Poder e Governo
Institutos veem erro em liminar de Nunes Marques, mas evitam defesa pública da AtlasIntel
Relação difícil com Andrei Roman e divergências sobre transparência inibem mobilização formal de empresas do setor
Desde a decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na segunda-feira, que suspendeu a pesquisa da AtlasIntel, o grupo de WhatsApp “Conselho Opinião Pública”, formado por 20 dos maiores nomes do mercado de pesquisas eleitorais do Brasil, passou a discutir como o setor deveria se posicionar.
Embora haja consenso entre protagonistas do segmento, como Quaest, Ipsos-Ipec, Datafolha, Ipespe e Ideia, de que Nunes Marques errou na decisão, nem todos concordaram com uma defesa formal e pública da AtlasIntel e de seu fundador, o cientista político romeno Andrei Roman.
A trajetória de Andrei mistura relevância e controvérsia. Com um método de coleta de dados 100% digital — diferente dos concorrentes, que utilizam entrevistas presenciais ou por telefone —, o Atlas é reconhecido por ter acertado resultados recentes em eleições nos Estados Unidos, na Europa e na América do Sul. No meio político brasileiro, também ganhou fama por captar com antecedência movimentos silenciosos da opinião pública.
Apesar do crescimento no mercado nos últimos dez anos, o Atlas não aceita se filiar à Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), entidade que reúne os principais players do setor e da qual fazem parte integrantes do grupo de WhatsApp. Caso fosse filiado, Andrei teria de prestar contas sobre a forma como são feitas as amostragens de eleitores pela internet, ponto considerado um mistério por especialistas da área.
Além disso, o Atlas muitas vezes não informa publicamente quem financia seus levantamentos online — fenômeno cada vez mais comum no país. A cada ano eleitoral, cresce no Brasil o número de pesquisas registradas no TSE sem apresentação de notas fiscais, quando o instituto declara bancar o levantamento com recursos próprios.
Foi o que ocorreu com a pesquisa da AtlasIntel suspensa pela decisão de Nunes Marques. A empresa registrou ter pago do próprio bolso R$ 75 mil para colocar o levantamento em campo. Com isso, chegou a 23 pesquisas realizadas dessa forma neste ano, somando R$ 1,725 milhão desde janeiro.
A conduta levanta dúvidas no mercado, diante da suspeita de que eventuais contratantes não queiram aparecer vinculados aos resultados. O campeão de pesquisas autofinanciadas registradas no TSE neste ano é o Veritá, com 118 levantamentos, seguido por Real Time Big Data, com 56; Paraná Pesquisas, com 24; e AtlasIntel. Nenhum deles está filiado à Abep, embora o Paraná Pesquisas já tenha integrado a entidade.
As disputas internas no mercado de pesquisas não são recentes. Em 2017, Murilo Hidalgo, dono do Paraná Pesquisas, enfrentou ambiente semelhante ao vivido hoje por Andrei Roman em relação à associação. À época, Hidalgo foi cobrado internamente por divulgar uma pesquisa segundo a qual a maioria dos brasileiros gostaria de uma intervenção militar.
Na ocasião, o Paraná Pesquisas deixou a Abep, mas continuou crescendo. Hoje, é o instituto preferido do PL. Somente neste ano, o partido de Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro já gastou R$ 1,58 milhão com a empresa de Hidalgo para testar a opinião pública.
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