Poder e Governo
Racha no PT sobre candidatura de Benedita da Silva ao Senado abala a rara unidade da esquerda no Rio
Petista tende a ser a única postulante do campo político no estado, mas vê agora a máquina estadual da sigla abrir mão de se engajar na campanha
A decisão do PT nacional de puxar para si a escolha das suplências da candidatura de ao Senado, , abala um raro momento de unidade na esquerda fluminense. O campo político caminha para ter a deputada e ex-governadora como única postulante ao cargo no estado — o que é atípico —, mas vê agora a máquina local do próprio partido de Benedita “tirar o pé” da campanha.
Na terça-feira, tanto o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) quanto a Executiva Nacional do PT aprovaram a intervenção. No caso da Executiva, o movimento beirou a unanimidade, com 19 votos a favor e três abstenções. Ninguém foi abertamente contra.
Em resposta, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá, que tem o filho à frente do diretório estadual, acusou a sigla de criar uma “capitania hereditária” e anunciou que não apoiaria mais a candidatura de Benedita, que quer o ex-presidente da Casa da Moeda Manoel Severino como primeiro suplente.
Dirigentes favoráveis à centralização na Executiva Nacional alegam que é prerrogativa de quem encabeça a candidatura definir as suplências. A política de 84 anos não abre mão de colocar Severino, cuja trajetória política é ligada a ela — comandou a articulação governamental do Palácio Guanabara quando a petista foi governadora, por exemplo.
Quaquá queria emplacar como primeiro suplente o vereador carioca Felipe Pires e usou como argumento contrário a Severino o fato de ele ter sido citado no escândalo do Mensalão, embora a divergência passe mais por disputas internas de poder.
"Estou cagando para a suplência. Mas não contem comigo para a eleição dela. Não vou botar minhas digitais nessa burrice", escreveu Quaquá em um grupo de WhatsApp do PT nacional. "A resolução está prejudicada porque o PT do Rio se retira da decisão e deixa a cargo da Benedita a eleição dela e a capitania hereditária que vocês estão criando."
Apesar de não ter sido condenado, Manoel Severino foi citado no Mensalão por Marcos Valério. O empresário alegou que o então presidente da Casa da Moeda teria recebido R$ 2,67 milhões a partir de saques feitos em contas dele.
Na época, Severino negou veementemente as acusações, que de fato não lhe renderam condenação. Hoje, defensores da indicação por parte de Benedita minimizam o caso com o mesmo argumento de que ele não foi condenado e de que nunca se provou nada contra o aliado de Benedita.
Na manhã seguinte ao anúncio da Executiva Nacional que favoreceu o desejo da parlamentar, a decana do partido no Rio se reuniu com o presidente do partido, Edinho Silva, para agradecer. Assim como Benedita, Severino participou da fundação da sigla no estado.
A briga interna no PT tende a fazer com que Quaquá não mobilize a máquina de Maricá e de outros redutos que têm no estado em prol de Benedita. Os favoráveis à intervenção, no entanto, minimizam a perda e avaliam que o prefeito já faria “corpo mole”, dado que a deputada nunca foi o nome de sua preferência para a eleição.
Única candidatura de esquerda ao Senado
A despeito do racha no partido, Benedita tem como ativo a provável unidade da esquerda em torno de si. O PSOL, por exemplo, tende a concentrar esforços na eleição de deputado federal e apoiar a petista — mesmo tendo projeto de candidatura própria ao governo, enquanto o PT apoiará o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD).
Costuma ser comum no estado a divisão do campo, o que acaba levando a derrotas. O último senador eleito pela esquerda no Rio foi Lindbergh Farias, do PT, em 2010. Um dos casos mais emblemáticos de fragmentação se deu em 2022, quando o petista André Ceciliano e Alessandro Molon (PSB) concorreram ao mesmo tempo e acabaram ajudando Romário (PL) a vencer.
No outro lado, este ano, a direita ainda passa por indefinições. Como o ex-governador Cláudio Castro (PL) está inelegível, é difícil que a candidatura siga de pé. Sobra, por enquanto, o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União). Siglas que não estão na aliança do presidenciável Flávio Bolsonaro, como o Republicanos, também afirmam que terão candidatos.
Intervenção pró-Benedita em 1998
O PT do Rio carrega como um dos episódios mais traumáticos de sua história uma intervenção — bem mais incisiva que a atual — feita em 1998. Ali, Benedita também foi beneficiada pela decisão nacional, que retirou a candidatura de Vladimir Palmeira ao Palácio Guanabara e optou por colocá-la como vice na chapa de Anthony Garotinho, então no PDT. O movimento foi exigido por Leonel Brizola, liderança trabalhista, em troca de ele próprio ocupar a vice de Lula na disputa presidencial.
Desde então, o PT pena para ter protagonismo em eleições fluminenses ou cariocas. Passou a ser mais comum a composição com aliados de centro, como aconteceu com o MDB de Sérgio Cabral e ocorre agora com o PSD de Eduardo Paes.
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