Poder e Governo
Gravado em meio ao cerco a Vorcaro, 'tenso thriller' sobre Bolsonaro tem 'queridinho' de Trump e enfrentou turbulências
Longa destaca facada e tem passagens ficcionais; gravações, ao longo do ano passado, tiveram turbulências nos bastidores
O filme “Dark Horse” (“Azarão”, em tradução livre), escrito em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e financiado por Daniel Vorcaro, foi gravado no ano passado em meio ao cerco da Polícia Federal ao antigo dono do Banco Master, que acabou preso enquanto as gravações ocorriam no Brasil. Feito por uma produtora sediada nos EUA, o filme reuniu “queridinhos” do presidente americano Donald Trump, como o ator Jim Caviezel, que interpreta Bolsonaro no longa. Dias antes da prisão de Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentou organizar um encontro do banqueiro com Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em São Paulo, onde ocorriam as filmagens.
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O aporte de R$ 61 milhões de Vorcaro no filme, revelado pelo site Intercept Brasil anteontem, ocorreu entre fevereiro e maio de 2025, quando só o que havia era um roteiro escrito pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP). A produção ficou a cargo da Go Up Entertainment, empresa de aliados de Frias sediada na Flórida.
Facada em 2018
Especialistas no mercado audiovisual consultados pelo GLOBO consideraram o valor aportado por Vorcaro como “médio para alto”, e ponderaram que pode ser ainda maior, já que a produtora mencionou, em nota, ter “dezenas de investidores”. Os R$ 134 milhões prometidos por Vorcaro no início da gravação, e que segundo Flávio não foram integralmente quitados pelo banqueiro, dariam a “Dark Horse” um orçamento maior do que 15 dos últimos 20 vencedores do Oscar de Melhor Filme, superando também produções brasileiras como “Ainda Estou Aqui” e “Agente Secreto”.
Embora o site especializado IMDb tenha divulgado uma previsão de lançamento para setembro deste ano, o filme não deu entrada na documentação necessária junto à Ancine para ser exibido no Brasil, segundo a GloboNews. O IMDb, que é alimentado por contribuições revisadas de usuários, lista Vorcaro como “produtor executivo” do filme. Procurada, a Go Up disse não ser responsável pela informação, e se negou a divulgar o orçamento total do filme.
Segundo entrevistas de Nowrasteh, diretor de “Dark Horse”, o filme se concentra na facada sofrida por Bolsonaro em 2018 para dar origem a “um tenso thriller político sobre poder, mídia e fé sob ataque”. O objetivo declarado é apresentar uma visão heroica, combinando cenas semibiográficas com passagens ficcionais, como um suposto embate entre Bolsonaro e traficantes de drogas na Amazônia.
Caviezel, que desembarcou no Brasil no fim de outubro para dar vida a Bolsonaro — à época em prisão domiciliar —, se tornou conhecido pelo papel principal em “Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson em 2004. Recentemente, havia estrelado “Som da Liberdade”, filme de ficção que caiu nas graças da direita americana ao narrar a luta para resgatar crianças de uma rede de tráfico sexual, tema recorrente em teorias conspiratórias do trumpismo. O próprio Caviezel contribuiu para borrar as fronteiras de ficção e realidade numa entrevista à Fox News para divulgar o filme, em 2023, quando chamou Trump de “um novo Moisés” que, caso voltasse à Presidência, iria “perseguir os traficantes (...) e tornar as crianças livres”.
Turbulências
As mensagens de Flávio não deixam claro se o jantar de Vorcaro com Caviezel e Nowrasteh, previsto para o dia 6 de novembro, de fato ocorreu. Procurados através de seus agentes, ator e diretor não retornaram os contatos do GLOBO. No dia seguinte, com as filmagens em andamento, o senador escreveu ao dono do Master que ele “estava perdendo” e que “tudo isso só está sendo possível por causa” de Vorcaro.
As filmagens seguiram ao longo de novembro, inclusive após Vorcaro ser preso pela Polícia Federal, no dia 18 daquele mês. Cinco dias depois, o ator brasileiro Marcus Ornellas, que interpreta Flávio, assistiu a um jogo do Brasileiro em Santos com o americano Edward Finlay, ator que dá vida a Eduardo Bolsonaro, e também divulgou fotos com o brasileiro Sergio Barreto, que vive Carlos. Outra que marcou presença em São Paulo foi a atriz americana Camille Guaty, conhecida por sua participação na série americana “Prison Break”, e que agora interpreta Michelle.
Os registros alegres feitos pelos atores, no entanto, contrastam com turbulências na gravação. O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated), de São Paulo, informou em dezembro ter recebido denúncias de figurantes de que teriam sido agredidos e recebido comida estragada, além de demora na quitação de diárias.
Antes mesmo da chegada do elenco ao Brasil, Flávio cobrava Vorcaro, em setembro, por atrasos nos pagamentos, e citava um risco de “calote”. Em nota enviada ao GLOBO, a produtora Go Up afirmou que “produções audiovisuais independentes e de grande porte” podem sofrer “desafios operacionais, financeiros e logísticos”, inclusive com preocupações sobre “continuidade operacional” e “fluxo financeiro”.
A produtora, porém, disse que “as obrigações contratuais seguem sendo conduzidas” dentro do planejado. “O filme Dark Horse seguiu em produção, está em fase de conclusão e planejamento comercial/distribuição”, diz.
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