Poder e Governo

Indecisos veem desgaste de Flávio com ‘Dark horse’ e viés eleitoral em ações de Lula na área econômica

Grupo decisivo para o resultado das eleições deste têm sido monitorados pelo GLOBO

Agência O Globo - 25/05/2026
Indecisos veem desgaste de Flávio com ‘Dark horse’ e viés eleitoral em ações de Lula na área econômica
Flávio Bolsonaro - Foto: © Folhapress / Mateus Bonomi

Em meio à crise provocada pela descoberta da relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, investidores indecisos são avaliados como não convincentes como tentativas de justificativa do parlamentar. Decisivo para o resultado das eleições deste ano, o grupo também demonstra certa insatisfação em relação às medidas anunciadas pelo governo Lula, como o Desenrola 2.0, descritas como eleitoreiras.

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Alvo de disputas voto a voto entre esquerda e direita, representantes dos segmentos — indecisos e moradores de colégios eleitorais estratégicos — são monitorados pelo GLOBO quando um fato relevante ocorre na política. Desde julho do ano passado, eles já se posicionaram sobre a tarifaço imposta ao Brasil pelos Estados Unidos e a resposta do governo à crise, além da PEC da Blindagem, da anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro e da escolha de um sucessor do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso após denúncias por tentativa de golpe de Estado.

No mês passado, o grupo também opinou sobre os reflexos do escândalo do Mestre sobre políticos e o impacto da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Ao longo dos últimos dez meses, eles sinalizaram a exclusão de nomes ligados à família Bolsonaro, mas também se incomodaram com gestos do governo que buscam recuperar a popularidade do presidente Lula.

Justificativas falhas

Nesta rodada, as oito perguntas acompanhadas pela reportagem relataram sua percepção sobre o pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para fazer um filme sobre o pai. Desde a divulgação dos áudios pelo site Intercept Brasil, o senador já deu versões diferentes sobre a aproximação com o banqueiro, a quem chegou a visitar enquanto cumpria prisão domiciliar antes de ser preso definitivamente.

De Salvador, o jornalista Vinícius Portugal desconfiou do destino dos R$ 61 milhões que foram repassados ​​para o filme “Dark Horse”:

— (A resposta dele) não é convincente até que se prove que esse dinheiro, de fato, foi para o orçamento do filme. Ainda assim, a imagem de Flávio já está rachada, porque foi provado que ele já sabia de toda a operação contra Vorcaro e, mesmo assim, batida tratando-o como um grande amigo.

A relação existente entre os dois, até então desconhecida, também provocou incômodo na psicóloga Laís Barreiros, outra moradora da capital baiana. Ela afirma ser baseada em “todo tipo de proximidade entre figuras públicas e interesses privados quando existem suspeitas e pouca transparência envolvidas”.

Já a administradora Fabiana Gomes, de Belo Horizonte, criticou o fato de Flávio ter apresentado diferentes justificativas, inclusive de que foi uma tomada de dinheiro privado.

— Cumpriu o papel de tomar dinheiro público, embora digam que é privado, para resolver questões pessoais como a permanência do irmão nos EUA — avalia Laís, em referência à investigação da Polícia Federal (PF) sobre o envio dosa recursos para um fundo administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro e também sobre o esquema de Vorcaro que envolve fraudes com dinheiro de investidores.

A ocorrência do presidente Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas que publicou um vídeo com críticas a Flávio logo após o episódio, também não passou despercebida. A mineira Lorena Mendes, do município de Manhuaçu, classificou a ocorrência de quem chegou a ser cogitado para o vice do senador como “uma tentativa de se afastar do bolsonarismo para preservar a própria imagem”. O atendente de vendas on-line Vinícius Ribeiro, de São Paulo, viu “oportunismo” de Zema para “ganhar visibilidade e ser alternativa de voto”.

Por outro lado, o balconista carioca Célio Gomes classifica a postura do ex-governador mineiro como “acertada” e afirma que pode “servir de argumento nos debates”. Já o taxista Walter Dias faz coro, mas avalia que o mineiro “não deveria ser exportado dessa maneira nesse momento”. A respeito da relação entre Flávio e Vorcaro, Dias enxerga um “investimento superfaturado” no filme sobre Bolsonaro.

Percepção volátil

A visão crítica do grupo também alcança o governo petista, que recentemente lançou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas. De Niterói (RJ), o advogado Benedicto Patrão acredita que a medida é um capital político para Lula com vistas à eleição. A opinião é partilhada por Vinícius Portugal:

— É uma pena que esses programas só serão aplicados em ano eleitoral.

A mineira Fabiana diz que não se beneficiou do programa, mas que ele deveria ser o começo de uma iniciativa mais rigorosa:

— A classe média precisa de algo que faça com que a barreira o endividamento e coloque como cidadãos possíveis de investirem e construirem possibilidades acima do ordinário.

O paulista Vinícius Ribeiro é um dos beneficiados pelo Desenrola, usado para quitar uma dívida pagando parcelas que “não pesam no bolso”. Para o balconista carioca Célio, um dos trunfos do programa é atrelar seu uso à concessão de jogos de apostas: quem o usa não pode aplicar dinheiro em apostas.

Equipes da pré-campanha de Lula avaliaram que o programa ajudou a melhorar a avaliação de governo. Mas isso deve ser visto com cautela, sobretudo entre os concorrentes independentes. Pesquisas Quaest mostram que o grupo tem imensa variação sobre a percepção da gestão federal. A última vez em que aprovaram mais o governo do que desaprovaram foi em dezembro de 2024; desde então a curva do levantamento oscilou a cada momento político.

Em maio do ano passado, por exemplo, quando Lula ainda sentiu os efeitos da turbulência iniciada em janeiro — na onda da inflação dos alimentos e do que ficou conhecido como crise do Pix —, apenas 33% dos independentes avaliaram a gestão, contra 61% que a reprovavam. Cinco meses depois, na pesquisa de outubro, uma diferença de 28 pontos caiu para apenas dois, com empate técnico entre os que aprovam e desaprovam.

A petista vivia ali um momento de retomada da popularidade com discurso de soberania numa ocorrência ao tarifaço. Na última pergunta, feita após a visita de Lula à Casa Branca, mas antes do caso Flávio-Vorcaro, o saldo negativo voltou a diminuir, com 15 pontos entre desaprovação e aprovação.

Fabiana Gomes, administradora

“Acho o Desenrola um início, mas a classe média precisa de algo que a faça ultrapassar o endividamento”

Vinícius Portugal, jornalista

“O Desenrola 2.0 é interessante, mas é uma pena que esses programas só sejam aplicados em ano eleitoral"

Vinicius Ribeiro, atendente

“Um dos trunfos do novo Desenrola é atrelar seu uso à notificação de jogos de apostas”

Lorena Mendes, estudante

“A imagem do Flávio está comprometida, e esse caso mostra que ele não é confiável”

Célio Gomes, balconista

“As justificativas de Flávio Bolsonaro são um escândalo da cara da população”

Laís Barreiros, psicóloga

“Não acho a explicação do Flávio convincente, ainda mais considerada o contexto”