Poder e Governo

Com operações, Rio tem ‘clima de Lava-Jato’ e vive apreensão em diferentes frentes

Cláudio Castro foi alvo de dois mandados da PF, e deputados foram presos; leitura é de que investigações estão no começo e desdobramentos vão acontecer

Agência O Globo - 27/05/2026
Com operações, Rio tem ‘clima de Lava-Jato’ e vive apreensão em diferentes frentes
Cláudio Castro - Foto: Reprodução

Na segunda-feira, uma montagem publicada por Anthony Garotinho mostrava o Rio de Janeiro atingido por um raio. “A tempestade está chegando”, dizia. O ex-governador alegava, na legenda, que a semana seria agitada na política local. E de fato está sendo: ontem, no âmbito do caso Master, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão na cobertura em que mora o ex-governador (PL).

Análise:

Folclore à parte — Garotinho vaticinou outras “tempestades” que acabaram não chegando —, a expectativa em torno de operações policiais realmente voltou a contaminar o ar da política do Rio. Como nos tempos da Lava-Jato, que construiu no estado um de seus epicentros, operações têm tirado o sono de investigados e criado um clima de permanente tensão, com impacto no planejamento eleitoral.

Há três frentes principais de estrago, segundo conhecedores: o Master, a Refit e a Secretaria de Educação durante o governo Castro.

O ex-governador foi alvo duas vezes em menos de duas semanas. No dia 15, por causa da investigação contra a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos. Agora, pelo caso Master. A polícia aponta que, durante o governo dele, o Rioprevidência aportou R$ 3,7 bilhões no banco a partir da relação entre o chefe do Palácio Guanabara e Daniel Vorcaro.

“A atuação do ex-governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do Rioprevidência”, escreveu o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O político do PL cumpriu em poucos meses a previsão de muitos que apontavam a fragilidade de sua pré-candidatura ao Senado. Além de atingido pelo Master e pelas suspeitas na Refit, foi condenado na Justiça Eleitoral por abuso de poder político e econômico na esteira do caso Ceperj. Está inelegível.

Castro, no entanto, é apenas a faceta mais visível de um ambiente conflagrado. Na Assembleia Legislativa, a Alerj, o clima é de inquietação desde a prisão do deputado TH Joias, no ano passado, acusado de ser um braço político do Comando Vermelho.

Como desdobramento daquela prisão, a PF pegou um peixe maior: o então presidente da Casa, Rodrigo Bacellar, que teria ajudado TH a obstruir as investigações. Bacellar tinha sido escolhido como o candidato da direita à sucessão de Castro, com direito a um movimento ousado — indicar o vice-governador Thiago Pampolha para o Tribunal de Contas do Estado (TCE) — que o colocou como o primeiro da linha sucessória.

A prisão preventiva, e depois a cassação em outro caso, o do Ceperj, jogaram água no chope, e Bacellar virou carta fora do baralho. Com a queda dele e o fim do governo Castro, uma nova frente de investigação atinge agora um dos corações da influência política que o presidente da Alerj tinha no Executivo, a Secretaria de Educação.

No início de maio, a Polícia Federal prendeu o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) com base em suspeitas de fraudes na compra de materiais e na contratação de serviços pela pasta. Ele era um importante aliado de Bacellar, que, já na cadeia, soube ainda da prisão de seu ex-chefe de gabinete Rui Bulhões.

Nem a causa pet escapou da lupa policial. Também este mês, o deputado federal Marcelo Queiroz (PP) virou alvo na esteira de supostas irregularidades em contratos de R$ 200 milhões da Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento para castração e esterilização de animais. Queiroz comandava a pasta no período investigado.

Desdobramentos à vista

O que mais causa apreensão na classe política é o fato de todas essas investigações ainda estarem no início. Castro, por exemplo, só passou por buscas até o momento, mas aliados temem um mandado de prisão.

No caso da Refit, dada a quantidade de tentáculos da refinaria de Ricardo Magro no poder público, também são esperados desdobramentos que incluam novos atores e confirmem o envolvimento daqueles que já foram citados pela PF.

O Master, por sua vez, tem potencial para ampliar as provas de vínculos do esquema com grupos políticos específicos, como o União Brasil.