Poder e Governo

Chefe da 'Turma' de Vorcaro pediu ao ChatGPT currículo para atuar com 'contrainformação'

PF identificou mensagens em que policial aposentado afirma prestar serviços ao CEO do Banco Master

Agência O Globo - 18/06/2026
Chefe da 'Turma' de Vorcaro pediu ao ChatGPT currículo para atuar com 'contrainformação'
Marilson Roseno da Silva - Foto: Reprodução

A Polícia Federal afirmou ter confirmado que o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva trabalhava para o banqueiro Daniel Vorcaro a partir de uma série de mensagens autoincriminatórias encontradas no celular dele. Entre os registros, há uma conversa em que Marilson pede ao ChatGPT, ferramenta de inteligência artificial, que redija um currículo para uma vaga no Banco Master, com atuação em "contrainformação".

Preso preventivamente em uma penitenciária federal desde maio, Silva é apontado pelas investigações como chefe do grupo chamado "A Turma". Segundo a PF, o grupo tinha a função de monitorar desafetos do banqueiro e obter informações sobre inquéritos sigilosos em andamento.

Em uma conversa com o ChatGPT, datada de junho de 2024, ele pede ajuda para uma "solicitação de emprego": "Banco Master trabalhar na contrainformação. Sou ex-policial federal com atuação na área de inteligência, investigação e processamento de dados. Dentre outros", digitou.

A inteligência artificial respondeu: "Entendido. Aqui está um exemplo de solicitação de emprego para a vaga no Banco Master na área de contrainformação".

As informações constam de um relatório da PF que reuniu dados sobre a atuação dos integrantes da "Turma". Conforme as apurações, Marilson recebia mensalmente R$ 400 mil para arregimentar outros agentes da Polícia Federal e, assim, conseguir acesso a investigações que miravam Vorcaro e seu banco. O dinheiro, segundo a investigação, vinha de R$ 1 milhão pago por mês a Luiz Philippi Mourão, chamado de "Sicário" e também apontado como integrante do grupo.

"Três agentes públicos da Polícia Federal (ativos e inativos), os quais sob a coordenação de Marilson Roseno da Silva e mediante recebimento de vantagem econômica utilizaram, no exercício das funções, sistemas institucionais da Polícia Federal para obter informações de pessoas e procedimentos investigativos, a pedido do líder da Orcrim (organização criminosa), Daniel Bueno Vorcaro", diz o relatório.

Em mensagens enviadas a outros interlocutores, o policial aposentado também relatou que prestava serviços ao "CEO do Banco Master".

A PF ainda interceptou uma mensagem em que Marilson diz a um interlocutor que o "SP Master saiu", numa provável referência ao momento em que Vorcaro deixou a prisão preventiva pela primeira vez, em novembro de 2025. "A imprensa não sabe ainda", completou. Em março do ano seguinte, o banqueiro voltou a ser detido.

Em uma auditoria, a PF fez uma pesquisa para identificar quando Marilson consultou o nome de Vorcaro no sistema interno da corporação. Foram encontrados registros desde dezembro de 2021, quando o Master ainda se chamava Banco Máxima e Marilson ainda não havia se aposentado.

"A análise conjunta dos registros de auditoria evidencia, portanto, que o, à época, Escrivão de Polícia Federal MARILSON ROSENO DA SILVA, já atuava no interesse de DANIEL BUENO VORCARO, desde no mínimo, o mês de agosto de 2021, utilizando-se do acesso funcional de policial federal da ativa para realizar consultas direcionadas em sistemas restritos da Polícia Federal, com o objetivo de obter informações privilegiadas, monitorar investigações sensíveis e resguardar interesses privados", concluiu a PF em outro relatório.