Poder e Governo

Cláudio Castro nega 'relação pessoal indevida' com Vorcaro e afirma que contatos com o banqueiro foram institucionais

PF investiga suposta operação do ex-governador em benefício do Banco Master

Agência O Globo - 27/05/2026
Cláudio Castro nega 'relação pessoal indevida' com Vorcaro e afirma que contatos com o banqueiro foram institucionais
Cláudio Castro - Foto: Reprodução

Alvo de operação da Polícia Federal (PF) nesta terça-feira, o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro negou a existência de "relação pessoal indevida" com Daniel Vorcaro. A corporação investiga uma movimentação de cerca de R$ 3 bilhões realizada pelo Rioprevidência durante a gestão do antigo chefe do Executivo. Os valores teriam sido destinados a produtos financeiros ligados ao conglomerado do Banco Master.

Castro afirma que os contatos com Vorcaro ocorreram durante agendas oficiais, institucionais e também em encontros sociais e de networking, "comuns ao exercício da função pública e à relação com representantes do setor empresarial". Segundo o ex-governador, não houve qualquer tratativa ilícita, favorecimento ou recebimento de benefício pessoal.

"Cláudio Castro jamais integrou qualquer comitê de investimentos do Rioprevidência, não participava das decisões técnicas da carteira da autarquia e nunca exerceu função operacional relacionada aos investimentos realizados pelo instituto, o que demonstra a autonomia técnica dos executivos e órgãos internos responsáveis pelas análises e deliberações", diz nota da defesa do ex-governador

Além do suposto "alinhamento político" do ex-governador com Vorcaro, a PF aponta série de eventos e indícios sobre uma suposta atuação do ex-mandatário para viabilizar os aportes bilionários da Rioprevidência no Banco Master, a começar pela troca da cúpula da autarquia logo antes dos investimentos.

Segundo os investigadores, tal "alinhamento" levou à "nomeação estratégica" de nomes para cargos-chave da Rioprevidência de forma a garantir que as decisões sobre a aplicação do dinheiro dos aposentados fossem conduzidas em "desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master".

Castro alega que "assim que surgiram questionamentos sobre operações envolvendo o Banco Master, determinou a adoção imediata de medidas de apuração e controle, incluindo o afastamento da presidência do Rioprevidência e a instauração de procedimento interno pela Controladoria-Geral do Estado".

A PF cita ainda "eventos e encontros custeados ou organizados" por Vorcaro em "contexto de proximidade pessoal" com Castro, assim como outras irregularidades que viabilizaram os investimentos. Segundo a corporação, foram suprimidas etapas técnicas do processo de decisão sobre onde o dinheiro dos aposentados seria aplicado e não foram apresentadas "justificativas formais idôneas" para os investimentos.

A defesa de Castro nega que viagens, passagens ou despesas pessoais do ex-governador tenham sido custeadas por Vorcaro.

A apuração faz parte da oitava fase da Operação Compliance Zero, desdobrada da Operação Barco de Papel. Agentes cumpriram 10 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em Brasília. O advogado de Claudio Castro, Carlo Luchione, não comentou. Ele acompanha as buscas e informou que ainda não teve acesso à decisão que autorizou a operação. O despacho de Mendonça autorizando a operação cita trechos da representação da Polícia Federal pedindo as medidas e do parecer da PGR, que concordou com as buscas. As íntegras dos documentos, que reúnem todas as provas da investigação, no entanto, ainda estão sob sigilo.

Aportes bilionários

A investigação aponta que os aportes bilionários em Letras Financeiras e fundos de investimento criados ou utilizados pelo Master se deram em desconformidade com a política de investimentos do regime de previdência e exigências regulatórias.

A Polícia Federal viu "alterações deliberadas nos procedimentos internos, credenciamentos meramente formais, ausência de análises técnicas, concentração excessiva de risco e uso de intermediários para elevação de comissões e ocultação do pagamento de vantagens indevidas".

Além disso, a corporação encontrou indícios de que as aplicações continuaram a acontecer mesmo após alertas formais de órgãos de controle e pareceres técnicos desfavoráveis. Os investigadores dizem que o grupo sob investigação manteve "o fluxo de recursos públicos para operações classificadas como temerárias e desprovidas de justificativa técnica".

Segundo a PF, os primeiros aportes na Rioprevidência no Master ocorreram entre outubro de 2023 e julho de 2024, em Letras Financeiras e alcançando o valor de R$ 970 milhões. Depois, a forma de investir o dinheiro dos aposentados no Master mudou, em razão de "entraves regulatórios". Assim, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, a autarquia fez aportes em fundos estruturados pelo grupo de Vorcaro, em montante que teria atingido R$ 2,01 bilhões.

"Tudo em contexto de crescente dificuldade do banco, diante de aparente crise de liquidez, tornando essencial a captação de aplicações junto a RPPSs e de substituição de instrumentos por novos produtos financeiros", sustentou a PF.

Leia a íntegra da nota da defesa de Castro:

"A defesa do ex-governador Cláudio Castro informa que ainda não teve acesso aos autos do processo na íntegra e, portanto, não pode comentar detalhes de elementos que desconhece na totalidade.

A defesa nega de forma categórica qualquer relação pessoal indevida entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Os contatos entre ambos aconteceram em agendas oficiais, institucionais e também em encontros sociais e de networking, comuns ao exercício da função pública e à relação com representantes do setor empresarial, sem qualquer tratativa ilícita, favorecimento ou recebimento de benefício pessoal.

A defesa esclarece ainda que Cláudio Castro não conhece o citado Ricardo apontado como suposto intermediário ou elo entre ele e Daniel Vorcaro.

Também não procede a informação de que viagens, passagens ou despesas pessoais de Cláudio Castro tenham sido custeadas por Daniel Vorcaro, assim como não houve qualquer tipo de benefício pessoal recebido pelo ex-governador.

Todos os investimentos realizados pelo Rioprevidência seguiram fluxos técnicos, jurídicos e administrativos próprios da autarquia, dentro dos limites aprovados pelo Conselho de Administração e em conformidade com as regras previstas na Resolução CMN nº 4.963/2021, em operações conduzidas com instituição autorizada e supervisionada pelo Banco Central.

Cláudio Castro jamais integrou qualquer comitê de investimentos do Rioprevidência, não participava das decisões técnicas da carteira da autarquia e nunca exerceu função operacional relacionada aos investimentos realizados pelo instituto, o que demonstra a autonomia técnica dos executivos e órgãos internos responsáveis pelas análises e deliberações.

Assim que surgiram questionamentos sobre operações envolvendo o Banco Master, o próprio ex-governador determinou a adoção imediata de medidas de apuração e controle, incluindo o afastamento da presidência do Rioprevidência e a instauração de procedimento interno pela Controladoria-Geral do Estado.

Cabe ainda ressaltar que, em dezembro de 2025, houve o resgate de aproximadamente R$ 1,4 bilhão de fundo administrado pelo Banco Master, garantindo a proteção do patrimônio previdenciário dos servidores ativos, aposentados e pensionistas do Estado do Rio de Janeiro.

As compras de Letras Financeiras do Banco Master foram encerradas ainda em 2024. Não houve novos aportes após determinação do TCE-RJ. O Fundo Arena foi integralmente resgatado em 2025, sem qualquer prejuízo ao Rioprevidência, e o Fundo Revolution teve pedido de resgate realizado pela autarquia em janeiro de 2026.

Importante destacar que todos os recursos investidos nos fundos ligados ao Banco Master que foram integralmente recuperados já foram ressarcidos ao caixa do Estado. Parte desses valores, inclusive, foi utilizada para garantir o pagamento da folha previdenciária.

A defesa reafirma sua confiança no completo esclarecimento dos fatos e no trabalho das instituições."