Poder e Governo
Campanha de Lula tem disputa por influência na estratégia digital
Sidônio Palmeira escalou sócio para planos de rádio e TV, enquanto redes pessoais seguem sob influência de Ricardo Stuckert e Nicole Briones
Enquanto o PT tenta ampliar a presença nas redes sociais para divulgar ações do governo e intensificar o debate com o bolsonarismo, aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva travam, nos bastidores, uma disputa por influência no comando da estratégia digital da campanha. A queda de braço envolve quem terá a palavra final sobre o posicionamento de Lula nas plataformas, hoje um dos principais campos de batalha da disputa presidencial e ambiental em que o bolsonarismo atua com maior desenvoltura.
De um lado está o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, que escalou Raul Rabelo, seu sócio, para comandar o plano de publicidade animada à TV e ao rádio. Além disso, estão a jornalista Nicole Briones e o fotógrafo Ricardo Stuckert, que devem gerenciar juntos o Instagram de Lula. Briones também é responsável pelas redes do PT. Embora tenha forte influência junto ao presidente, Sidônio não terá o comando do perfil pessoal de Lula, que reúne 14,7 milhões de seguidores e é a principal ferramenta de comunicação do petista no ambiente digital.
Stuckert e Briones defendem uma postura mais agressiva no embate político nas redes, um exemplo do que já vem sendo divulgado nos perfis do PT nos ataques ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário de Lula na corrida presidencial. Essa avaliação que a eleição de 2026 exigirá uma abordagem de confronto mais intensa do que a utilizada há quatro anos. O grupo está alinhado ao presidente do PT, Edinho Silva, que defendeu internamente a exploração da relação do senador com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Já o grupo de Sidônio, responsável pelas redes oficiais do governo, aposta em uma linha mais voltada à valorização da soberania, do orgulho nacional, das festas de São João e de temas considerados mais leves. Desde que chegou ao Planalto, o ministro ampliou o número de seguidores e o engajamento das redes institucionais de gestão petista, com uma linguagem mais acessível para divulgar as ações da administração federal. A Secom administra as contas do perfil @govbr no Instagram, LinkedIn, Kwai, TikTok e Facebook.
Tentativa de emplacar aliada
O cenário levou Sidônio a tentar emplacar a segurança de Estratégia e Redes, Mariah Queiroz, no comando da estratégia digital da campanha, mas o plano não avançou. Pelo menos por enquanto, ela permanece no governo. A secretária chegou a consultar a Comissão de Ética Pública e indicou a intenção de abrir uma empresa para prestar serviços a agências especializadas em marketing político e comunicação estratégica, em uma eventual saída de carga.
Lula, no entanto, optou por não replicar em suas redes pessoais o mesmo modelo adotado na conta oficial do governo, administrado por Mariah desde janeiro de 2025. Como mostrou O GLOBO, o presidente reclamou com o ministro do uso de gatinhos e capivaras nas redes institucionais, por considerar que esse tipo de conteúdo infantilizava a comunicação. A estratégia, porém, foi mantida após Lula ser ampliada para o alcance das publicações. Procurada, Mariah não se manifestou.
Como contraponto, o grupo ligado a Sidônio na campanha contratou o jornalista Giácomo Degani para também contribuir com estratégias digitais. Ele deverá comandar uma nova conta, prevista para ser criada nesta quinta-feira, com foco em mostrar a mobilização da campanha pelo país. Degani trabalhou na campanha de 2018, quando o ex-ministro Fernando Haddad foi candidato do PT à Presidência, e é próximo de Sidônio.
Embora a chegada de Degani tenha sido interpretada como um movimento de ocorrência no domínio de Stuckert e Briones sobre a conta pessoal de Lula, Sidônio afirmou que interlocutores que estão focados no governo, negou haver disputa por influência e reforçou que cada membro da equipe de comunicação todos terá uma tarefa específica, sob o comando de Raul Rabelo. Procurados, Sidônio e Rabelo não se manifestaram.
Ainda não está definido se o ministro permanecerá no Planalto ou se dedicará formalmente à campanha. A decisão depende de uma conversa com Lula. Caso deixe o governo, a tendência é que leve parte da equipe da Secom com ele.
Outras campanhas tiveram embate
Stuckert, fotógrafo de Lula desde 2002 e responsável pela imagem do presidente, deverá deixar a carga de secretário de Audiovisual até o fim de junho. Ao se juntar à campanha, ele dividirá as tarefas com Briones, funcionária do PT que já participa da rotina da tentativa de reeleição. A jornalista cuidou das redes de Lula no período em que ele esteve preso em Curitiba, até a pré-campanha de 2022. Ela também já passou pelo governo, quando trabalhou na EBC. Procurado, Stuckert não se manifestou.
— Não tem disputa. Fui contratado pelo PT para fazer o reposicionamento digital das redes do partido. E é o que estou fazendo. Quem define a gestão das redes pessoais é o presidente Lula — afirmou Briones.
O comando das redes de Lula já foi alvo de disputas em outras campanhas. Mesmo sem usar celular e sem familiaridade com as plataformas, o presidente dá a palavra final sobre o tema e costuma escolher as pessoas de seu círculo mais próximo para representá-lo no ambiente digital. Apesar da influência direta de Sidônio, o modelo de comunicação da campanha será fragmentado, com Raul Rabelo, Stuckert, Briones e Paulo Okamoto, responsáveis por gerenciar os perfis de esquerda que defendem o petista.
Em paralelo às disputas internas, o PT lançou, na terça-feira, uma plataforma para organizar a militância nas redes. Apoiadores de conteúdo para divulgação e tarefas específicas a cumprir. Na largada, serão explorados temas ligados à Copa do Mundo, com o uso do verde e amarelo, seguindo orientações já apresentadas pelo próprio presidente.
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