Poder e Governo

Delator da Lava-Jato fez intermediação entre Castro e Vorcaro e operou empresa que recebeu R$ 126 milhões do Master

Ricardo Siqueira Rodrigues é apontado pela PF como responsável por captar clientes, como o Rioprevidência, para comprar papéis do banco

Agência O Globo - 26/05/2026
Delator da Lava-Jato fez intermediação entre Castro e Vorcaro e operou empresa que recebeu R$ 126 milhões do Master
Cláudio Castro - Foto: Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Um dos alvos desta terça-feira, o empresário Ricardo Siqueira Rodrigues é apontado pelo pesquisador como responsável por intermediar a relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o antigo chefe do Palácio Guanabara. A PF apontou que a aproximação entre Castro e Vorcaro, inclusive com encontros no Brasil e no exterior, para o instituto de previdência estadual terá injetado recursos no Banco Master desde o final de 2023.

Segundo a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que autorizou a operação, Rodrigues — que foi delator na Lava-Jato — ajudou a viabilizar transportes de R$ 3,1 bilhões do Rioprevidência, órgão do governo estadual do Rio, em papéis e fundos ligados ao Master. O empresário também é apontado pela PF como responsável pela Mídias Promotora Ltda, empresa que recebeu R$ 126 milhões do Master entre 2022 e 2025, conforme reportagem da Folha de S. Paulo.

De acordo com a decisão de Mendonça, Ricardo Siqueira Rodrigues é apontado como "articulador, captador e lobista, com papel ativo na identificação de oportunidades de negócios e na aproximação entre Daniel Vorcaro e autoridades públicas com poder de decisão sobre regimes próprios de previdência". Já a Mídias Promotora, que está em nome de uma laranja, foi usada para "receber e distribuir comissões" aos envolvidos no esquema, "permitindo a circulação e a fragmentação dos ganhos ilícitos com aparência de regularidade contratual".

Segundo a investigação, o empresário indicou a Vorcaro que o Rioprevidência tinha um "dono" que deveria autorizar os dirigentes do órgão estadual a proceder com pagamentos ao Master. Em outro momento, ele trocou mensagens com o banqueiro para comemorar a "meta exigida" para captação de recursos de fundos de previdência. Também projetou uma arrecadação de "mais de um bilhão" nos meses seguintes.

“No caso do RioPrevidência, é-lhe atribuída função de intermediação política e operacional da captação, tendo afirmado a Vorcaro que resolveria os trâmites internos, restando pendente apenas o alinhamento político”, diz a decisão do ministro do STF.

Lava-Jato e 'QG da Propina'

Rodrigues entrou na mira da extinção da Lava-Jato em abril de 2018. Ele foi apontado como o maior operador de fundos de pensão do país, e a operação Rizoma, desdobramento colocado em curso naquele momento, .

Depois, o empresário virou colaborador da força-tarefa. Denunciou a prática de extorsão por parte dos auditores da Receita que abordaram investigados e cobraram valores por fora.

Outro momento na Lava-Jato envolveu uma acusação de Rodrigues contra o advogado Nythalmar Dias Ferreira, que lhe teria oferecido um acesso privilegiado ao juiz Marcelo Bretas, responsável pela operação no Rio. O defensor negou as denúncias e foi classificado como “obscenas”.

Outro caso em que Rodrigues apareceu como personagem decisivo foi a investigação sobre o “QG da Propina” durante a gestão de Marcelo Crivella na prefeitura do Rio. O empresário disse ao pesquisador que um restaurante dele foi usado como fachada para o suposto operador de Crivella, Rafael Alves, recebendo R$ 1 milhão em propina.

O restaurante foi alvo de 26 tiros depois da revelação. Segundo Rodrigues, o episódio foi uma retaliação.

Multa de R$ 53 milhões

Além dos casos na esfera criminosa, Rodrigues foi alvo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por fraudes na construção de um hotel na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio — também envolvendo fundos. A CVM impôs a ele uma multa de R$ 53,3 milhões em dezembro de 2024.

"Em 2013 alguns empresários criaram projeto para financiar a construção, até 2016, de um hotel. Montam um FIP (fundo de investimento em participações) e captam recursos de entidades de previdência complementares. O hotel torna-se funcional na data prevista, porém com diferenças em relação ao projeto original", disse o relatório.

A acusação central, continua o documento, tinha dois eixos: “superavaliação do projeto, pelo que as cotas do FIP foram vendidas por preço artificial e taxas de serviços no FIP pagas sobre PL artificial, e desvios de recursos feitos a partir da companhia detida pelo FIP (a empresa que opera o hotel), por pagamentos substanciais a fornecedores ligados aos idealizadores do projeto e sem que tenham prestado os serviços.”