Poder e Governo
Desgaste de Flávio e versões desencontradas sobre repasses de Vorcaro despertam 'viuvez de Tarcísio' no Centrão
Crise reforçou um desconforto que já existia em setores importantes de partidos de centro
Integrantes de partidos do chamado Centrão avaliam que a divulgação de áudio entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, traz um desgaste grande à campanha do senador à Presidência, mas defendem cautela sobre os impactos que isso possa representar para as eleições e eventuais alianças.
A crise reforçou um desconforto que já existia em setores importantes do Centrão em relação à escolha de Flávio como presidenciável da direita.
Desde o início das articulações para 2026, dirigentes desses partidos vinham tratando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como o nome mais competitivo do campo conservador, por combinar apoio bolsonarista com menor rejeição política e maior capacidade de diálogo com empresários e setores do centro.
Segundo interlocutores, a crise atual reabriu nos bastidores uma espécie de “viuvez do Tarcísio”, especialmente entre dirigentes que consideravam precipitada a antecipação da candidatura de Flávio.
A avaliação reservada é que o episódio atingiu justamente o principal ativo político explorado pelo bolsonarismo nos últimos anos: o discurso de contraposição à política tradicional e aos escândalos de bastidor.
Políticos do grupo dizem, sob reserva, que qualquer movimento mais explícito de apoio à candidatura do filho de Jair Bolsonaro (PL-RJ) deve ficar em segundo plano agora.
Eles afirmam que é preciso esperar os desdobramentos do caso para avaliar qual o melhor cenário. A avaliação entre políticos é que ainda há cerca de cinco meses até as eleições, em outubro, e que muitas coisas podem acontecer até lá. Nesse sentido, avaliam que não deve ter pressa neste momento para declarar apoio à candidatura de Flávio.
Na quarta-feira, uma reportagem do site Intercept, confirmada pelo GLOBO, citou mensagens, comprovantes bancários e cronogramas de pagamento que indicariam uma negociação de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — entre Vorcaro e aliados da família Bolsonaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente.
Partidos como Republicanos, União Brasil e PP — os dois últimos formaram a federação União Progressista — vinham sendo cortejados pela campanha de Flávio e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A relação com o petista, no entanto, estava fragilizada, e as siglas se aproximaram de Flávio diante da consolidação da candidatura dele, com pesquisas de intenção de voto mostrando-o à frente de Lula.
Integrantes da cúpula da federação, que vinham se aproximando de Flávio, dizem que as articulações para qualquer anúncio de apoio não deverão prosperar. Há um desconforto com a postura do senador, que vinha negando qualquer relação com Vorcaro até o momento. Além disso, dizem que o desgaste se acentuou na semana passada, quando o parlamentar divulgou nota defendendo André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, após operação da Polícia Federal mirar o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI). A avaliação de políticos da federação é que a nota foi dura com Ciro e que não havia necessidade desse posicionamento.
A divulgação de mensagens, áudios e tratativas do próprio presidenciável com Vorcaro provocou irritação imediata entre aliados de Ciro e dirigentes do Centrão. Segundo relatos, integrantes do PP passaram a afirmar reservadamente que Flávio havia “jogado Ciro na cova dos leões” para proteger sua pré-campanha e acabou atingido pelo mesmo desgaste menos de uma semana depois.
O desconforto aumentou ainda mais pelo tamanho dos valores mencionados nas negociações para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. Integrantes do Centrão também passaram a demonstrar estranheza com versões desencontradas dadas posteriormente por aliados sobre o fluxo dos recursos ligados ao projeto. Flávio assumiu ter pedido dinheiro ao banqueiro, mas o deputado Mário Frias (PL-SP), responsável pela produção, disse que “nenhum centavo” do banqueiro foi usado.
Reservadamente, dirigentes de partidos do Centrão afirmam que a percepção interna é de que haverá ainda muitos desdobramentos até outubro diante do avanço das investigações sobre o escândalo do Master. Eles dizem que esses casos recentes são apenas o começo de uma crise que tem potencial para atingir integrantes dos três Poderes e novos desdobramentos políticos. Um cardeal do grupo diz que existe um temor generalizado entre os políticos sobre o avanço dessas investigações e, sobretudo, do conteúdo de uma eventual delação premiada de Vorcaro.
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