Poder e Governo

Suplente de Alcolumbre é acusado de usar influência no Dnit e realizar saques suspeitos de R$ 3 milhões

Polícia Federal apura desvios em contratos de obras no Amapá; investigados negam irregularidades

Agência O Globo - 22/05/2026
Suplente de Alcolumbre é acusado de usar influência no Dnit e realizar saques suspeitos de R$ 3 milhões
Chaves Pinto - Foto: Reprodução / Instagram

A Polícia Federal aponta que o empresário Chaves Pinto , segundo suplente do senador Davi Alcolumbre (União-AP), utilizou sua influência política para indicar cargas estratégicas no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Amapá, favorecendo empresas ligadas a ele em licitações da autarquia. O empresário foi indiciado por crimes de associação criminosa, tráfico de influência e corrupção ativa.

O relatório final da investigação também destacou movimentações financeiras consideradas suspeitas, totalizando pelo menos R$ 3 milhões em saques em espécies realizadas por Chaves Pinto e empresas associadas. Procurado, Chaves Pinto afirmou que só se manifestará após “tomar conhecimento do relatório final”.

Em nota, Davi Alcolumbre declarou que “não possui qualquer relação com a atuação empresarial de seu suplente, tampouco interfere na contratação de empresas ou em decisões administrativas do Dnit”. Já o Dnit informou que “colabora integralmente com as investigações e repudia qualquer prática fraudulenta ou de corrupção”.

O relatório que indiciou Chaves Pinto, obtido pelo jornal O Globo, foi encaminhado à 4ª Vara Federal em Macapá. Além do empresário, o superintendente do Dnit no Amapá, Marcello Vieira Linhares, também foi indiciado por associação criminosa, fraude à licitação e violação de sigilo funcional.

Segundo o pesquisador, após a nomeação de Linhares para o comando regional do Dnit e de outras duas empresas, ligadas a Chaves Pinto passaram a vencer licitações relevantes no estado.

Direcionamento e contratos milionários

A PF aponta suspeitas de direcionamento em pelo menos quatro pregões do Dnit relacionados às obras de manutenção da BR-156, principal rodovia do Amapá, em contratos que somam mais de R$ 60 milhões. Perícias identificaram acusações de “conluio”, “propostas fictícias ou de cobertura” e um “processo de carta marcado” para favorecer empresas previamente escolhidas.

Movimentos Financeiros Atípicos

O relatório detalha movimentações financeiras consideradas atípicas. Segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), empresas ligadas a Chaves Pinto movimentaram cerca de R$ 3,05 milhões em espécie no período analisado.

Entre os episódios, destaca-se um saque de R$ 350 mil feito diretamente por Chaves Pinto em janeiro de 2024. Conforme apuração do Globo, após deixar uma agência bancária, o empresário entrou em um carro pertencente a uma empresa de primos de Davi Alcolumbre.

Posto de gasolina e transferências suspeitas

Outro ponto investigado foi o fluxo financeiro envolvendo um posto de combustível no Amapá. A PF afirma que uma empresa de Chaves Pinto realizou duas transferências, de R$ 600 mil e R$ 400 mil, para o estabelecimento em cerca de um mês. O posto recebeu mais de R$ 3 milhões das empresas investigadas, valor considerado incompatível com o abastecimento de combustível, segundo a PF.

O relatório também registra transferências para pessoas físicas com vínculos no serviço público. Além das movimentações financeiras, a PF encontrou mensagens entre o superintendente do Dnit e representantes das empresas investigadas. Em um dos diálogos, o servidor envia impressões internas do sistema do órgão com informações sobre possível desclassificação de concorrentes antes da divulgação oficial.

O investigador também documentou encontros fora da sede do Dnit, inclusive em hotéis, além de mensagens em que Linhares solicitou que um representante das empresas levasse um “pendrive” para uma reunião.