Poder e Governo

Presidente do PT diz que caso ‘Dark Horse’ pode ampliar desgaste eleitoral do bolsonarismo

Edinho Silva afirma que novas revelações sobre o Banco Master podem aumentar os efeitos políticos do episódio e cita áudio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Agência O Globo - 13/06/2026
Presidente do PT diz que caso ‘Dark Horse’ pode ampliar desgaste eleitoral do bolsonarismo
Edinho Silva - Foto: Reprodução / Instagram

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, avalia que o caso envolvendo o financiamento do Banco Master ao filme “Dark Horse” tem potencial para gerar desgaste político ao campo bolsonarista, caso as investigações avancem. Em entrevista ao GLOBO, o dirigente afirmou que a divulgação de novos fatos pode ampliar o impacto eleitoral do episódio e defendeu a associação do banco ao período em que Jair Bolsonaro esteve na Presidência da República.

Ao comentar a divulgação de um áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Edinho afirmou que o conteúdo evidencia uma relação de proximidade entre os dois.

— O áudio do Flávio Bolsonaro com o Daniel Vorcaro é factual, não é hipótese. A relação que ele demonstra ali é de intimidade — disse.

Na entrevista, o presidente do PT sustentou que o avanço das investigações tende a reforçar, na percepção da opinião pública, a ligação do banco com o governo Bolsonaro, ao mesmo tempo em que destacaria a atuação do governo Lula na apuração de eventuais irregularidades.

Questionado sobre os reflexos do caso para uma eventual candidatura de Flávio Bolsonaro, Edinho afirmou acreditar que o senador conseguirá preservar parte de sua base de apoio, mas ponderou que isso não significa manter a mesma força para disputar um projeto nacional.

— O bolsonarismo tem uma força social grande, mas conseguir sobreviver é uma coisa e ter força eleitoral para disputar projeto é outra — afirmou.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Edinho Silva, coordenador da campanha à reeleição de Lula, ao GLOBO.

O ministro Guilherme Boulos disse que a campanha de Lula vai debater a reforma do Judiciário. Como será isso?

O modelo político brasileiro ruiu, apodreceu. Não há mais como sustentar esse modelo político que está aí. Colocamos como prioridade a reforma do Poder Judiciário. O que estamos fazendo é ouvir especialistas e pessoas que acompanham esse debate. O PT, tendo a sua proposta, vai dialogar com os partidos aliados. O programa de governo do presidente não é um programa do PT; ele precisa contemplar todos os partidos aliados. E, claro, o presidente Lula tem que querer fazer esse debate na campanha.

Mas o presidente quer?

Ainda não conversei com ele sobre isso.

Vocês têm uma proposta de reforma eleitoral?

Eu tenho uma proposta como presidente do PT. Não sei se é a proposta que o partido defenderia, mas eu defendo o voto em lista. Ninguém sabe o que pensa o partido A ou o partido B. A sociedade criou uma cultura de votar no indivíduo. Temos um Congresso Nacional ocupado por influenciadores que, muitas vezes, não sabem qual é o papel do Estado, o que é o SUS ou o que é pacto federativo.

Essa proposta estará no programa de governo de Lula?

Não sei se haverá espaço para colocar isso no programa de governo, mas acho que o PT tem que defender. Se houver espaço, colocamos. O programa de governo é do PT, dos partidos aliados e de setores da sociedade que vão apoiar o presidente Lula.

Como construir governabilidade em um eventual quarto mandato, para evitar problemas como os vistos, por exemplo, na rejeição de Jorge Messias para o Supremo?

Penso que devemos priorizar a reforma político-eleitoral. Deveríamos acabar com as emendas impositivas.

Mas Lula criticou as emendas na campanha de 2022 e não conseguiu mexer nelas. Por que conseguiria agora?

Não podemos ter o Congresso executando R$ 62 bilhões do Orçamento. Isso não faz o menor sentido. Esvazia as atribuições do presidente da República. Esse modelo de governabilidade que está aí, de balcão, de negociação para liberação de emendas, é muito ruim. Não há como construir uma nova governabilidade sem uma reforma político-eleitoral. Com a capacidade atual de execução orçamentária do Congresso, quase instituímos um semiparlamentarismo no Brasil.

Lula fará uma campanha mais à esquerda do que em 2022?

Não caracterizo dessa forma. Acho que ele fará uma campanha defendendo seu legado e tudo o que realizou no terceiro mandato. É o governo mais exitoso da história brasileira. E precisamos apresentar propostas de futuro.

O programa de governo será mais ousado?

Eu não diria ousado. Acho que será um programa de governo que sinalize mais para mudanças estruturantes. Vai enfrentar o debate da transição energética, das terras raras, de uma política de segurança pública efetiva, da educação como eixo central de desenvolvimento e da continuidade da reforma da renda.

Na esquerda, há quem defenda a flexibilização do arcabouço fiscal para que o governo possa fazer mais. Como o senhor vê isso?

Acho difícil termos um programa de governo que mexa em regras que se tornaram importantes. O presidente Lula tem uma posição de melhorar a eficiência do Estado, de gastar bem o dinheiro público. A discussão não está no arcabouço; está em como qualificamos e melhoramos o gasto público que temos hoje.

Qual é sua avaliação sobre a atuação de Gabriel Galípolo no Banco Central?

Talvez poucas pessoas no PT tenham defendido Galípolo mais do que eu. Ele é um profissional extremamente preparado e capacitado, com muito compromisso com o Brasil. Talvez tenha errado ao não iniciar antes a queda da taxa de juros. Hoje, evidentemente, vemos a situação das empresas e das famílias. Com a taxa de juros no patamar atual e com um ritmo de queda muito lento, isso impacta a renda das famílias e a capacidade de endividamento das empresas.

Qual espaço o caso Master terá na eleição?

Já está tendo impacto. E, se as investigações continuarem trazendo fatos à tona, terá muito impacto. O importante é que a sociedade comece a entender que o Banco Master foi criado no governo Bolsonaro. E quem pede para investigar o Banco Master e combater fraudes é o governo do presidente Lula. Uma coisa são mentiras e ilações; outra é aquilo que é factual. O áudio do Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro é factual, não é hipótese. A relação que ele demonstra ali é de intimidade.

O senhor acredita que a campanha de Flávio Bolsonaro conseguirá sobreviver após a revelação do áudio com Daniel Vorcaro?

Acho que consegue sobreviver. Claro que o bolsonarismo tem uma força social grande no Brasil, mas conseguir sobreviver é uma coisa; ter força eleitoral para disputar um projeto é outra.

Como o PT vai resolver o palanque em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país?

É evidente que a situação é preocupante. Foi algo que não escolhemos. Tínhamos um pré-candidato e iríamos apoiar Rodrigo Pacheco. No último mês, ele decidiu não ser mais candidato. Evidentemente, priorizamos o diálogo com Alexandre Kalil, mas ele prefere construir a candidatura dele sem esperar o PT amadurecer uma posição. Vamos manter o diálogo com as lideranças com quem estamos conversando e também considerar muito a posição do diretório estadual de Minas, que é priorizar uma candidatura própria.

O PT tem acionado mais o TSE em relação a notícias falsas. O partido reforçou o monitoramento das redes?

Estamos com um monitoramento muito forte. Nosso jurídico está investindo em ferramentas e monitoramento para que possamos ter muita agilidade nas ações. Já entramos com mais de 40 ações para que vídeos, ataques e figurinhas fossem retirados do ar. Essa estrutura nós nunca tivemos.

Houve uma sequência de decisões de Donald Trump em relação ao Brasil, como investigações comerciais, a classificação de facções como organizações terroristas e o fato de ele ter recebido Flávio Bolsonaro. Na sua avaliação, há uma intervenção dos Estados Unidos na eleição brasileira?

Não. Espero que não haja, mas os indícios não são bons. Também há indícios de ingerência, pelo menos de empresas americanas, em eleições de outros países da América Latina.

O senhor se refere às big techs?

Sim. Há precedentes graves. Então, nosso papel é impedir que essa interferência se efetive. Temos que tomar medidas políticas e jurídicas, fazer denúncias. Temos que enfrentar.