Poder e Governo

Vorcaro teme deixar cela especial após PF negar delação

Dono do Banco Master relatou a interlocutores medo de voltar a espaço comum e alternou reuniões com momentos de tensão e angústia

Agência O Globo - 12/06/2026
Vorcaro teme deixar cela especial após PF negar delação

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, confidenciou a pessoas que o visitaram nos últimos dias o temor de perder a cela especial, condição que havia obtido para ter mais tempo de conversa com seus advogados sobre os termos de um eventual acordo de delação premiada.

Na quinta-feira, Vorcaro sofreu um duplo revés: a Polícia Federal negou o avanço das tratativas de delação e pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que o executivo deixe a carceragem da superintendência. A medida pode levá-lo novamente à Penitenciária Federal de Brasília.

Mendonça ainda não decidiu o caso, mas as últimas horas representaram um baque na estratégia do banqueiro. Segundo interlocutores que estiveram na superintendência, Vorcaro vinha alternando momentos dedicados a exercícios físicos e leituras com episódios de tensão, angústia, solidão e até choro.

A defesa espera que Mendonça decida sobre o destino de Vorcaro ainda nesta sexta-feira, após ouvir também a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Sem televisão na cela, o banqueiro tem passado boa parte do tempo lendo e fazendo exercícios. De acordo com pessoas próximas, ele já leu mais de 50 livros durante o período na carceragem — a maioria biografias ou obras sobre crises no mercado financeiro, tema que passou a viver de perto. A Bíblia também permanece à cabeceira.

O tempo também tem sido dedicado a conversas com advogados, realizadas das 9h às 17h, para traçar estratégias que busquem reduzir danos à sua imagem e, como tem dito, “zerar o seu CNPJ”.

Em um escritório com mesa e cadeiras próximo à cela, Vorcaro conduz reuniões com criminalistas e outros defensores especializados em direito empresarial e mercado de capitais para tratar das ações às quais responde na Justiça.

Além de rascunhar anexos de uma possível delação, com fatos e nomes, ele vinha indicando a localização de documentos na tentativa de comprovar que seus fundos não eram compostos apenas por papéis podres. Segundo pessoas próximas, a ideia é buscar o pagamento de parte da dívida de R$ 60 bilhões acumulada no suposto esquema de fraudes financeiras apontado pelas autoridades.

Na avaliação de Vorcaro, recuperar parte do prejuízo em uma ação civil relacionada à liquidação do Master poderia ajudá-lo no processo criminal — e até sensibilizar o Supremo Tribunal Federal a relaxar sua prisão.

A interlocutores, ele reconheceu que a rotina atual, embora muito distante da que tinha em liberdade, é melhor do que a enfrentada nos dias em que foi transferido para uma cela de passagem da superintendência — menor do que a de Estado-Maior e com acesso aos advogados limitado a até 30 minutos. Também considera a situação menos dura do que a vivida no Presídio Federal de Brasília, onde passou dias em silêncio.

Os momentos de solidão continuam sendo uma das principais queixas do banqueiro, segundo interlocutores. Na última semana, Vorcaro ficou cinco dias sem receber visitas por causa do feriado de Corpus Christi e mais um dia em razão do fechamento da superintendência para dedetização.