Poder e Governo
Cortes de vídeo viram mercado e arma de guerra para as eleições
Novidade em 2024, o recurso que tem como maior objetivo a viralização tem sido explorado pelas campanhas; cursos ensinam como dominar ferramentas e mencionam monetização nas redes, criando um ecossistema de plataformas e profissionais autônomos
Após surgirem na arena eleitoral impulsionados pelo ex-coach (União) em 2024, os cortes virais — trechos curtos e dinâmicos de vídeos longos editados para prender o público e maximizar o compartilhamento — prometem ser mais um dos recursos à disposição de candidatos na guerra digital pela atenção do eleitor neste ano. Nos últimos dois anos, a demanda de influenciadores por viralização fez surgir um ecossistema de plataformas e profissionais autônomos, que poderá ser usado pelos postulantes a cargos em outubro.
Aceno a governador:
Datafolha:
— Disputa-se atenção em um feed cheio de outras coisas, e o corte captura a essência da comunicação, buscando trechos que engajam mais — diz o professor e pesquisador da USP Pablo Ortellado, para quem o sucesso da estratégia depende da quantidade de cortes feitos: — Tentativa e erro.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu este ano a contratação “sob qualquer modalidade” de pessoas que façam publicações de caráter político-eleitoral em seus perfis, vedando os chamados campeonatos de cortes, nos quais aqueles que editam o material fornecido pelo candidato ganham conforme obtêm mais visualizações. A prática resultou na inelegibilidade de Marçal, que adotou os torneios como um dos meios para aumentar o alcance nas redes na disputa eleitoral.
— Os torneios de cortes são uma derivação da maneira pela qual as pessoas se engajam com conteúdo nas redes, que podem parecer orgânicas, mas há um incentivo econômico — diz o professor da Uerj e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), Carlos Affonso Souza. — A resolução do TSE é adequada para tratar o problema como ele se apresentou na eleição passada.
Novas ferramentas
Voltadas para influenciadores, sertanejos e empresários em busca de viralização, uma série de plataformas, como Clipei e Clipfy, surgiram nos últimos anos para organizar campeonato de cortes. Nomes como Felca, Renato Cariani e a dupla Zé Neto & Cristiano estão entre os que usam o recurso. Mas, além desses sites, surgiram aplicativos para acelerar a produção dos cortes. A ferramenta de IA Real Oficial, lançada neste ano, promete gerar cerca de 15 cortes para cada 30 minutos de vídeo, usando 18 parâmetros, como humor, tom de voz e expressões faciais, para identificar momentos mais impactantes
Grupos e partidos políticos têm se movimentado para desenvolver e aprimorar a distribuição de conteúdo. Em janeiro de 2025, o Movimento Brasil Livre (MBL) lançou a Máquina de Cortes, um curso on-line que promete formar “engenheiros de narrativas” e ensinar “a técnica por trás da viralização”. O curso afirma que é possível ganhar até R$ 4.850 por mês com cortes monetizados. Em um vídeo, Renan Santos, na época ainda filiado ao grupo e hoje presidenciável pelo Missão, afirma que a divulgação de ideias pelos cortes “vem alterando a realidade e a formação da opinião pública”.
— Nós decidimos montar a nossa própria máquina (...) Nosso objetivo aqui é montar uma espécie de faculdade que te garanta um emprego tão logo você se forme. Você vai aprender a fazer cortes, construí-los e trabalhar conosco, divulgando o nosso conteúdo — diz Renan.
Lucro como meta
Segundo a página, um dos alunos do curso chegou a lucrar R$ 13 mil em um mês no YouTube com pagamentos da própria plataforma. Assim, como outros perfis de ex-alunos, o canal divulga conteúdo do Missão e de Renan Santos. O MBL diz não usar o material dos alunos do curso em suas redes, nem monitorar o que é produzido por terceiros ou realizar competições. O grupo diz ainda que o curso é “agnóstico”. Questionado sobre o estímulo financeiro dado pela a perspectiva de lucro via monetização, anunciada na página da Máquina de Cortes, o Missão, que destaca ser uma entidade distinta do MBL, afirma não remunerar nenhuma página de cortes.
“A Resolução do TSE veda mecanismos que proporcionem vantagens para que terceiros realizem publicações de conteúdo político-eleitoral em perfis, páginas ou canais próprios dos editores autônomos, hipótese que não se aplica ao Partido Missão, uma vez que todo o conteúdo institucional produzido permanece restrito aos perfis e canais oficiais da própria agremiação. A Missão não remunera nenhum perfil ou editor pela publicação de cortes”, diz a nota.
Sob nova gestão desde que Edinho Silva assumiu a presidência do PT, a Secretaria de Comunicação da sigla investe em esforços para renovar a abordagem dedicada às redes, oferecendo treinamentos. Um deles foi o seminário PTech, que reuniu mais de cinco mil pessoas em outubro e contou com aulas de plataformas como Instagram, Kwai, TikTok e CapCut.
Novos treinamentos devem acontecer em junho. No site Pode Espalhar, o partido disponibiliza para download cortes de falas de lideranças, com destaque para pautas caras ao governo Lula, como o fim da escala 6x1. As oficinas de comunicação tem aulas sobre “construir e fortalecer redes de influência”, edição de vídeo e uso de Inteligência Artificial.
— Promovemos uma estratégia de redes sociais, em que o foco não está mais na construção de memes e conteúdos virais, mas na rapidez e na fluidez da informação, com cortes de entrevistas, discursos e resoluções do PT, do presidente Lula e das nossas lideranças — diz o secretário de Comunicação da sigla, Éden Valadares.
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