Poder e Governo

Financiamento e contrato confidencial: as lacunas nas versões apresentadas pelos filhos acerca do filme sobre Bolsonaro

Sequência de declarações contraditórias levou a Polícia Federal (PF) a aprofundar apurações sobre o destino do dinheiro e gerou uma série de dúvidas

Agência O Globo - 16/05/2026
Financiamento e contrato confidencial: as lacunas nas versões apresentadas pelos filhos acerca do filme sobre Bolsonaro
- Foto: Reprodução / Instagram

As sucessivas versões apresentadas por aliados do senador (PL-RJ) e envolvidos na produção do filme “Dark Horse” ampliaram, nos últimos dias, a crise em torno do financiamento do longa-metragem. Desde que veio à tona mensagens do senador e presidenciável cobrando repasses do banqueiro, dono do Banco Master, para a conclusão da obra, produtores, parlamentares e empresas ligadas ao projeto passaram a apresentar explicações divergentes sobre a origem dos recursos, os contratos firmados e a estrutura usada para operacionalizar os pagamentos.

Caso Master:

Política:

A sequência de declarações contraditórias levou a Polícia Federal (PF) a aprofundar apurações sobre o destino do dinheiro e gerou uma série de dúvidas ainda sem resposta.

A principal linha de investigação tenta esclarecer se os valores enviados ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e administrado por advogado de (PL-SP), foram usados ​​exclusivamente na produção do filme ou se também ajudaram a custear a permanência do ex-deputado nos Estados Unidos.

Inicialmente, Flávio Bolsonaro negou ter pedido dinheiro para Vorcaro para o longa-metragem sobre a vida de seu pai, o que chamou de “mentira”, mas depois admitiu ter buscado patrocínio privado e confirmou a existência de um contrato envolvendo Vorcaro.

— Sim, tinha um contrato — disse o senador.

Já na quinta-feira, em entrevista à GloboNews, Flávio acrescentou uma nova explicação ao dizer que não havia tratado público do tema antes porque o contrato prévio prevê cláusulas de confidencialidade.

Quem é a cidadã?

Uma das principais lacunas envolve justamente a formalização do investimento autorizado pela Vorcaro. Em diferentes declarações, Flávio afirmou que o banqueiro “tinha um contrato” e que o ele deixou de pagar parcelas previstas para o filme.

O deputado e produtor-executivo Mario Frias, porém, afirmou depois que o contrato não foi firmado com Vorcaro nem com o Banco Master, mas com a Entre Investimentos, descrito por ele como uma “pessoa jurídica distinta”.

As declarações deixaram em aberto quem eram exatamente as partes do contrato, quem assinou o documento e qual estrutura jurídica foi usada para formalizar os transportes.

O dinheiro financiou o filme?

Outra dúvida central envolve o próprio repasse de recursos. Enquanto Flávio fala em “parcelas” pagas por Vorcaro e admite que o financiamento precisou ser completado posteriormente por outros investidores, a produtora do longo sustenta que conversas e tratativas não significam, necessariamente, transferência efetiva de dinheiro. A GoUp, responsável pela produção, não confirma o valor aportado pelo banqueiro.

A versão diverge da apresentada pelo publicitário Thiago Miranda, que afirmou ter intermediado a negociação ao filme e disse que Mario Frias buscou investidores para concluir o projeto. Segundo reportagens já publicadas, documentos obtidos apontam transferências de R$ 61 milhões.

Qual era o papel do fundo no aberto no Texas?

Ao tentar explicar o caminho percorrido pelos recursos, Flávio afirmou que os valores foram enviados ao Havengate Development Fund LP, fundo sedado no Texas e ligado ao advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. Segundo o senador, tratava-se de um fundo “exclusivo” para financiar o filme. A PF, porém, tenta esclarecer se o longo era de fato o destino final dos recursos ou se a estrutura também serviu para bancar despesas ligadas à permanência de Eduardo nos Estados Unidos, o que o ex-deputado negou. A investigação ganhou novos fôlegos após a divulgação de documentos e relatos de participação possível de Eduardo Bolsonaro como produtor-executivo do longa.

Qual era a extensão da relação entre Flávio e Vorcaro?

Outro ponto que passou a gerar questionamentos dentro da crise envolve a própria dimensão da relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Desde a divulgação das primeiras mensagens, o senador sustenta que conheceu o banqueiro apenas em dezembro de 2024 e que o contato entre os dois se restringia a tratativas ligadas ao financiamento do filme.

Ontem, porém, Flávio apresentou uma nova versão sobre os contatos com o empresário e passou a admitir a possibilidade de surgirem novos registros de interação entre os dois.

— Pode vazar novas conversas, pode vazar um videozinho mostrando o estúdio que eu posso ter enviado, algum encontro que eu possa ter tido com ele. Foi tudo exclusivamente para tratar somente do filme — afirmou o senador em entrevista à CNN Brasil.

Questionado sobre quantas vezes teria se encontrado com Vorcaro, Flávio respondeu que não saberia “precisar quantas vezes”, mas disse que foram “poucas”.

As falas passaram a gerar mais dúvidas sobre qual era o grau de proximidade entre os dois, quantos encontros ocorreram, quais outros contatos ainda podem surgir e até que ponto as tratativas ultrapassaram exclusivamente o financiamento do filme.

Houve ligação entre a estrutura do filme e emendas parlamentares?

A crise em torno do financiamento do filme ganhou uma nova frente ontem depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), abriu uma apuração preliminar sobre emendas parlamentares designadas por deputados bolsonaristas a uma ONG ligada à sociedade da produtora responsável pelo longo prazo.

Segundo o STF, deputados do PL destinaram R$ 2,6 milhões em emendas ao Pix, em 2024, à entidade presidida pela sociedade da produtora que fez o filme. Dino vai analisar se houve eventual descumprimento das critérios de transparência e rastreabilidade determinadas pela Corte para esse tipo de repasse.

A investigação não trata diretamente do financiamento privado ligado a Daniel Vorcaro, mas passou a ampliar questionamentos sobre a estrutura financeira em torno do filme e sobre uma eventual mistura entre recursos públicos e privados em entidades relacionadas à produção.

Quem eram os investidores do filme?

Os envolvidos no projeto também afirmam que “Dark Horse” contava com mais de uma dúzia de investidores privados. Até agora, porém, não foi apresentada uma relação detalhada dos financiadores do longo prazo, dos valores aportados ou da estrutura de prestação de contas do projeto — algo que Flávio disse que gostaria que fosse feito.