Poder e Governo
Renan Santos tenta dar ares de maturidade ao MBL em pré-campanha à Presidência
Fenômeno digital, presidenciável do Missão rejeita comparação com Pablo Marçal e busca se apresentar como a nova direita; ativista cita Javier Milei e Nayib Bukele como referências
Com sotaque paulistano carregado, cabelo desalinhado e traje formal — embora sem paletó e gravata —, o ativista Renan Santos, de 42 anos, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), apresentou-se na semana passada a uma plateia de executivos da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. Pré-candidato à Presidência pelo Missão, ele emendou frases em ritmo acelerado, quase sem pausas, em um exercício que considera leve para quem, segundo o próprio, costuma passar “mais de duas horas falando sem parar em lives na internet”.
— Eu ia imitar o (Jair) Bolsonaro, mas me falaram que eu não posso mais fazer isso, pois pareço um idiota — disse, ao relatar um suposto encontro entre o ex-presidente e o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), principal porta-voz de seu grupo político, durante debates sobre a reforma da Previdência.
Segundo pelotão
Apostando no desgaste de Flávio Bolsonaro em uma eventual campanha ao Palácio do Planalto, Renan tenta conferir uma imagem de maior maturidade ao MBL. Afirma querer se afastar do que chama de “liberobobismo”, embora ainda recorra às frases de efeito que ajudaram a impulsionar o movimento na última década.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira aponta o presidenciável do Missão — partido criado em novembro do ano passado pela militância do MBL — com 3% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 29%, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera o levantamento, com 39%. Renan figura em um distante segundo pelotão, ao lado dos ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), também com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%.
A estratégia de Renan é investir fortemente em conteúdo nas redes sociais e participar de debates e sabatinas para ampliar seu conhecimento junto ao eleitorado. Levantamento Datafolha de 22 de maio mostrou que 73% dos entrevistados não o conhecem. Mesmo assim, nem a plateia da Faria Lima demonstrou plena confiança nesse plano.
Sem tempo de propaganda gratuita em rádio e televisão, o Missão aposta no ambiente digital como principal meio de difusão de suas ideias.
Entre operadores do mercado financeiro, a avaliação predominante é que Renan tem hoje viabilidade semelhante à de Caiado ou Zema. Um executivo influente da Faria Lima disse ao GLOBO que a melhor alternativa, no momento, poderia ser uma composição entre Renan e Caiado, unindo a experiência administrativa do ex-governador ao apelo do líder do Missão entre o público jovem, especialmente em torno da pauta de segurança pública.
Renan, no entanto, afirma ter sido ignorado até agora pelos adversários. Ele aposta que não seria tratado com respeito em eventuais conversas sobre aliança com outros candidatos de direita ao Planalto, aos quais critica pela “postura contida em relação ao filho de Bolsonaro”.
— Não existe meio gângster — afirmou, na Faria Lima, ao se referir a Flávio. Em seguida, completou: — Tenho que deixar claro para vocês: votar no Flávio é votar num bandido ligado ao Comando Vermelho.
Procurada, a assessoria do senador informou que Flávio Bolsonaro “não irá comentar”.
Kataguiri afirma que, ao lançar Renan, o MBL não pretende quebrar a polarização, mas ocupar um dos polos.
— Nós nos consideramos uma direita legítima, letrada, diferente do Flávio. Ele tem problemas cognitivos insanáveis. Temos propostas, um projeto, conhecemos a doutrina liberal e a conservadora, os autores, as políticas públicas baseadas em evidência. Não acreditamos que a polarização será quebrada, nós assumimos é o polo da direita.
Renan cita como referências dois símbolos da ultradireita: o presidente da Argentina, Javier Milei, e o de El Salvador, Nayib Bukele. Do primeiro, diz admirar o discurso de austeridade, os memes com motosserra e a adoção do “sincericídio” na pauta fiscal. Do segundo, alvo de denúncias por violações de direitos humanos, prisões arbitrárias e detenções sem autorização judicial, destaca o combate a facções criminosas.
“No cabelo, sou Milei, e na barba, Bukele”, disse Renan na Faria Lima. Ex-estudante de Direito da USP, ele abandonou o curso, foi filiado ao PSDB entre 2010 e 2015 e ganhou notoriedade ao organizar manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Em 2018, o MBL apoiou Bolsonaro, mas rompeu posteriormente com o ex-presidente, movimento que provocou uma debandada de integrantes à época.
Com base formada majoritariamente por homens jovens, o MBL adotou a tática do barulho nas redes sociais para ampliar seu alcance e se manter em evidência. Paródias, memes, dancinhas e vídeos gravados de surpresa para constranger adversários compuseram o repertório midiático do grupo, com uma linguagem de confronto que, em algumas ocasiões, assumiu contornos machistas e extremistas.
Dois episódios ilustram esse histórico. Em fevereiro de 2022, Kataguiri declarou no podcast Flow que a Alemanha havia errado ao criminalizar o nazismo, “por mais absurdo que eu considere a ideologia”. Depois, pediu desculpas e afirmou ter sido mal interpretado. Outro expoente do movimento, o ex-deputado estadual Arthur do Val (SP), perdeu o mandato após dizer, em áudio enviado a integrantes do MBL, que mulheres ucranianas com quem teve contato durante viagem de apoio a refugiados da guerra contra a Rússia “são fáceis, porque são pobres”.
Em meio aos embates entre o MBL e o bolsonarismo, em 2021, a ex-ministra da Mulher e hoje senadora Damares Alves (Republicanos-DF) publicou nas redes sociais um vídeo gravado cerca de três anos antes. Na gravação, Renan convocava integrantes do MBL para irem a um bar em São Paulo, escolhido por sugestão de uma colega. “Se não nos deixarem entrar, ela será estuprada”, afirmou Renan, enquanto os demais repetiam a frase em coro. Em nota, o movimento disse se tratar “de uma brincadeira” e afirmou que as pessoas no grupo “estavam bêbadas”.
Outsider
Na plateia da Faria Lima, nomes do mercado financeiro traçaram paralelos entre Renan e o influenciador Pablo Marçal, outsider que ficou em terceiro lugar na eleição para a Prefeitura de São Paulo em 2024. O líder do Missão rejeita a comparação. Para ele, Marçal é “o oposto daquilo que a gente faz”, “um vendedor de curso” que soube aproveitar o vácuo bolsonarista e criar “um efeito manada”.
— Tirando o fato de eu ser um cara que veio da internet, é só isso. O que eu acho dele os meus advogados me proíbem de dizer — afirmou Renan ao GLOBO.
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