Poder e Governo

PL e Centrão minimizam recuo de Flávio no Datafolha, mas temem queda maior caso surjam novos fatos

Entorno de senador mantém preocupação com percepção de competitividade e risco de novos desdobramentos

Agência O Globo - 22/05/2026
PL e Centrão minimizam recuo de Flávio no Datafolha, mas temem queda maior caso surjam novos fatos
Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A cúpula do PL, os partidos do Centrão e aliados mais próximos da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) minimizaram a vantagem de quatro pontos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro levantamento Datafolha realizado após o caso “Dark Horse” e afirmaram que o resultado veio dentro do. A leitura no entorno do senador é que o episódio produziria algum desgaste momentâneo, mas não a ponto de inviabilizar a candidatura. O levantamento divulgado nesta sexta-feira mostrou Lula com 47% contra 43% de Flávio em um eventual segundo turno. Na pesquisa anterior do instituto, feita antes da repercussão do caso, os dois apareciam empatados em 45%.  

O resultado foi visto de maneira até mesmo pela ala mais pragmática do PL, ligada ao presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, e menos identificado com o núcleo bolsonarista.

Esse grupo avalia que a queda registrada nas pesquisas ainda é “recuperável” e considera que, pelo que veio a público até agora sobre a relação entre Flávio e Vorcaro, não há motivo para substituir o senador na disputa presidencial.

Ainda assim, mesmo dentro do PL há quem veja risco em manter Flávio na corrida caso surjam novos desdobramentos da crise. Reservadamente, membros do partido afirmam que uma eventual divulgação de imagens ou vídeos que comprove alguma irregularidade envolvendo o senador poderia inviabilizar politicamente sua permanência na disputa. 

Dentro dos partidos do Centrão, principalmente na Federação União-PP, há um desconforto com o senador do PL. O distanciamento não está ligado ao resultado das pesquisas, mas com o fato de integrantes desses partidos avaliarem que Flávio não é solidário diante do desgaste, também relacionado ao banco Master, enfrentado pelo presidente do PP, Ciro Nogueira. 

Por sua vez, membros do PL afirmam que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro segue sendo vista como um nome com forte potencial eleitoral para uma disputa nacional, mas que a legenda não pretende abrir a mão da candidatura de Flávio neste momento. 

A avaliação é que Michelle ainda não conseguiu se diferenciar do Senado nas pesquisas por não ter uma estrutura nacional consolidada, já que hoje concentra sua atuação política no Distrito Federal, onde deve disputar uma vaga ao Senado.

Aliados afirmam ainda que o partido evita criar espaço para que Michelle se projete nacionalmente com justiça por receber que ela acabe ofuscando Flávio dentro do próprio campo bolsonarista. O próprio Jair Bolsonaro, segundos interlocutores, já indicou o filho como representante direto do grupo político dele na disputa presidencial.

Os interlocutores da campanha de Flávio afirmaram que a campanha já funcionou com a expectativa de uma perda temporária de competitividade após a crise e que o principal impacto do episódio foi gerar uma desconfiança sobre a capacidade de vitória do senador, e não uma migração consolidada de votos para Lula.

A crise teve início após a divulgação de conversas e áudios envolvendo cobranças de dinheiro de Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Mestre, para a realização do filme sobre a trajetória do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A repercussão abriu uma frente de desgaste para o presidenciável, provocou desconforto entre aliados, aumentou a desconfiança de setores do Centrão e levou integrantes da pré-campanha a revisar completamente a estratégia eleitoral para 2026.

No PL, ao menos publicamente, o discurso é de confiança.

— Perfeitamente igual imaginávamos — afirmou o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante.

Já o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) afirmou que o desempenho ficou acima do que parte dos aliados anteriores.

— Achei que seria pior. Quatro pontos de diferença não é nada.

O ex-ministro Marcelo Queiroga avaliou que a pesquisa demonstra “uma candidatura forte e resiliente”.

— Em 2022, nessa época, diziam que Lula ganhava no primeiro turno — afirmou.

O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) disse ter considerado o resultado melhor do que o esperado diante da intensidade da crise e da repercussão do caso “Dark Horse”.

— Do jeito que estávamos falando, parecia que a campanha já tinha acabado. Houve uma oscilação pequena, algo normal de um momento de crise, mas fácil de reverter — afirmou.

Já o ex-deputado Lafayette de Andrada (PL-MG) avaliou que o desempenho de Flávio foi positivo diante da exibição negativa do episódio.

— Na minha avaliação está ótima. Com essa avalanche no noticiário em cima do Flávio e permanência empatado técnico, acho muito positivo.

Integrantes da campanha avaliam que pesquisas como o Datafolha seguem reproduzindo um padrão recorrente de eleições anteriores, em que candidatos mais conhecidos largam em vantagem enquanto nomes menos consolidados ainda dependem do início eficaz da campanha de massa, com televisão, rádio e debates, para ampliar competitividade. A leitura desse grupo é que as oscilações registradas até aqui ainda são limitadas e tendem a continuar até que novos fatos políticos ou maior exposição alterem o cenário.

Dentro da pré-campanha, a leitura é que o cenário mudou completamente depois da crise e que o planejamento anterior precisou ser revisto. Os interlocutores próximos ao senador afirmaram que este não é momento para movimentos impulsivos, mas para reorganizar a estratégia, reavaliar o ambiente político e reconstruir o plano antes de voltar para uma fase mais agressiva da campanha.

Centrão monitora 

A cúpula da federação União Brasil-PP, que chegou a sinalizar apoio a Flávio e discutir a indicação do vice da chapa, também minimizou o resultado do Datafolha e considerando o recuo esperado diante da sucessão de notícias negativas relacionadas ao senador.

— Era o que esperava — disse o presidente do PP, Ciro Nogueira, ao comentar o desempenho de Flávio na pesquisa. Questionado se a federação irá apoiar Flávio, não respondeu.

Apesar disso, integrantes dos dois partidos apoiam o desconforto crescente com Flávio e avaliam como difícil, hoje, a consolidação de um apoio formal à candidatura dele. Interlocutores da federação reclamam especialmente da forma como o senador reagiu à operação da Polícia Federal que atingiu Ciro Nogueira no âmbito das investigações envolvendo o banco Master.

A PF investiga se Ciro recebeu pagamentos monetários de Daniel Vorcaro, possivelmente negados pelo senador. Em meio à crise, Flávio buscou se desvincular politicamente do aliado.

— Não é porque as pessoas têm proximidade comigo que eu vou ter que responder pelos atos delas — afirmou Flávio durante evento em Santa Catarina, no último dia 8.

Na quinta-feira, Ciro afirmou em entrevista a uma emissora do Piauí que, “se for culpado”, Flávio “terá que ser punido exemplarmente”.

Nos últimos dias, membros da federação conversaram com o senador Rogério Marinho (PL-RN) e outros membros da equipe de Flávio para tentar entender o grau de envolvimento do senador com Vorcaro e avaliar o risco de surgirem novos fatos. A avaliação desse grupo é que fica difícil consolidar um apoio sem segurança sobre o potencial de novos desdobramentos da investigação.

O próprio entorno da federação reconhece que o tema gera desconforto adicional porque dirigentes das duas siglas também foram citados em investigações ou mantiveram relações profissionais com o banco Master.

O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, já prestou serviços de advocacia para o banco e foi citado em mensagens atribuídas a Vorcaro. Já ACM Neto teve uma empresa de consultoria que prestou serviços ao Master. Ambos negam irregularidades.