Poder e Governo
Deputados governistas levam aos EUA defesa do Pix e cooperação contra facções
Grupo buscou se contrapor a articulações bolsonaristas junto a autoridades americanas; extradição de Ramagem e investigações sobre o filme “Dark Horse” também entraram na pauta
Uma comitiva de parlamentares da base do governo Lula esteve nos Estados Unidos, na semana passada, para tratar de três temas centrais em agendas com autoridades locais: as novas tarifas determinadas pelo presidente Donald Trump contra o Brasil, a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas e investigações que apontam possíveis vínculos entre a família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o Banco Master.
Participaram da missão os deputados Pedro Uczai (PT-SC), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Pedro Campos (PSB-PE) e André Janones (Rede-MG). O grupo apresentou suas demandas a integrantes do Partido Democrata e da Organização dos Estados Americanos (OEA), mas não conseguiu reuniões com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos nem com autoridades do Partido Republicano.
A viagem foi articulada como uma tentativa de contraponto às investidas de aliados de Bolsonaro junto a autoridades americanas. Entre os dias 3 e 5 de junho, os deputados brasileiros foram recebidos pelas deputadas Ilhan Omar e Sydney Kamlager-Dove, além do deputado Jim McGovern. A equipe do senador Bernie Sanders também ouviu as demandas apresentadas pela comitiva. No mês anterior, uma delegação bolsonarista esteve na Casa Branca em agenda ligada a Trump.
Soberania brasileira foi uma das principais bandeiras levadas pelos parlamentares governistas. No primeiro documento entregue, o grupo defende a cooperação dos Estados Unidos no combate ao crime organizado, mas alerta contra qualquer possibilidade de intervenção unilateral americana no Brasil. Neste mês, entrou em vigor a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
Os parlamentares também solicitaram apoio dos Estados Unidos para a extradição do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL), condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos de prisão no processo sobre a trama golpista. O grupo pediu ainda cooperação no caso do empresário Ricardo Magro, que vive em Miami e é acusado pela Polícia Federal (PF) de causar prejuízo bilionário aos cofres públicos por meio de sonegação fiscal envolvendo a Refit.
O segundo documento trata das investigações sobre pagamentos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Segundo revelou o jornal The Intercept Brasil, Vorcaro teria autorizado o repasse de R$ 61 milhões ao longa após pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato ao Planalto.
Os parlamentares governistas afirmam haver indícios de lavagem de dinheiro e pedem cooperação das autoridades americanas para acionar mecanismos de investigação capazes de rastrear o percurso dos recursos. O grupo cita a necessidade de apurar uma possível “triangulação financeira transnacional” e menciona um “potencial benefício direto ou indireto a Eduardo Bolsonaro”.
No documento, os deputados da base de Lula afirmam que Eduardo Bolsonaro “tem mantido atuação política em território norte-americano em articulação contra autoridades brasileiras, contra instituições nacionais e em favor de pressões externas sobre o Brasil”.
A terceira frente apresentada pela comitiva contesta a investigação que deu origem às novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos contra o Brasil e pede o cancelamento da medida. Entre os argumentos usados pela Casa Branca para justificar o tarifaço estão comércio digital e serviços de pagamento eletrônico — contexto em que se inserem críticas ao Pix e decisões envolvendo big techs —, tarifas preferenciais consideradas injustas pelos EUA, aplicação de leis anticorrupção, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
“O Pix é muito popular e é nosso. Não vamos aceitar intervenção internacional a ele”, afirmou Jandira Feghali. Segundo a deputada, parlamentares democratas demonstraram surpresa com os temas apresentados nas reuniões. “Estão em choque. Eles não se surpreendem com o Trump, mas acharam inadmissíveis as medidas contra o Brasil. Estão preocupados com intervenções americanas em democracias de outros países”, disse.
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