Poder e Governo

Aliados veem risco de desgaste para Flávio e começam a citar Michelle como alternativa após crise envolvendo Vorcaro

Reportagem sobre negociação para financiar filme sobre Bolsonaro provoca apreensão

Agência O Globo - 14/05/2026
Aliados veem risco de desgaste para Flávio e começam a citar Michelle como alternativa após crise envolvendo Vorcaro
Michelle Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A revelação das negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro ampliou a preocupação nos bastidores do bolsonarismo sobre o potencial de desgaste eleitoral da pré-campanha presidencial do parlamentar. A crise também estimulou conversas sobre possíveis alternativas dentro do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com relatos feitos ao jornal O Globo por aliados e opositores, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a ser referenciado com mais frequência em conversas reservadas entre parlamentares e integrantes do entorno bolsonarista. Interlocutores ressaltam, porém, que ainda não há nenhum movimento organizado para substituir a candidatura nem discussão formal dentro do PL.

A avaliação predominante entre aliados é que ainda é cedo para mensurar o impacto eleitoral da crise envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. Apesar disso, a repercussão do episódio aumentou a apreensão no grupo político de Bolsonaro, especialmente diante do clima de desorganização que se instalou na campanha de Flávio ao longo do dia.

Segundo fontes apresentadas em uma reunião de emergência realizada no QG da campanha, em Brasília, o tema foi debatido entre dirigentes do PL e membros dos núcleos políticos, jurídicos e de comunicação da pré-campanha após a publicação da reportagem do Intercept Brasil. A matéria incluiu uma negociação de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre Bolsonaro.

Durante o encontro, Flávio Bolsonaro ficou entusiasmado com os presentes, afirmando que havia “risco zero” de novos vazamentos relacionados ao caso. O senador também garantiu que aquele teria sido o único contato com Vorcaro sobre o filme, buscando tranquilizar a equipe e evitar o agravamento da crise.

Apesar das provas de contenção, parte dos auxiliares demonstraram preocupação com o potencial de desgaste político, principalmente após a divulgação de mensagens atribuídas ao senador e da contradição entre a negativa inicial sobre a proximidade com Vorcaro e a posterior liberação de busca por patrocínio privado para o longa-metragem.

O nervosismo se intensificou em grupos bolsonaristas do WhatsApp, onde avaliações pessimistas sobre o impacto eleitoral da crise chegaram a uma circular. Em uma dessas conversas, o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) sugeriu que, “se começar a perder tração”, a direita deveria considerar Michelle Bolsonaro como alternativa presidencial.

A sugestão provocou respostas imediatas e evidenciou divergências internas no bolsonarismo sobre uma eventual candidatura da ex-primeira-dama. Um dos membros do grupo chegou a afirmar que, diante dessas hipóteses, “preferia que Lula ganhasse”.

Interlocutores próximos a Michelle Bolsonaro afirmaram que ela acompanha as restrições do ambiente político da pré-campanha de Flávio, mas, ao menos por hora, descartou entrar diretamente na disputa presidencial. Segundo aliados, Michelle está dedicada aos cuidados com o marido, Jair Bolsonaro, que se recupera de uma cirurgia no ombro realizada há duas semanas.

Reservadamente, aliados admitem que o simples fato do nome de Michelle circular em conversas já é visto como sinal do aumento da preocupação no grupo político de Jair Bolsonaro após a repercussão da reportagem.

Na pré-campanha de Flávio Bolsonaro, contudo, a possibilidade de desistência é descartada. Auxiliares apostam que a narrativa de que houve apenas conversas privadas para obtenção de patrocínio será suficiente para estancar a crise e evitar uma contaminação mais rigorosa da candidatura.