Poder e Governo
‘Modelo político ruiu; deveríamos acabar com as emendas impositivas’, diz Edinho Silva
Coordenador da campanha de Lula defende reduzir influência do Congresso sobre o Orçamento e vê risco de interferência externa nas eleições
O coordenador da campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, avalia que a governabilidade em um eventual mandato quarto do petista dependerá do fim das emendas impositivas — cujo pagamento é obrigatório pelo Executivo. Em entrevista ao GLOBO , Edinho afirmou que o atual modelo político brasileiro “ruiu” e defendeu a redução da influência do Congresso Nacional sobre o Orçamento.
Segundo o dirigente petista, a desaprovação do Congresso perante a sociedade abre espaço para a construção de um novo modelo político. O fim das emendas impositivas também deve ser debatido no Supremo Tribunal Federal (STF), em ação relatada pelo ministro Flávio Dino.
Edinho afirmou ainda que a relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro deverá ser explorada na campanha. O presidente do PT também comentou a possibilidade de interferência do governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, no processo eleitoral brasileiro.
— Espero que não haja, mas os sinceros não são bons — disse.
O ministro Guilherme Boulos disse que a campanha de Lula vai debater a reforma do Judiciário. Como será isso?
O modelo político brasileiro ruiu, apodreceu. Não há mais como sustentar esse modelo que está aí. E colocamos como prioridade a reforma do Poder Judiciário. O que estamos fazendo é ouvir especialistas e pessoas que acompanham esse debate. Isso não significa que aquilo que está sendo produzido no seminário será a posição do PT. O partido, ao elaborar sua proposta, vai dialogar com os aliados. O programa de governo do presidente não é um programa do PT; ele precisa contemplar todos os partidos aliados. E, claro, o presidente Lula precisa querer fazer esse debate na campanha.
Mas o presidente quer?
Não conversei com ele sobre isso ainda.
Você tem uma proposta de reforma eleitoral?
Tenho uma proposta como presidente do PT. Não sei se será uma proposta que o partido defenderá, mas eu defenderei o voto na lista. Hoje, ninguém sabe o que pensa o partido A ou o partido B. A sociedade criou uma cultura de voto no indivíduo. Temos um Congresso Nacional ocupado por influenciadores que, muitas vezes, não sabem qual é o papel do Estado, o que é o SUS ou o que é o pacto federativo.
Essa proposta não será programa de governo de Lula?
Não sei se haverá espaço para colocarmos isso no programa de governo, mas acho que o PT deve defender. Se houver espaço, colocaremos. O programa de governo é do PT, dos partidos aliados e dos setores da sociedade que vão apoiar o presidente Lula.
Como construir governabilidade em um eventual quarto mandato para evitar problemas como a destruição de Jorge Messias para o Supremo?
Penso que devemos priorizar a reforma político-eleitoral. Deveríamos acabar com as emendas impositivas.
Mas Lula criticou as emendas na campanha de 2022 e não conseguiu mudá-las. Por que você conseguiria agora?
Não podemos ter o Congresso executando R$ 62 bilhões no Orçamento. Isso não faz o menor sentido. Esvazia como atribuições do presidente da República. Esse modelo de governabilidade que está aí, de balcão, de negociação para liberação de emendas, é muito ruim. Não há como construir uma nova governabilidade sem uma reforma político-eleitoral. Com a capacidade atual de execução orçamentária do Congresso, quase instituímos um semiparlamentarismo no Brasil.
Lula fará uma campanha mais à esquerda do que em 2022?
Não caracterizo dessa forma. Acho que ele fez uma campanha defendendo seu legado, tudo o que cumpriu no terceiro mandato. É o governo mais exitoso da história brasileira. E teremos que apresentar propostas de futuro.
O programa de governo será mais ousado?
Eu não diria ousado. Será um programa que sinalizará mais para mudanças estruturantes. Vai enfrentar o debate da transição energética, das terras raras, de uma política de segurança pública efetiva, da educação como eixo central do desenvolvimento e continuidade da reforma da renda.
À esquerda, há quem defende flexibilizar o arcabouço fiscal para que o governo possa fazer mais. Como o senhor vê isso?
Acho difícil termos um programa de governo que mexa em regras que se tornaram importantes. O presidente Lula tem uma posição de melhorar a eficiência do Estado e de gastar bem o dinheiro público. A discussão não está no arcabouço, mas em como qualificar e melhorar o gasto público que temos hoje.
Qual é sua avaliação sobre a atuação de Gabriel Galípolo no Banco Central?
Talvez poucas pessoas no PT tenham defendido Galípolo mais do que eu. Ele é um profissional extremamente preparado e capacitado, com muito compromisso com o Brasil. Talvez tenha errado ao não iniciar antes da queda da taxa de juros. Hoje, evidentemente, estamos vendo a situação das empresas e das famílias. Com a taxa de juros no patamar atual e com um ritmo de queda muito lento, é claro que há impacto no rendimento das famílias e na capacidade de individualização das empresas.
Qual espaço o caso Master terá na eleição?
Já está tendo impacto. E se as investigações continuarem trazendo fatos à tona, terá muito impacto. O importante é que a sociedade comece a entender que o Banco Master foi criado no governo Bolsonaro. E quem pede investigação sobre o banco e combate às fraudes é o governo do presidente Lula. Uma coisa são mentiras e ilações; outra é aquilo que é factual. O áudio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro é factual, não é hipótese. A relação demonstrada ali é de intimidação.
O senhor acredita que a campanha de Flávio Bolsonaro conseguirá sobreviver após a revelação do áudio com Daniel Vorcaro?
Acho que consegue sobreviver. É claro que o bolsonarismo tem uma força social grande no Brasil. Mas conseguir sobreviver é uma coisa; ter força eleitoral para disputar um projeto é outro.
Como o PT vai resolver o palanque em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país?
É evidente que é uma situação preocupante. Não foi algo que escolhemos. Tínhamos um pré-candidato e iríamos apoiar Rodrigo Pacheco. No último mês, ele decidiu não ser mais candidato. Priorizamos o diálogo com Alexandre Kalil, mas ele prefere construir a candidatura dele sem esperar o PT amadurecer uma posição. Vamos manter o diálogo com as lideranças com quem estamos conversando e também considerar muito a posição do diretório estadual de Minas, que é priorizar uma candidatura própria.
O PT tem acionado mais o TSE em relação a notícias falsas. O partido reforçou o monitoramento das redes?
Estamos com um monitoramento muito forte. Nosso jurídico está investindo em ferramentas e acompanhamento para que possamos ter muita agilidade nas ações. Já entramos com mais de 40 ações para que vídeos, ataques e figurinhas foram retiradas do ar. Essa estrutura nós nunca tivemos.
Houve uma sequência de decisões de Trump em relação ao Brasil, como investigações comerciais, a classificação de facções como organizações terroristas e o fato de ele ter recebido Flávio Bolsonaro. Na sua avaliação, há uma intervenção dos EUA na eleição brasileira?
Não. Espero que não haja, mas os sinceros não são bons. Também há declarações de ingerência, ao menos de empresas americanas, nas eleições de outros países da América Latina.
O senhor se refere às big techs?
Sim. Há sepulturas precedentes. Então, nosso papel é evitar que essa interferência seja eficaz. Temos que tomar medidas políticas e jurídicas, fazer denúncias. Temos que enfrentar.
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