Poder e Governo

Exposta pela PF, rede de influência de Ricardo Magro é antiga e conta com diversas frentes

Nas quase duas décadas à frente da refinaria, empresário enfrentou diversas acusações de fraude

Agência O Globo - 16/05/2026
Exposta pela PF, rede de influência de Ricardo Magro é antiga e conta com diversas frentes
Ricardo Magro - Foto: Reprodução

A operação de ontem da Polícia Federal que atingiu a Refit e o ex-governador (PL) evidenciou como Ricardo Magro, o dono da antiga Refinaria de Manguinhos, construiu uma extensa teia de influência política. Duradoura, a rede se espalha por diferentes esferas do poder, apesar de uma investigação de agora se debruçar sobre o governo do Rio. Segundo a PF, o caso pode ser considerado “mais latente e exitoso frente à espoliação do Estado do Rio de Janeiro pela criminalidade organizada nos últimos anos”, dada a quantidade de instituições envolvidas.

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Nas quase duas décadas à frente da refinaria, Magro fez diversas acusações de fraude. As suspeitas envolvem manobras para não pagar ICMS — o grupo é o maior devedor de impostos do país, com R$ 52 bilhões na dívida ativa — e supostas maquiagens para fingir que refinava óleo bruto, quando na verdade importava gasolina rapidamente. Ao declarar que recebeu o produto na forma mais pura, pagava menos tributos.

Em paralelo às manobras técnicas, a Refit construiu uma rede de proteção na política e em diferentes órgãos, segundo a PF. No caso do Rio, os focos de ontem foram a Secretaria de Fazenda, o antigo secretário Juliano Pasqual, e a Procuradoria-Geral do Estado, na gestão de Renan Saad. Ambos estavam nos respectivos cargos até 29 de abril, dados em que foram exonerados pelo governador interino do estado, Ricardo Couto.

Pasqual teve a nomeação avaliada por Magro, segundo conhecedor da política do Rio. Ele é ligado à família do ministro aposentado do Tribunal de Contas da União (TCU) Aroldo Cedraz, que ocupou o cargo no gabinete quando era deputado federal. Tiago Cedraz, filho de Aroldo, é advogado e próximo dono da antiga Refinaria de Manguinhos.

A Fazenda, de acordo com a PF, virou na gestão Pasqual “uma extensão da estrutura empresarial do Grupo Refit”.

Saad, por sua vez, sucedeu na PGE o procurador Bruno Dubeux, trocado em 2023 porque, segundo interlocutores e a própria Polícia Federal, não topou aprovar novas facilidades à refinaria. Há cerca de duas semanas, Ricardo Couto recolocou Dubeux no posto.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP), outra instituição na qual o Magro mantém pontes, chegou a interditar a Refit em setembro do ano passado com base em irregularidades, mas a liberou um mês depois. O governo do Rio, via PGE, acionou a Justiça para defender a desinterdição. Segundo a PF, Dubeux foi “escantado por Cláudio Castro por não se curvar à defesa dos interesses da Refit”.

A história de ingerência política do homem por trás da maior devedora de impostos do país não começou ontem. Magro adquiriu Manguinhos em 2008, mas antes atuava como advogado tributário e se imiscuía no ramo por meio da relação com distribuidoras de combustível. Entre os clientes da advocacia estava Eduardo Cunha, que depois viraria presidente da Câmara.

Durante o curto governo da petista Benedita da Silva no Palácio Guanabara, em 2002, uma parcela atribuída a Magro resultou no decreto que mudou a forma de cobrança de ICMS e facilitou os esquemas de Manguinhos. O modelo foi renovado em 2005, sob Rosinha Garotinho, e virou foco de debate entre a refinaria e Sérgio Cabral, que chegou a desapropriar a empresa em 2012.

Com Manguinhos enfrentou problemas financeiros, o Grupo Magro comprou a refinaria por apenas R$ 7 milhões. Dali em diante, o empresário começaria a se tornar mais conhecido no setor. Quem assumiu cargo de chefia no Conselho logo depois da aquisição foi o petista Marcelo Sereno, ligado ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que havia sido chefe de gabinete do governo Benedita — a mesma gestão que permitiu o regime especial de ICMS.

Máfia do combustível

Em 2010, a investigação da Polícia Civil colocouia política, sobretudo Cunha, no seio de uma suposta máfia de combustível no estado, da qual Magro seria peça central, que se concentrava em malabarismos fiscais junto com distribuidoras. O então deputado, cujo envolvimento fez o caso subir ao STF, foi grampeado em ligações de agosto de 2009. Nelas, prometia ajuda para resolver uma dificuldade que Magro vinha tendo com a Braskem.

Durante evento em Nova York no ano passado, Magro interagiu com o ex-governador do Rio, os secretários e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), tido hoje como seu principal interlocutor em Brasília. Partiu do parlamentar piauiense, agora enrolado com o caso Master, a emenda que buscava retirar empresas de refino do projeto que combatem devedores contumazes.

No Rio, o último projeto de perdão tributário às empresas foi aprovado em outubro de 2025 na Alerj. Entre os opositores, ninguém chamava a proposta de “Refis”, nome oficial da medida. Ficou conhecida como “Lei Ricardo Magro”.

Com o cerco da PF a partir do ano passado, Magro deixou de ser um personagem das sombras e ganhou holofotes. Morador dos EUA, onde construiu uma vida de luxo e ataca de DJ nas horas vagas, virou assunto até na Casa Branca, na conversa bilateral entre Lula e Donald Trump.