Poder e Governo

Pedágio ‘free flow’ vira tema de embate na pré-campanha nos estados e passa a ser usado por aliados de Lula

Modelo de cobrança de pedágio virou CPI no Rio Grande do Sul, frente de críticas a Tarcísio em São Paulo e assunto explorado por políticos em anúncios nas redes sociais

Agência O Globo - 17/06/2026
Pedágio ‘free flow’ vira tema de embate na pré-campanha nos estados e passa a ser usado por aliados de Lula
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A expansão do pedágio sem cancelamentos no país, conhecida popularmente como “free flow”, tornou-se alvo de uma guerra de discursos entre governadores, parlamentares e o governo federal e já vem sendo amplamente debatida na pré-campanha, principalmente aos governos estaduais.

Em São Paulo, deputados da oposição e inclusive da base criticaram a instalação do pedágio eletrônico nas rodovias paulistas. No Rio Grande do Sul, o tema virou até Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa (ALRS) e tem desgastado o governador Eduardo Leite (PSD). Na semana passada, foi aprovado o relatório final da comissão, que recomendou falhas nos três blocos de rodovias que adotaram o sistema e problemas nos editais de concessão de rodovias. No Paraná e no Rio de Janeiro, o debate político em torno do livre fluxo também tem se intensificado, principalmente nas redes sociais.

De olho na exclusão ao novo sistema, o , e a medida passou a ser amplamente explorada nas páginas oficiais do governo federal, principalmente nas publicações impulsionadas. Das 30 publicações patrocinadas no Instagram e Facebook no mês de maio, que citam o termo “free flow”, 12 exaltam a suspensão das multas — além da própria página oficial do governo, parlamentares do PT, PSB e PDT também pagaram postagens para divulgar a medida.

Na esteira dessa suspensão, aliados de Fernando Haddad (PT), pré-candidato ao governo paulista, já projetaram que esse será um tema forte na campanha para usar contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que é defensor do livre fluxo e pretende implementar o sistema em todas as rodovias do estado.

Por outro lado, o próprio governo Lula, nas concessões de rodovias realizadas nos últimos anos, tem implementado o livre fluxo nas vias federais, o que pode virar uma faca de duas gomas — aliados de Tarcísio já falam que, quando atacados sobre o tema, o governador deve rebater usando justamente a adoção do modelo nas rodovias federais como resposta. A pressão política, entretanto, já tem surtido efeito: no mês passado, Tarcísio adiou para janeiro de 2027 a adoção do free flow em oito rodovias que deveriam iniciar a cobrança sem pórticos ainda neste ano. .

Na semana passada, o ministro dos Transportes, George Santoro, disse que o free flow veio “do governo anterior” — o modelo começou a ser implementado quando Tarcísio comandou o Ministério de Infraestrutura — e que a gestão atual está “aperfeiçoando” a medida.

— O modelo federal prevê que uma pessoa, ao ser multada, tenha um prazo de 30 dias (para pagar). A gente corrigiu o prazo que era muito pequeno, de 15 dias, para uma pessoa que precisasse da multa ou pagar a infração. E, no caso de São Paulo, a multa foi indo para a expedição. Qual o incentivo da transmissão de sinalização melhor, em dar mais informações aos usuários se a multa, que é muito maior que o valor do pedágio, vai para ela? Esse modelo não é do governo federal, acho que o governo de São Paulo vai concordar com isso – falou durante evento da Esfera Brasil.

O discurso deve ser o mesmo adotado por Haddad, que tem dito que Tarcísio implementou o modelo de maneira “desorganizada”. Ele chegou a dizer inclusive que o free flow em São Paulo estaria “encarecendo a distribuição de alimentos no estado de São Paulo”.

O discurso contra as cobranças do fluxo livre no âmbito dos estados, que vão de “pedágios mal planejados” e “cobranças abusivas no deslocamento diário da população”, feitos principalmente por aliados de Lula, entretanto, contrastam com o fato de que a tecnologia vem sendo amplamente utilizada em rodovias federais, com aval da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Hoje, há sete rodovias federais com o sistema free flow já autorizado ou implantado. Entre os estados que contam com o modelo de cobrança, quatro estão em São Paulo, três no Rio Grande do Sul e um em Minas Gerais.

Há duas semanas, um . As infrações adquiridas foram registradas nos pórticos de pedágio free flow de Paraty, Mangaratiba e Itaguaí e representam mais da metade das 1,4 milhão de autuações emitidas no estado desde a implantação do sistema de livre passagem, em março de 2023.

No Sul, CPI e regulamentação adiado

As críticas sobre o free flow na arena política não estão restritas a São Paulo. No Rio Grande do Sul, Leite tem sido alvo de partidos da esquerda à direita devido ao pedágio eletrônico, que está presente em três rodovias do estado. O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), que visa uma vaga ao Senado, tem aproveitado para explorar o tema publicando vídeos criticando esse modelo de pedágio no estado.

O deputado estadual Paparico Bacchi (PL), que presidente da CPI em curso sobre o tema na ALRS, afirma que o sistema foi aplicado sem que houvesse informação devida à população e que os preços cobrados são abusivos. No estado, a pressão foi tanta que em março o governo adiou o leilão de rodovias no Vale do Taquari e no Norte do estado, e impediu em 5% o valor da tarifa do pedágio que será cobrada nessas vias. O novo leilão deverá ocorrer em junho.

— Temos aqui no Rio Grande do Sul, em quatro praças de pedágio, 1.360 milhões de multas, e os fluxos livres foram responsáveis ​​por 25% de todas as multas do Rio Grande do Sul. Temos aqui centenas, milhares de pessoas que perderam sua habilitação, pessoas que foram duramente castigadas com as multas. E como as pessoas não foram informadas, têm dificuldade de entender o modelo — aponta o parlamentar.

No Paraná, é o PT quem liderou a oposição à cobrança eletrônica de pedágios, e usa o tema para destruir o governador Ratinho Júnior (PSD) e seu apadrinhado para concorrer ao governo, o pré-candidato Sandro Alex (PSD). O pré-candidato ao governo Requião Filho (PDT), que é apoiado pelo partido de Lula, tem atrelado esse tipo de pedágio ao governo Jair Bolsonaro (PL) e ao seu adversário, Sandro Alex (PSD).

Arilson Chiorato, Líder da Oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), diz que a eleição paranaense deve ser permeada por dois grandes temas: a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel) e o free flow.

— O free flow tem vários pórticos na rodovia, que vão mensurando o quanto você andou e você paga proporcionalmente. No Paraná, você passa e tem cobrança cheia. Não existe fluxo livre no Paraná. É uma vergonha — afirma o deputado, que chegou a presidir uma frente parlamentar sobre pedágios no Legislativo paranaense, que posteriormente foi encerrada — Quando eu presidi a frente, tivemos 45 dos 55 deputados nela, foi um tema que uniu a Assembleia hoje.

No Rio de Janeiro, as discussões sobre o sistema têm se intensificado no interior nas últimas semanas, com a possibilidade de expansão do fluxo livre na BR-101, onde o modelo foi implantado em 2023, para a região de Itaboraí, Tanguá e Rio Bonito. Políticos da região, como a deputada Dani Cunha (PL-RJ), além de pré-candidatos, apostaram em desgastar esse tipo de cobrança de pedágio como plataforma de pré-campanha com vídeos nas redes sociais sobre o tema. Há três semanas, a ANTT realizou uma audiência pública em Tanguá para discutir o tema.