Poder e Governo

Silêncio de Michelle sobre Flávio é visto como estratégia e irrita filhos de Bolsonaro

Questionada sobre o enteado, Michelle afirmou que perguntas deveriam ser feitas 'ao próprio Flávio'; postura gerou irritação em Carlos e Eduardo, dizem aliados

Agência O Globo - 21/05/2026
Silêncio de Michelle sobre Flávio é visto como estratégia e irrita filhos de Bolsonaro
Michelle Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A postura de Michelle Bolsonaro diante da crise que envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro abriu um novo foco de tensão dentro da família Bolsonaro. De acordo com relatos obtidos pelo jornal O Globo, Carlos e Eduardo Bolsonaro demonstraram insatisfação aos aliados quanto à ausência de uma defesa pública mais enfática da ex-primeira-dama, após Michelle evitar comentar o caso e afirmar, na noite de terça-feira, que perguntas sobre o tema deveriam ser feitas "ao próprio Flávio".

Insegurança, demora e falta de estratégia

A declaração provocada imediata entre aliados próximos dos filhos do ex-presidente, que esperavam que Michelle aproveitasse a primeira abordagem pública sobre o tema para demonstrar solidariedade ao senador, diante da crise provocada por mensagens, áudios e pela revelação de que Flávio apresentou Vorcaro pessoalmente após a primeira prisão do banqueiro.

O desconforto aumentou ainda mais porque, no mesmo evento em Brasília, Michelle se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como “irmão em Cristo”. Ao comentar a autorização dada pelo magistrado para que Jair Bolsonaro receba um cabeleireiro durante o período de prisão domiciliar, a ex-primeira-dama afirmou:

— Vou profetizar aqui, porque Deus transformou Saulo em Paulo. Nosso irmão em Cristo, Alexandre de Moraes, liberou o cabeleireiro.

Essa declaração foi interpretada por parte do entorno bolsonarista como um gesto de distensão em relação ao ministro, relator da execução penal de Bolsonaro no STF, e ampliou a reunião entre aliados mais ideológicos do ex-presidente.

Movimento para preservação do espaço político

Nos bastidores do bolsonarismo, a postura de Michelle passou a ser vista pelos filhos de Bolsonaro como uma tentativa de manter distância da crise enfrentada por Flávio, preservando seu próprio espaço político em meio às discussões crescentes no PL sobre alternativas à candidatura presidencial do senador.

Segundo membros do núcleo político ligado a Carlos e Eduardo, o silêncio da ex-primeira-dama reforçou, dentro do partido, a percepção de que Michelle prefere manter sua condição de eventual alternativa eleitoral caso a situação de Flávio se agrave nas próximas semanas.

Por outro lado, interlocutores próximos a Michelle negaram qualquer cálculo político e rejeitaram a interpretação de que ela está tentando se preservar como possível candidatura. Segundo aliados, sua prioridade hoje está voltada aos cuidados com Jair Bolsonaro, que segue em prisão domiciliar, e não à disputa interna por espaço político no PL.

Esses interlocutores alegaram ainda que Michelle não pretende se envolver diretamente na operação de contenção de danos da campanha de Flávio, tampouco transformar a crise envolvendo Vorcaro em uma disputa pública familiar.

Nome de Michelle volta à circular no PL

Nos bastidores do PL, porém, a postura da ex-primeira-dama passou a ser interpretada como mais um sinal de que ela busca preservar sua posição política, caso Jair Bolsonaro decida discutir mudanças no cenário presidencial da direita.

Como mostrou O Globo, os dirigentes do partido trabalham com um prazo de cerca de 15 dias para avaliar os efeitos da crise envolvida Vorcaro sobre a previsão da candidatura de Flávio. Nesse contexto, o nome de Michelle enviou uma circular entre parlamentares, dirigentes partidários e lideranças evangélicas como alternativa capaz de herdar diretamente o capital político do ex-presidente.

A relação entre Michelle e os filhos de Bolsonaro já vem passando por momentos de desgaste nos últimos anos. Integrantes do entorno bolsonarista lembram, por exemplo, do mal-estar causado após Flávio sinalizar apoio a uma aliança com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, movimento criticado publicamente pela ex-primeira-dama nas redes sociais.