúne integrantes da campanha envolvidos na análise de pesquisas e no desenho da estratégia eleitoral, além de aliados considerados mais pragmáticos. A avaliação compartilhada por esse segmento é que o eleitorado bolsonarista já está majoritariamente consolidado e que o crescimento da candidatura dependerá da capacidade de atrair eleitores independentes.

Já interlocutores ligados ao núcleo mais ideológico do bolsonarismo defendem que Flávio preserve marcas associadas ao movimento liderado pelo pai. Esse grupo reúne aliados próximos do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), além de setores que avaliam que a candidatura não pode correr o risco de se afastar da base mais fiel.

Nos últimos meses, Flávio passou a destacar com frequência diferenças em relação ao pai. Em entrevistas e eventos públicos, tem afirmado que possui uma personalidade diferente da de Jair Bolsonaro e buscado demonstrar maior preocupação com temas sociais.

— Eu obviamente tenho sangue de Bolsonaro. Eu defendo os mesmos princípios, as mesmas bandeiras. Agora, cada um tem um perfil diferente — disse, em entrevista ao jornal mineiro O Tempo, durante viagem recente a Minas Gerais.

Na segunda-feira, durante participação no fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja, em São Paulo, o senador aprofundou essa estratégia. Defendeu o Bolsa Família, classificando o programa como uma garantia importante para famílias vulneráveis, manifestou apoio à isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e afirmou que o governo Bolsonaro errou ao adotar uma relação conflituosa com a imprensa.

Ao comentar o tema, Flávio disse que pretende garantir liberdade de imprensa em um eventual governo e classificou como equivocada a forma como parte da gestão de seu pai tratou veículos de comunicação.

Tentativa de ampliar eleitorado

As declarações foram recebidas por aliados como mais um esforço para ampliar o alcance da candidatura entre eleitores que não integram o núcleo tradicional do bolsonarismo. A avaliação de integrantes dessa ala da campanha é que a transferência de votos do ex-presidente para o filho já ocorreu em grande medida e que o desafio, agora, é conquistar pessoas que ainda enxergam com desconfiança o grupo político liderado por Jair Bolsonaro.

Poucos dias antes, porém, o próprio Flávio havia adotado tom bastante diferente durante participação na Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães (BA). Diante de produtores rurais, prometeu reduzir a maioridade penal, implementar a castração química para condenados por estupro e endurecer o combate às facções criminosas.

No mesmo discurso, voltou a se referir ao PCC e ao Comando Vermelho como “narcoterroristas” e afirmou que integrantes dessas organizações teriam até o fim do ano para deixar o país ou seriam presos ou “neutralizados”.

Questionado durante entrevista ao GLOBO sobre como a campanha pretende equilibrar setores que defendem um discurso mais duro e grupos que apostam em uma postura mais moderada para ampliar o alcance da candidatura, o coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), minimizou divergências e afirmou que diferentes visões convivem dentro do partido.

— Todo partido grande tem grupos distintos que pensam de forma diferente. Essa é a nossa força e a nossa fragilidade: a multiplicidade de visões diferentes, que precisam convergir na mesma direção. O que nos une é a visão conservadora de mundo e a visão liberal da economia — disse, na semana passada.

Mudança na comunicação

Há cerca de duas semanas, o publicitário Eduardo Fischer assumiu oficialmente a estratégia de campanha de Flávio. Seu nome foi defendido pelo coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), e ele esteve em Brasília nesta semana para reuniões com o pré-candidato.

A chegada de Fischer ocorreu após o afastamento de Marcello Lopes, o Marcellão, amigo pessoal de Flávio e um dos principais responsáveis pela estratégia que buscava apresentar uma versão mais leve do senador nas redes sociais. Foi sob sua influência que a campanha passou a apostar em conteúdos descontraídos, como vídeos de dança e peças voltadas à construção da imagem do chamado “Bolsonaro vacinado”. Embora continue próximo do senador, Marcellão deixou de participar das principais decisões da campanha.