Poder e Governo
Associações de policiais civis repudiam fala de Lula sobre medo de delegacias
Declaração foi feita no Conselhão, durante anúncio de plano para estimular a devolução de celulares roubados
Associações de policiais divulgaram notas de repúdio, na segunda-feira, contra uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) . Na última quarta-feira, durante a 7ª Reunião Plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselho, Lula afirmou que os brasileiros têm medo de entregar celulares roubados em delegacias para não saberem que “tipo de policial” irá encontrar.
A declaração ocorreu durante discurso sobre um plano do governo federal para estimular a devolução de smartphones aos seus donos. A proposta prevê o envio de notificações para celulares comprados para informar quem estiver em posse do aparelho sobre sua origem ilícita. Os aparelhos poderão ser devolvidos em agências dos Correios.
— Eu vou efetivamente despachar o sinalzinho para quem tiver com o telefone devolvido, porque caso contrário pode ter consequências. A dúvida é que eu não quero devolver na delegacia, eu quero devolver no correio. Na delegacia, as pessoas têm até medo, porque não sabem o tipo de delegado que vão encontrar ou o tipo de policial. Então, vamos tentar no correio — disse Lula.
A Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol) publicou nota de repúdio à fala do presidente, composição pela entidade como “inadequada, injusta e descontextualizada”. Para a Adepol, a afirmação de que seria mais seguro devolver um aparelho adquirido nos Correios “transmite à sociedade uma percepção generalizada de desconfiança em relação às Delegacias de Polícia e aos profissionais que nelas atuam, o que não corresponde à realidade”.
“A arrecadação, apreensão, custódia e análise de aparelhos celulares no âmbito de investigações criminais submetem-se a procedimentos legalmente previstos, formalizados e documentados, sujeitos à fiscalização interna e ao controle externo exercido pelo Poder Judiciário e pelo Ministério Público”, diz a nota.
O Sindicato dos Delegados da Polícia do Estado de São Paulo (Sindesp) também criticou a declaração e afirmou apoiar a manifestação da Adepol. "Delegados de Polícia e policiais civis desempenham papel essencial na investigação criminal, na recuperação de bens subtraídos e na proteção da sociedade. O respeito às instituições é fundamental para o fortalecimento da segurança pública e da confiança da população", declarou o sindicato.
O Sindicato de Policiais Civis de Pernambuco (Sinpolpe) também divulgou nota de repúdio. No texto, a entidade afirma que o presidente declarou “um desconhecimento abissal sobre a complexidade da área”. “Ao preferir discursos rasos e sem profundidade, o país exige uma liderança que se cerque de especialistas, crie políticas públicas eficazes e fortaleça as instituições policiais”, diz o sindicato. O Sinpolpe afirma ainda que “cada pronunciamento do presidente Lula sobre o tema reafirma um despreparo alarmante”.
A Confederação Brasileira de Trabalhadores Policiais Civis (Cobrapol) , por sua vez, disse considerar “a importância de iniciativas inovadoras ao enfrentamento do mercado ilegal de celulares”, mas criticou generalizações que, segundo a entidade, “geram interpretações equivocadas sobre a atuação das Polícias Civis e de seus profissionais”.
“A Cobrapol entende que o fortalecimento da confiança pública da sociedade nas instituições passa, necessariamente, pela valorização e pelo reconhecimento dos profissionais que atuam na linha de frente da segurança pública”, afirma a nota.
Na Câmara dos Deputados, a fala do presidente também repercutiu. O presidente da Frente Parlamentar de Segurança Pública, deputado Coronel Alberto Fraga (PL-DF), publicou nota na mesma linha. No texto, o parlamentar afirma que Lula lançou “injustificadamente” suspeitas sobre o trabalho das Polícias Civis, “atingindo a honra e a substituição” dos agentes.
Essa não foi a única polêmica provocada pela fala de Lula no Conselhão. No mesmo discurso, o presidente afirmou que “rico não compra telefone roubado”, mas pobres, sim.
— Quem é que não gosta de comprar uma coisinha barata? Todo mundo gosta. Essa inquietação econômica de quem tá com telefone roubado mexeu com a minha cabeça. Eu não posso ficar com essa dúvida, porque o telefone seguro vai deixar 200 milhões de brasileiros tranquilos de que eles não vão ter mais o seu celular roubado — disse o petista.
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