Poder e Governo

Aliados de Lula disputam influência sobre estratégia digital da pré-campanha

Em meio ao embate interno, PT lança plataforma para organizar a militância nas redes sociais

Agência O Globo - 12/06/2026
Aliados de Lula disputam influência sobre estratégia digital da pré-campanha
Lula - Foto: © ANSA/EPA

Enquanto o PT tenta ampliar sua presença nas redes sociais para divulgar ações do governo e intensificar o embate com o bolsonarismo, aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva travam, nos bastidores, uma disputa por influência no comando da estratégia digital da campanha à reeleição.

A queda de braço gira em torno de quem terá a palavra final sobre o posicionamento de Lula nas plataformas digitais, consideradas um dos principais campos de batalha da disputa presidencial — e um ambiente em que o bolsonarismo costuma atuar com mais desenvoltura.

De um lado está o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, que escalou Raul Rabelo, seu sócio, para comandar o plano de publicidade para TV e rádio. De outro, estão a jornalista Nicole Briones e o fotógrafo Ricardo Stuckert, que deverão gerenciar juntos o Instagram de Lula. Briones também é responsável pelas redes do PT.

Apesar da forte influência junto ao presidente, Sidônio não terá o comando do perfil pessoal de Lula, que reúne 14,7 milhões de seguidores e é a principal ferramenta de comunicação do petista no ambiente digital.

Stuckert e Briones defendem uma postura mais agressiva no enfrentamento político nas redes, a exemplo do que já vem sendo adotado nos perfis do PT em ataques ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário de Lula na corrida presidencial. Essa ala avalia que a eleição de 2026 exigirá uma abordagem mais confrontativa do que a adotada quatro anos atrás.

O grupo também está alinhado ao presidente do PT, Edinho Silva, que defendeu internamente a exploração política da relação de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Secom: foco em soberania

Já o grupo ligado a Sidônio, responsável pelas redes oficiais do governo, aposta em uma linha mais voltada à valorização da soberania, do orgulho nacional, das festas de São João e de temas considerados mais leves.

Desde que chegou ao Planalto, o ministro ampliou o número de seguidores e o engajamento das redes institucionais da gestão petista, com uma linguagem mais acessível para divulgar ações da administração federal. A Secom administra o perfil @govbr no Instagram, LinkedIn, Kwai, TikTok e Facebook, respeitando limites jurídicos por se tratar de contas institucionais.

Nesse contexto, Sidônio tentou emplacar a secretária de Estratégia e Redes, Mariah Queiroz, para comandar a estratégia digital da campanha, mas o plano não avançou. Ao menos por enquanto, ela permanece no governo.

Mariah chegou a consultar a Comissão de Ética Pública sobre a possibilidade de abrir uma empresa para prestar serviços a agências especializadas em marketing político e comunicação estratégica, em uma eventual saída do cargo.

Lula, no entanto, optou por não reproduzir em suas redes pessoais o mesmo modelo adotado na conta oficial do governo, administrada por Mariah desde janeiro de 2025. Segundo O GLOBO, o presidente reclamou com Sidônio do uso de gatinhos e capivaras nas redes institucionais, por considerar que a estratégia infantilizava a comunicação. O modelo, porém, foi mantido depois que Lula foi convencido do alcance das publicações. Procurada, Mariah não se manifestou.

Como contraponto, o grupo ligado a Sidônio contratou o jornalista Giácomo Degani para contribuir com as estratégias digitais da campanha. Ele ficará responsável por uma nova conta criada para mostrar a mobilização da campanha pelo país.

Degani trabalhou na campanha de 2018, quando o ex-ministro Fernando Haddad foi o candidato do PT à Presidência, e é próximo de Sidônio.

Embora a chegada de Degani tenha sido interpretada como uma reação ao domínio de Stuckert e Briones sobre a conta pessoal de Lula durante a campanha, Sidônio afirmou a interlocutores que está focado no governo, negou disputa por influência e reforçou que cada integrante da equipe de comunicação terá uma função específica, todos sob o comando de Raul Rabelo. Procurados, Sidônio e Rabelo não se manifestaram.

Ainda não está definido se o ministro permanecerá no Planalto ou se passará a se dedicar formalmente à campanha. A decisão depende de uma conversa com Lula. Caso deixe o governo, a tendência é que leve parte da equipe da Secom.

Stuckert, fotógrafo de Lula desde 2002 e responsável pela imagem do presidente, deve deixar o cargo de secretário de Audiovisual até o fim de junho. Ao se integrar à campanha, dividirá as tarefas com Briones, funcionária do PT que já participa da rotina da tentativa de reeleição.

A jornalista cuidou das redes de Lula no período em que ele esteve preso em Curitiba e também na pré-campanha de 2022. Ela tem ainda passagem pelo governo, quando trabalhou na EBC. Procurado, Stuckert não se manifestou.

— Não há disputa. Fui contratada pelo PT para fazer o reposicionamento digital das redes do partido. E é isso que estou fazendo. Quem define a gestão das redes pessoais é o presidente Lula — afirmou Briones.

Disputas passadas

O comando das redes de Lula já foi alvo de disputa em outras campanhas. Mesmo sem usar celular e sem familiaridade com as plataformas, o presidente costuma dar a palavra final sobre o tema e tem escolhido pessoas de seu círculo mais próximo para cuidar de sua voz no ambiente digital.

Apesar da influência direta de Sidônio, o modelo de comunicação da campanha deverá ser fragmentado, com participação de Raul Rabelo, Ricardo Stuckert, Nicole Briones e Paulo Okamotto, amigo de Lula e responsável por gerir perfis de esquerda que defendem o petista.

Em paralelo às disputas internas, o PT lançou na terça-feira uma plataforma para organizar a militância nas redes sociais. Apoiadores receberão conteúdos para divulgação e tarefas específicas a cumprir.

Na largada, a estratégia deve explorar temas ligados à Copa do Mundo, com uso do verde e amarelo, seguindo orientações já apresentadas pelo próprio presidente.