Poder e Governo

Aliados de Flávio veem desgaste em falas de Eduardo sobre Pix e Zelle

Interlocutores do senador minimizam impacto eleitoral, mas apontam repetição de declarações que exigem esclarecimentos posteriores

Agência O Globo - 10/06/2026
Aliados de Flávio veem desgaste em falas de Eduardo sobre Pix e Zelle
Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

As declarações de Eduardo Bolsonaro sobre o Pix e o sistema de pagamentos americano Zelle provocaram incômodo entre aliados de Flávio Bolsonaro (PL). No entorno do senador, o episódio foi visto como mais um desgaste considerado desnecessário para o campo bolsonarista.

Embora minimizem o impacto eleitoral da polêmica, interlocutores de Flávio afirmam, reservadamente, que Eduardo costuma criar controvérsias que exigem esforços posteriores de esclarecimento e acabam desviando o foco da estratégia política da pré-campanha presidencial.

A irritação foi alimentada pela repercussão de um vídeo que viralizou nas redes sociais na última semana. Na gravação, Eduardo menciona sistemas de pagamento dos Estados Unidos semelhantes ao Pix e sugere que o tema poderia integrar uma eventual mesa de negociação entre Brasil e Estados Unidos. A fala foi interpretada por adversários como defesa da substituição do sistema brasileiro por um mecanismo estrangeiro, o que ele negou depois.

“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Aqui é o Zelle. Então, dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos”, disse Eduardo.

A repercussão levou o irmão mais novo de Flávio a dedicar os dias seguintes a uma operação de esclarecimento. Somente em seu perfil no X, Eduardo publicou nove mensagens para afirmar que, em nenhum momento, havia defendido a substituição do Pix pelo Zelle.

Para aliados de Flávio, o episódio ilustra um padrão recorrente: declarações que geram debates paralelos e obrigam lideranças do grupo a gastar energia administrando fatos que, na avaliação deles, poderiam ser evitados.

Nos bastidores, interlocutores do presidenciável dizem que o principal problema não está necessariamente no conteúdo das declarações, mas na necessidade de conter danos políticos depois que elas ganham repercussão. A avaliação é que a polêmica desviou a atenção de uma agenda que vinha sendo explorada pela campanha, especialmente após a crise envolvendo possíveis tarifas anunciadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros.

Integrantes da pré-campanha, contudo, rejeitam a ideia de que a controvérsia tenha provocado dano político relevante. A avaliação é que Flávio conseguiu lidar adequadamente com o debate envolvendo o Pix e um eventual novo “tarifaço”.

Aliados também lembram que o senador se posicionou publicamente em defesa do sistema de pagamentos brasileiro e chegou a encaminhar manifestações a autoridades americanas contra medidas que pudessem prejudicar a economia nacional.

Apesar disso, o episódio reforçou uma percepção já existente no entorno de Flávio sobre a atuação política de Eduardo.

Entre os exemplos citados reservadamente estão as articulações conduzidas por Eduardo nos Estados Unidos durante a crise das tarifas americanas. Integrantes do grupo de Flávio avaliam que a ofensiva produziu efeito contrário ao esperado, ao oferecer ao governo Lula espaço para reforçar o discurso de defesa da soberania nacional.

Segundo esses interlocutores, parte da oposição avalia que o tema acabou sendo politicamente mais favorável ao Palácio do Planalto do que ao bolsonarismo.

Também são lembrados episódios de confronto com lideranças da própria direita. Um dos casos mais recentes ocorreu em abril, quando Eduardo protagonizou uma briga pública com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Na ocasião, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro acusou o parlamentar mineiro de não apoiar a candidatura presidencial de Flávio e de atuar para reduzir seu espaço dentro do campo conservador.

Nos bastidores, integrantes da pré-campanha afirmam que a construção de uma candidatura nacional exige justamente o movimento oposto: agregar diferentes correntes da direita e evitar disputas públicas entre lideranças que compartilham o mesmo eleitorado. Por isso, embates como o travado com Nikolas costumam ser vistos com preocupação por auxiliares do presidenciável.

Na época, após um comentário irônico de Nikolas em uma publicação no X, Eduardo escreveu um desabafo contra o mineiro, a quem chamou de “versão caricata de si mesmo”, e disse que ele estaria desrespeitando sua família. Depois, Flávio afirmou que o desentendimento entre ambos era “angustiante” e cobrou união da direita.

Interlocutores dizem que Flávio já foi alertado sobre o perfil combativo do irmão e sobre o potencial de desgaste provocado por algumas de suas manifestações públicas. Apesar das críticas reservadas, aliados do presidenciável ponderam que o senador precisa equilibrar diferentes alas do bolsonarismo e preservar a coesão do grupo.

A avaliação é que Eduardo continua exercendo influência sobre uma parcela importante da militância mais ideológica e engajada do movimento, especialmente entre apoiadores mais ativos nas redes sociais e setores que acompanham sua atuação nos Estados Unidos. Isso torna politicamente custoso qualquer movimento de afastamento ou reprimenda pública, seja diretamente a Eduardo, seja a aliados mais próximos dele.