Poder e Governo

Final de Dark Horse tem personagem que seria Xandão e insinuação de fraude eleitoral em vitória de Lula

Produção teve patrocínio do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, táticas de intimidação e outros crimes

Agência O Globo - 21/05/2026
Final de Dark Horse tem personagem que seria Xandão e insinuação de fraude eleitoral em vitória de Lula
- Foto: Reprodução / Instagram

(O texto a seguir contém spoilers relevantes sobre o filme Dark Horse.)

O filme Dark Horse, sobre a facada e a ascensão ao poder de Jair Bolsonaro, deverá mostrar nas cenas finais um personagem que representaria o ministro Alexandre de Moraes, do STF, segundo detalhes do roteiro e relatos de integrantes da produção ao GLOBO. A sequência traz ainda insinuações de que a vitória de Lula teria sido resultado de uma fraude eleitoral.

Dark Horse:

Bastidores:

A produção teve patrocínio do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, táticas de intimidação, coerção e outros crimes. O GLOBO procurou a produtora Go Up, responsável pelo projeto, para comentar as informações, mas não teve retorno — o espaço segue aberto.

O filme termina no momento do triunfo eleitoral de Bolsonaro, em 2018. Na última cena, um grupo de homens — os “vilões” da história — assiste à posse do ex-presidente em uma TV, até que o líder da turma, chamado Paulo Pontes, se levanta e desliga o aparelho.

Pontes não representa alguém do mundo real, mas, sim, “o sistema” que Bolsonaro teria enfrentado. Ele é apresentado ao público em um flashback de 1985 como um “barão das drogas” apelidado de Cicatriz, que acaba preso pelo jovem Capitão Bolsonaro. Em 2009, reaparece como um empresário poderoso que tenta subornar Bolsonaro em troca de favores políticos, mas é rejeitado. No presente da narrativa (2018), é retratado como o mentor intelectual do atentado contra o ex-presidente.

‘Adoradores de Lula’, ‘marxistas drogados’:

Na sala em que o grupo de Pontes assiste à posse de Bolsonaro, está um figurante careca que o roteiro insinua — com ares de mistério — ser um ministro do STF. Diz o texto, no original em inglês: “Among the group: A SLENDER MAN, bald, serious, self-righteous in his demeanor. He could be a Supreme Court Justice. Could be.” (“Entre o grupo: UM HOMEM ESGUIO, careca, sério, de postura prepotente em seu comportamento. Ele poderia ser um ministro do Supremo Tribunal Federal. Poderia.")

“No momento da gravação, o diretor exigiu, de fato, o figurante careca. O ator nem era parecido com o Xandão, então foi filmado de costas, com destaque para a careca. Nenhum outro na sala era careca, de modo que esse detalhe se sobressaía”, conta ao GLOBO um integrante da produção.

Assim que a TV cenográfica é desligada, surgem na tela as frases finais do longa-metragem contra um fundo preto. Elas trazem a insinuação de que Lula voltaria ao poder, em 2022, graças a uma fraude eleitoral. Veja abaixo, no original e na tradução:

FINAL CRAWL An investigation finds that the assassin acted alone, but the inquiry was incomplete and the investigation “left out many issues.” In 2022 Bolsonaro loses his bid for re- * election by one-and-a-half percentage points. Charges of election tampering and fraud are rampant. Demonstrations take place throughout Brazil, mostly peaceful. But many are arrested. Bolsonaro is charged with an attempted * coup in 2025, convicted, and given a * prison term of 43 years by Brazil’s * Supreme Court. * THE END *

Tradução:

TEXTO FINAL: Uma investigação conclui que o assassino [Adélio Bispo] agiu sozinho, mas o inquérito foi incompleto e a investigação “deixou de fora muitas questões”. Em 2022, Bolsonaro perde sua tentativa de reeleição por um ponto percentual e meio. Acusações de adulteração eleitoral e fraude são generalizadas. Manifestações ocorrem por todo o Brasil, a maioria pacífica. Mas muitos são presos. Bolsonaro é acusado de uma tentativa de golpe em 2025, condenado e sentenciado a uma pena de 43 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil. FIM

Lula venceu o segundo turno das eleições passadas com 50,9% contra 49,1% de Bolsonaro, uma diferença de 2,13 milhões de votos. Bolsonaro se tornou inelegível, em 2022, após usar o Palácio da Alvorada e a estrutura do governo para organizar uma apresentação a embaixadores de diversos países na qual repetiu suspeitas de fraudes nas urnas, desmentidas por órgãos oficiais.