Poder e Governo

‘Ninguém sabia o que fazer’: os bastidores da reunião de emergência na campanha de Flávio após caso Vorcaro

Aliados relatam 'barata voa', silêncio nos grupos da oposição e falta de comando político

Agência O Globo - 14/05/2026
‘Ninguém sabia o que fazer’: os bastidores da reunião de emergência na campanha de Flávio após caso Vorcaro
Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro provocou uma tarde de caos, silêncio e improvisação na cúpula do PL.

Segundo relatos feitos ao GLOBO por senadores da oposição, membros da campanha e aliados próximos do parlamentar, a publicação da reportagem do Intercept Brasil mergulhou o entorno do senador em um verdadeiro “barata voa”, com parlamentares reclamando da falta de orientação política, grupos de WhatsApp em silêncio e uma reunião de emergência convocada às pressas no QG da campanha, localizada em uma casa no Lago Sul, em Brasília.

O encontro, que durou cerca de três horas e meia, reuniu o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, o senador Rogério Marinho e membros do núcleo jurídico, político e de comunicação da pré-campanha. Os auxiliares afirmaram que os aliados abandonaram compromissos ao longo da tarde e correram para o Lago Sul logo após o conteúdo começarem uma circular entre parlamentares bolsonaristas.

Diante da dimensão da repercussão, Flávio decidiu adiar para esta quinta-feira a viagem que faria ao Rio de Janeiro. Auxiliares afirmaram que o senador preferiu permanecer em Brasília para acompanhar os desdobramentos da crise e alinhar a estratégia política da campanha.

Logo no início do encontro, Flávio afirmou aos presentes que havia “risco zero” de novos vazamentos e sustentou que aquele teria sido o único contato com o banqueiro relacionado ao filme, numa tentativa de irritação a equipe.

Em contrapartida, membros da campanha passaram a defender que o episódio representava apenas a primeira grande turbulência da pré-campanha presidencial e buscavam imprimir um discurso de normalidade, argumentando que novas crises surgiriam até a eleição de outubro de 2026.

A reportagem do Intercept cita mensagens, comprovantes bancários e cronogramas de pagamento que indicavam uma negociação de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — entre Vorcaro e aliados da família Bolsonaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente.

Segundo a publicação, ao menos US$ 10,6 milhões, ou R$ 61 milhões, já foram repassados ​​ao projeto entre fevereiro e maio de 2025.

O impacto foi imediato porque atingiu justamente um dos principais esforços recentes da campanha de Flávio: evitar qualquer associação entre o bolsonarismo e o escândalo relacionado ao Banco Master e consolidar o senador como o nome mais competitivo da direita para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026.

Segundo interlocutores, o ambiente dentro da casa no Lago Sul era descrito como “péssimo”, “muito tenso” e “completamente desorganizado”.

A principal preocupação era o potencial de contaminação eleitoral da crise justamente no momento em que pesquisas recentes vinham sendo usadas internamente como demonstração da previsão presidencial de Flávio.

Na manhã de terça-feira, a pesquisa Genial/Quaest mostrou a manutenção do empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador em cenários de segundo turno, resultado recebido com rompimento pelo entorno do parlamentar após dias de apreensão com os possíveis reflexos da operação envolvida o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Até a publicação da reportagem, a avaliação predominantemente na pré-campanha era de que o escândalo do Banco Master não havia contaminado diretamente a construção da candidatura presidencial de Flávio. Os auxiliares passaram a temer, porém, que o caso reabrisse uma frente de desgaste justamente no momento em que aliados tentavam consolidar o Senado como o nome mais competitivo da direita.

A percepção entre aliados era que o episódio atingia diretamente o esforço recente de apresentar Flávio como um nome menos radicalizado que o pai e mais capaz de ampliar pontes com setores do centro e do empresariado.

Horas antes da publicação, o senador disse ao Intercept que os diálogos eram uma "mentira". Quando as mensagens transferidas a ele chegaram à circular, os aliados concluíram rapidamente que a negativa inicial havia “pegado muito mal”. A avaliação interna foi que o dano político maior veio justamente da contradição entre o discurso inicial e o material divulgado depois.

A partir daí, o clima na oposição mudou rapidamente. Grupos de WhatsApp normalmente movimentados mergulharam num silêncio incomum por senadores do PL. Interlocutores afirmaram que muitos parlamentares passaram a evitar manifestações públicas por não saberem qual seria a linha oficial da campanha.

"Não tinha orientação nenhuma. Ninguém sabia o que fazer", resumiu um aliado do senador.

Enquanto os governantes passaram a explorar imediatamente o tema nas redes sociais e nos bastidores do Congresso, os membros da oposição reclamaram reservadamente da ausência de coordenação política e da dificuldade de acesso aos membros do núcleo da campanha, que ficaram incomunicáveis ​​durante parte da tarde enquanto participavam da reunião no Lago Sul.

A reunião foi marcada por divergências internacionais sobre o que deveria ser uma evidência da campanha. Parte dos presentes defende confronto direto com o Intercept, acusando perseguição política e tentativa de criminalização de uma relação privada. Outro grupo avaliou que insistia numa negativa ampla seria insustentável diante do material já divulgado.

A advogada Maria Claudia Bucchianeri, responsável pela ala jurídica da campanha, passou cerca de meia hora durante a reunião expondo avaliações sobre riscos jurídicos e políticos da crise e discutindo quais caminhos produziriam menos desgaste para o senador.

Ao longo da conversa, foi ganhando força a tese de que a campanha precisa abandonar a estratégia de negar qualquer contato relevante com Vorcaro e migrar para uma narrativa baseada na ausência de ilegalidade. Segundo interlocutores, foi Rogério Marinho quem sugeriu a linha que acabou prevalecendo na nota divulgada por Flávio no início da noite: admitir que houve busca de patrocínio privado para o filme sobre Bolsonaro, mas sustentar que isso não configura crime nem envolve recursos públicos.

A solução foi fechada após horas de discussão sobre qual seria o menor dano possível naquele momento. A avaliação interna era de que considerar parcialmente as tratativas produziriam menos desgaste do que insistir numa negativa total após a divulgação das mensagens e documentos.

Auxiliares do Senado passaram a trabalhar para conter o clima de pânico e defendem a tese de que a crise tende a perder força nos próximos dias, permitindo que a campanha retome uma “vida normal” ainda nesta semana.

Interlocutores próximos ao núcleo político também surgiram a levantar, reservadamente, suspeitas sobre possíveis “vazamentos seletivos” relacionados ao caso, numa tentativa de consolidar internamente a narrativa de que Flávio estaria sendo alvo de perseguição política em meio ao avanço da pré-campanha presidencial.

Na nota divulgada após a reunião, Flávio admitiu o procurado Vorcaro para buscar “patrocínio privado para um filme privado” sobre a história do pai. O senador afirmou que conheceu o banqueiro em dezembro de 2024, quando “não houve acusações nem suspeitas públicas” sobre ele, e sustentou que o contato foi retomado por causa de atrasos nas parcelas de financiamento do filme.

Flávio também negociou vantagens em troca de apoio financeiro ou atuado em favor de Vorcaro junto ao poder público. "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", escreveu.

A estratégia da campanha também incluiu tentar deslocar o foco político do episódio para o governo federal. Na mesma nota, Flávio voltou a defender a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master e afirmou que sua relação com Vorcaro seria “muito diferente das relações espúrias do governo Lula”.

Mesmo após a divulgação da nota oficial, o ambiente tenso entre aliados. O caso explodiu também em grupos bolsonaristas do WhatsApp, onde obtiveram uma circular avaliações pessimistas sobre o impacto eleitoral da crise.

Em uma das conversas descobertas pelo GLOBO, o deputado federal Ricardo Salles apresentou a hipótese de substituir Flávio pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro caso o senador “perca atração” após a repercussão do episódio.

A sugestão gerou um resultado imediato de membros do grupo. Um dos participantes respondeu que, diante dessa hipótese, “preferia que Lula ganhasse”.

No fim da noite, o sentimento predominante entre aliados próximos do senador ainda era de prosperidade, perplexidade e insegurança sobre os próximos passos da campanha. Depois de horas de reclamações sobre a condução política da crise e a ausência de coordenação nas primeiras horas do caso, um senador resumiu o ambiente num grupo reservado da oposição: “Quer saber?