Poder e Governo

Douglas Ruas: saiba quem é o novo presidente Alerj, pré candidato ao governo pelo partido de Bolsonaro

O deputado estadual foi eleito em sessão na manhã desta sexta (17), por 44 votos; grupo aliado de Eduardo Paes boicotou a eleição

Agência O Globo - 17/04/2026
Douglas Ruas: saiba quem é o novo presidente Alerj, pré candidato ao governo pelo partido de Bolsonaro
O deputado Douglas Ruas (PL) - Foto: Reprodução / Instagram

O deputado Douglas Ruas (PL) foi eleito o novo presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio (), nesta sexta-feira. Inspetor da Polícia Civil e filho do prefeito de São Gonçalo, recebeu 44 votos. O grupo de (PSD), pré-candidato ao governo e provável adversário de Ruas em outubro, boicotou o processo e abandonou a disputa, em protesto contra a determinação de voto aberto.

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Essa é a segunda eleição de presidência da Alerj em menos de um mês. No dia 26 de março, Douglas Ruas (PL) já havia sido eleito com apoio de 45 deputados, mas, horas depois, o Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) anulou a sessão, acatando pedidos do PSD e do PDT. Naquela ocasião, até parte dos parlamentares do PSD, o partido de Paes, apoiou o deputado do PL.

Trajetória de Douglas Ruas

Pré-candiato do PL na disputa ao governo do Rio neste ano, o deputado estadual Douglas Ruas tem uma trajetória marcada por ter atuado na injeção de emendas parlamentares em São Gonçalo, município onde também foi secretário, e por familiares com histórico de tiroteios na polícia. As conexões, por um lado, ajudaram Ruas a largar na frente na disputa interna do partido. Em São Gonçalo, Ruas comandou a Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais, pasta responsável por desenhar os convênios que justificavam a alocação de recursos dos governos federal e estadual na cidade.

Nesse período, desde 2020, São Gonçalo atraiu R$ 250,5 milhões do orçamento secreto. Só a área de pavimentação recebeu R$ 17,2 milhões, tudo através de agendamento do deputado federal Altineu Côrtes — principal dirigente do PL no estado, e de quem Ruas já foi assessor. Às vésperas da eleição de 2022, quando Ruas se elegeu para o primeiro mandato de deputado estadual, São Gonçalo era o quinto município do país que mais havia recebido verbas das chamadas emendas de relator — a modalidade que ficou conhecida como orçamento secreto e que foi extinta pelo Supremo Tribunal Federal no fim daquele ano.

Nelson Ruas, pai de Douglas, tornou-se conhecido em São Gonçalo como capitão da Polícia Militar. Na PM, ele recebeu mais de uma vez a antiga “gratificação faroeste” — criada em 1995 para premiar policiais por produtividade, e que levou a um aumento de mortes causadas em serviço. O Capitão Nelson integrou uma patrulha tática conhecida como “carruagem do além”, em referência à letalidade em operações. Após uma vitória apertada, contra o petista Dimas Gadelha, na eleição para a prefeitura em 2020, Nelson fez as obras na cidade como vitrine de sua gestão e foi reeleito com facilidade em 2024.

Trânsito na polícia

Ruas é inspetor concursado da Polícia Civil desde 2013. Embora não tenha um histórico considerado “operacional” como o do pai, o trânsito na categoria policial é visto como um trunfo dentro do PL, que aposta na pauta de segurança pública na eleição deste ano. Ele se licenciou pela polícia em 2019, quando assumiu uma superintendência do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) por indicação de Altineu Côrtes, que depois se tornou secretário da área.

Quando o pai era vereador, Ruas e o irmão mais velho, Nelsinho, se habituaram a acompanhá-lo no atendimento a eleições no bairro do Pacheco, base política do Capitão Nelson. O prefeito de São Gonçalo, que construiu uma imagem de simplicidade na política, costuma repetir como prova disso que segue vivendo na mesma casa há mais de cinco décadas.

Ruas e os irmãos são sócios em uma empreiteira, a Saur Construções, inaugurada em 2011. Nelsinho, que se elegeu vereador em São Gonçalo em 2020 e foi reeleito em 2024, hoje é dono de um haras, também batizado de Saur, localizado na cidade vizinha, em Itaboraí. No fim do ano passado, quando retornou ao haras depois de um passeio com a família, Nelsinho se envolveu em uma brigada de trânsito que terminou com um sargento da PM ferido por tiros.

Para interlocutores do PL, em que pese o histórico familiar turbulento, Ruas tem um estilo mais “polido” que lhe permite transitar com facilidade em outros grupos, mas sem perder o apoio do “chão de fábrica” da polícia.

Em novembro do ano passado, Ruas esteve no podcast “Papo Reto” . No programa de bate-papo com três policiais recheados de perguntas sobre segurança pública e propaganda de armas para venda, um Ruas sorridente e de fala mansa vestiu o figurino linha-dura que o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, busca para o seu palanque no estado.

Aliás, quando o PL definiu que Ruas seria o candidato ao governo do Rio em outubro, contra o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), com o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa como vice, Flávio rasgou elogios ao correligionário.

— Douglas é ex-secretário de Cidades do Estado, deputado estadual, uma grande liderança, jovem, policial civil, e realizou um trabalho extraordinário à frente da Secretaria de Cidades do Rio de Janeiro. É uma pessoa respeitada na política e que tem o apoio dos partidos que estão se integrando a esse projeto — destacado o senador, na ocasião.

Depois da operação do ano passado no Complexo do Alemão que matou 122 pessoas — aprovado por 64% da população do Rio, segundo a pesquisa Quaest —, Eduardo Paes (PSD) e seu grupo político passaram a tentar evitar um embate com algum nome que se conectasse com o desejo “tiro, porrada e bomba” de parte da opinião pública. Ruas também preocupa o grupo do ex-prefeito por ser popular no segundo maior colégio eleitoral do Rio, além de ter conquistado relevante cacife com prefeitos do interior a partir do orçamento bilionário para obras de pavimentação via secretaria de Cidades.

Quem assume o governo do Rio?

Sem governador ou vice, e com o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), afastado pela justiça, o Rio está sendo governado pelo desembargador Ricardo Couto, que substituiu o posto por ser o presidente do Tribunal de Justiça do Rio. O acordo atual do TJRJ é que Couto continue como o governador até que o STF defina o formato da eleição-tampão para substituir Castro. Assim, Douglas Ruas não deve assumir o governo mesmo eleito presidente da Alerj

Essa posição foi referendada pela desembargadora Suely Lopes Magalhães, que assumiu o TJRJ enquanto Couto é o governador em exercício. O tribunal rejeitou, nesta quinta (16), um pedido do PDT para que a eleição da Alerj ocorra com votação secreta. Ao rejeitar a ação do partido, Magalhães frisou que a posição do STF é de manter Couto como o primeiro da linha sucessória até que a Corte decida o formato da eleição-tampão.

O objetivo dos adversários de Ruas hoje, portanto, será primeiro obstruir os trabalhos, e depois esvaziar ao máximo o quórum da eleição à presidência.

Rejeição do voto secreto

Na decisão proferida quinta, Suely Lopes Magalhães afirmou que a definição sobre voto aberto ou fechado, no caso de uma eleição à presidência da Alerj, se insere na “autonomia organizacional da Casa Legislativa”. Portanto, no entendimento da magistrada, não caberia ao Judiciário interferir no formato.

Habitualmente, a Alerj escolhe seus presidentes com os deputados sendo chamados a votar em ordem alfabética, e proferindo suas escolhas no microfone. O PDT, que pretendia lançar o deputado estadual Vitor Junior, argumentou no seu pedido à Justiça do Rio que esse modelo abre brecha para “possíveis interferências indevidas” no processo, e por isso pleiteou a adoção do sigilo no voto. A desembargadora, no entanto, afirmou não ser possível apontar “um risco efetivo e concreto” aos deputados em caso de votação aberta.

“A princípio, diferentemente do que se observa em relação à eleição indireta do governador e do vice-governador — questão que transcende, por óbvio, os assuntos internos do Parlamento e se encontra atualmente em debate no âmbito do STF —, a definição da modalidade de votação para a escolha da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa — se aberta ou fechada — concerne à autonomia organizacional da Casa Legislativa”, frisou a magistrada no despacho.

Boicote do PSD

A decisão da Justiça do Rio de manter o voto aberto na eleição da Alerj fez com que o grupo de Paes abandonasse a disputa, conforme indicado ontem. A avaliação do PSD é de que esse formato de votação inviabilizaria outra candidatura: os somados, o PL de Douglas Ruas e dois partidos que já declararam apoio a ele na eleição para governador, o PP e o União Brasil, ultrapassaram a barreira de 36 votos necessários para eleger um presidente da Casa.

A aliança de Paes na Alerj, que inclui PSD, PT, PCdoB, PSB, PDT e MDB, soma 22 deputados, e emitiu uma nota quinta prometendo “retirar-se do plenário caso retenha o voto aberto”.

O PSOL, que tem cinco parlamentares, chegou a ensaiar uma candidatura própria, mas depois se uniu ao grupo do ex-prefeito no boicote a uma votação aberta na Alerj.

— Entendemos que há um grupo que deseja perpetuar as ações que o Cláudio Castro implementou, de uso da máquina pública em benefício próprio. Não queremos legitimar isso. Por isso, o PSOL não vai lançar candidatura própria. Vamos optar por uma construção coletiva, seja para esvaziar a votação e não dar legitimidade, ou para alguma outra ação a ser tomada. Estaremos na Alerj, mas em contribuição — destacou a deputada estadual Renata Souza, líder do PSOL.

Outra disputa

Paes e Ruas serão adversários na eleição ao governo do Rio, em outubro. Antes da disputa nas urnas, eles travam uma outra, nos bastidores, envolvendo o comando da máquina estadual, que é relevante para candidaturas.

Com a sinalização da Justiça de que o novo presidente da Alerj não assumirá o governo por ora, integrantes do PL chegaram a sugerir que Ruas não fosse candidato e abriu caminho para uma efetivação de Guilherme Delaroli (PL), que chefiava a Assembleia de forma interina desde a prisão de Rodrigo Bacellar (União) no ano passado. As Lideranças partidárias da Alerj, no entanto, afirmaram ontem ao GLOBO que Ruas será o candidato.

Após assumir a presidência da Alerj, ele e o partido deverão pleitear ao STF uma mudança no entendimento atual que mantém Couto à frente do governo. O julgamento do Supremo foi suspenso por um pedido de vista do ministro Flávio Dino, que argumentou ser necessário aguardar a publicação da decisão do TSE que condenou Castro por abuso de poder.