Poder e Governo
Flávio mira eleitores fora da base bolsonarista para tentar reverter queda nas pesquisas
Aliados avaliam que senador precisa avançar entre mulheres, jovens e idosos para reduzir distância em relação a Lula
Na tentativa de conter a queda nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vai ampliar as ações de pré-campanha para alcançar grupos fora da chamada “bolha bolsonarista”. Aliados do pré-candidato à Presidência avaliam que ele precisa expandir apoio, especialmente entre mulheres, jovens e idosos, para reduzir o desgaste provocado pelo caso “Dark Horse” e diminuir a distância em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A estratégia ganhou força após a divulgação da pesquisa Genial/Quaest desta quarta-feira. O levantamento mostrou Lula à frente de Flávio no cenário geral e também nos recortes desses segmentos. A sondagem indicou ainda que 36% dos entrevistados afirmam que ainda podem mudar de candidato até outubro, dado que alimenta a avaliação da campanha de que há espaço para crescimento fora do núcleo mais fiel do bolsonarismo, embora eleitores independentes tenham migrado em maior proporção para o petista.
Nos bastidores, auxiliares do senador avaliam que a transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) já ocorreu em grande medida. O principal desafio, agora, seria conquistar eleitores independentes. A percepção é que o episódio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro expôs dificuldades da candidatura para dialogar com setores menos alinhados ideologicamente e acabou fortalecendo Lula entre grupos considerados decisivos.
O maior obstáculo aparece entre as mulheres. Segundo a Quaest, Lula registra 41% das intenções de voto nesse segmento, contra 24% de Flávio. Outros 13% afirmam ainda não saber em quem votar. A diferença de 17 pontos ajuda a explicar os acenos feitos pelo senador ao eleitorado feminino nos últimos meses. O desafio é ainda mais relevante porque as mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro.
Flávio tem buscado ampliar a interlocução com esse público, e o tema aparece inclusive nas discussões sobre a composição da chapa presidencial. O senador já afirmou que gostaria de ter uma mulher como vice e reforçou esse discurso recentemente durante o evento Brasil de Ideias Mulher, realizado pelo Grupo Voto, em São Paulo.
Na ocasião, ele defendeu a ampliação da participação feminina em postos de comando e disse ser favorável a “mais mulheres no governo e mais mulheres no Supremo Tribunal Federal”. Também deu destaque à ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, que discursou sobre independência financeira feminina e foi apresentada por aliados como exemplo de liderança feminina ligada ao campo conservador.
O esforço para reduzir a desvantagem entre as mulheres ocorre, porém, em um momento em que Michelle Bolsonaro, considerada uma das figuras mais populares do campo conservador junto ao eleitorado feminino, ainda não está plenamente engajada na pré-campanha presidencial. Nesta semana, a ex-primeira-dama afirmou que pretende apoiar a candidatura de Flávio, mas “no momento certo”, argumentando que sua prioridade segue sendo a recuperação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Apesar da desvantagem apontada pela pesquisa, aliados do senador afirmam que o cenário ainda está longe de estar consolidado. A deputada federal Greyce Elias (PL-MG) sustenta que diferentes levantamentos têm mostrado cenários distintos ao longo do ano e que a disputa permanece aberta.
— Flávio está cercado de mulheres fortes, e novas lideranças femininas têm chegado ao partido. Temos levado para esse debate um olhar muito próprio da mulher, que pensa no futuro, na família e nas próximas gerações. Quando a campanha avançar, temas como custo de vida, segurança, saúde, educação dos filhos e empreendedorismo estarão no centro das discussões — disse Greyce.
Outra aliada de Flávio, a deputada Júlia Zanatta (PL-SC), também reforça o discurso de que o senador pode ganhar espaço no eleitorado feminino.
— Eu acredito que tenha espaço para crescer. Vejo o Flávio com um perfil mais leve em relação a isso. Ele está sinalizando para ter uma vice mulher e tem condições de escolher um bom nome — afirmou.
Reservadamente, parlamentares do PL avaliam que há espaço para crescimento entre mulheres conservadoras. Esses interlocutores contrapõem o discurso adotado por Flávio a posições defendidas por setores da esquerda em debates sobre identidade de gênero. Na avaliação deles, pautas como o uso da expressão “pessoas que gestam” em documentos oficiais e a atuação da deputada Erika Hilton (Psol-SP) na comissão das mulheres poderiam afastar parte desse eleitorado e abrir espaço para o crescimento do senador.
Nos bastidores, contudo, aliados admitem que a direita tem “explorado pouco” episódios que envolvem gafes do petista, como a declaração em que Lula disse que, “se o cara é corinthiano, tudo bem”, ao comentar uma pesquisa sobre aumento da violência contra mulheres após jogos de futebol.
Faixa etária também está na mira
Entre os jovens, outro grupo tratado como prioritário pela campanha, Lula aparece com 36% das intenções de voto, contra 30% de Flávio. Outros 11% se declaram indecisos. Integrantes da pré-campanha avaliam que esse é um dos segmentos mais voláteis da disputa e, por isso, um dos que oferecem maior potencial de crescimento.
Embora dialogue nas redes com diferentes públicos, Flávio tem intensificado a produção de conteúdo para plataformas digitais e apostado em vídeos e formatos voltados também ao eleitorado mais jovem. Nesse campo, tanto o petista quanto o senador disputam espaço com outro pré-candidato, Renan Santos (Missão), que tem encontrado maior receptividade entre eleitores jovens ao adotar um discurso antissistema. Ele aparece na sequência das intenções de voto nesse segmento, com 4% entre eleitores de 16 a 34 anos.
Na última eleição, em 2024, jovens dessa faixa etária somavam 51.077.225 eleitores, o equivalente a 32,76% do eleitorado.
Entre os idosos, a situação é semelhante e também acende alerta, embora o grupo represente percentual menor do eleitorado, cerca de 21% em 2024. Segundo a pesquisa Quaest, Lula tem 41% das intenções de voto entre eleitores com 60 anos ou mais no primeiro turno, contra 29% de Flávio. Outros 9% ainda não escolheram candidato.
O desempenho ajuda a explicar a cautela da pré-campanha ao abordar temas como Previdência. A atenção foi reforçada após declarações do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, sobre a necessidade de discutir mudanças nessa área. Segundo interlocutores do parlamentar, suas falas foram mal interpretadas e posteriormente esclarecidas.
A preocupação decorre do forte impacto que temas ligados à aposentadoria costumam ter sobre esse eleitorado. Integrantes da campanha afirmam que o plano de governo já está em fase avançada de elaboração e deve incluir propostas para a área, mas o conteúdo vem sendo mantido sob sigilo para evitar desgastes prematuros.
Auxiliares reconhecem ainda que ampliar a candidatura para além da base bolsonarista exigirá equilibrar pautas que mobilizam o eleitorado mais fiel da direita com temas capazes de dialogar com públicos mais amplos. O desafio ficou evidente nesta semana, quando Flávio voltou a defender medidas como a redução da maioridade penal e a castração química para condenados por crimes sexuais durante discurso na Bahia Farm Show, em aceno à sua agenda mais dura para a segurança pública.
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