Poder e Governo

Haddad ironiza relação de Flávio com dono do Banco Master e chama bolsonarismo de ‘patologia grave’

Ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo comentou o caso durante debate em São Paulo nesta quarta-feira

Agência O Globo - 14/05/2026
Haddad ironiza relação de Flávio com dono do Banco Master e chama bolsonarismo de ‘patologia grave’
Haddad - Foto: Reprodução / Instagram

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), reagiu com ironia a , nesta quarta-feira (13). O petista afirmou que até ele poderia fazer um filme com o valor supostamente acordado.

— O cara pede uma contribuição de R$ 134 milhões para a família dele e o pessoal está apavorado com isso. Normal, você liga para uma pessoa, um amigo seu. O Brasil virou essa cleptocracia porque as pessoas perderam a noção do ridículo. Ele pediu isso para fazer um documentário sobre o pai dele. Até eu faço — disse.

Em outro momento, chamou o bolsonarismo de “patologia grave” e perguntou até quando veria “essa hipocrisia, esse faz de conta de dar alguma respeitabilidade a essa força política”. As falas ocorreram durante uma roda de conversa organizada pelo "Direitos Já! Fórum pela Democracia", à noite, na Casa de Portugal, na região central de São Paulo.

Diálogos revelados mais cedo pelo site Intercept apontam que, a fim de custear um filme biográfico sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, chamado “Dark Horse”. O valor citado por Haddad seria o total a ser destinado pelo empresário a um fundo americano com essa finalidade.

Thiago Miranda, dono da agência que contratou influenciadores para uma operação de marketing em favor de Vorcaro, admitiu ao GLOBO ter intermediado os pagamentos. Ele disse à coluna de Malu Gaspar que R$ 62 milhões foram efetivamente transferidos, antes da crise na instituição financeira levar à prisão do empresário, que teria planejado fugir do país.

Inicialmente, Flávio alegou que a história seria uma “mentira”, ao ser abordado em uma coletiva de imprensa. Após uma reunião de emergência com aliados e uma advogada, confirmou a veracidade do relato. “O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, rebateu o senador.

As conversas estão em posse da Polícia Federal e constam no primeiro aparelho apreendido com Vorcaro. O Master é acusado de praticar fraudes que resultaram em prejuízo bilionário aos cofres públicos, por conta de as operações estarem cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Há suspeitas ainda de que Vorcaro teria aliciado agentes públicos e diretores do Banco Central.

A investigação atingiu recentemente o senador Ciro Nogueira (PP), suspeito de receber mesada para apresentar uma emenda em benefício do banco. Ele rebateu as acusações, a que atribuiu a perseguição política em ano eleitoral. Flávio também nega irregularidades. Ele disse que não ofereceu nada em troca do patrocínio para o filme de Bolsonaro.

— Não existe uma possível relação entre Bolsonaro e o Master, é uma coisa só. Toda a relação do Daniel Vorcaro é com o governo Bolsonaro. A emenda Master teria sido aprovada se ele fosse presidente. O Vorcaro é um rebento do Bolsonaro — completou Haddad, ao final do encontro.

Lula sempre foi contra 'taxa das blusinhas', diz Haddad

O ex-ministro da Fazenda também comentou o fim da chamada “taxa das blusinhas”, como ficou conhecida a cobrança de 20% para produtos importados de até 50 dólares, anteriormente isentas. Segundo ele, apesar de a alteração ter passado com apoio do governo, o presidente Lula “sempre foi contra” e não quer mais assumir sozinho o ônus político da medida.

— A condição do presidente Lula para sancionar era que fosse unânime, e foi unânime a votação do Congresso. Só que, depois de aprovado, nenhum desses atores defendeu a proposta. Ficamos dois anos com o presidente, que era contra, tendo que defender, e todo mundo que era a favor se omitindo do debate — disse.

Haddad disse que governadores, que seriam beneficiados pela atividade econômica por meio do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), e representantes da indústria e do comércio, por simpatia ao bolsonarismo, evitaram tocar no assunto.

— A única pessoa responsável, do ponto de vista do interesse político, foi o presidente da República, que sendo contra deu o braço a torcer à unidade dos governadores e dos congressistas. Mas ficou sozinho, ficou isolado na defesa dessa proposta e tomou a decisão agora que era a sua posição desde o começo.

Haddad desconversou sobre os impactos econômicos da nova MP. Segundo ele, a medida vai “reabrir um debate, que estava interditado”. Ele demonstrou contrariedade ainda com a promessa recente de Flávio Bolsonaro de acabar com a cobrança.

— Eu acredito que, com essa decisão do presidente, a sociedade vai ter a oportunidade de ver, primeiro, a hipocrisia de muita gente. A começar pelo Flávio Bolsonaro, cujo partido votou a favor, e depois ele disse que, se eleito, vai revogar. Alguém o questionou sobre esse fato? — reclamou.

O governo espera que produtos importados de baixo valor, comprados em sites como Aliexpress, Shein e Shopee, fiquem mais baratos e estimulem o consumo, o que ajuda também os Correios. A perda de arrecadação, porém, não é desprezível. Nos quatro primeiros meses deste ano, as encomendas geraram R$ 1,78 bilhão.

A principal crítica sobre a retirada da taxa veio de representantes de empresas varejistas e indústrias brasileiras, que defendem a tributação como forma de equilibrar a concorrência com grandes plataformas de e-commerce estrangeiras. Eles alegam que a cobrança estava ajudando na geração de empregos.