Poder e Governo

Oposição boicota eleição na Alerj em protesto contra voto aberto

Com ao menos 25 deputados fora da votação, base articula vitória de Douglas Ruas e traça plano para mantê-lo licenciado; oposição ameaça recorrer ao STF contra voto aberto.

Agência O Globo - 17/04/2026
Oposição boicota eleição na Alerj em protesto contra voto aberto
Oposição boicota eleição na Alerj em protesto contra voto aberto - Foto: Reprodução / Agência Brasil

A poucas horas do início da votação que definirá o novo presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), partidos de oposição anunciaram o boicote à eleição. Deputados de siglas como PSD — partido do ex-prefeito Eduardo Paes —, MDB, Podemos, PR, PSB, Cidadania, PCdoB e PSOL já indicaram que não participarão do processo. A estimativa é que pelo menos 25 parlamentares deixem de votar, o que deve reduzir o quórum e ampliar a influência da base governamental no resultado. Para que a eleição aconteça, é necessária a presença de 36 deputados, maioria absoluta.

A decisão de não participar do pleito ocorre diante da insatisfação com o modelo de votação aprovado. A eleição será realizada com voto aberto, o que, segundo deputados da esquerda, expõe os parlamentares a possíveis pressões e retaliações políticas. Nos bastidores, membros da oposição afirmam que a ausência é também uma estratégia para esvaziar politicamente o processo e fortalecer a contestação jurídica já em andamento.

Enquanto isso, a base aliada trabalha para consolidar a vitória do deputado Douglas Ruas (PL), apontado como favorito. A avaliação predominante entre seus aliados é de que, mesmo com o boicote da oposição, Ruas deve alcançar maioria confortável entre os presentes, com expectativa de ao menos 40 votos.

Pela manhã, deputados de partidos de direita se reuniram no gabinete do presidente em exercício da Alerj, Guilherme Delaroli (PL), para alinhar discurso e estratégia para a votação. Segundo interlocutores da presidência, o grupo discutiu não apenas a eleição, mas também possíveis desdobramentos após a escolha do novo comandante do Legislativo.

Dentre os cenários analisados, já existe um plano para o caso Douglas Ruas enfrente impedimentos jurídicos que o impedem de assumir o governo do estado em eventual linha sucessória — ponto sensível nas discussões internacionais. Nessa hipótese, a estratégia seria que, mesmo eleito presidente da Alerj, Ruas se licencie do cargo para se dedicar à campanha eleitoral, evitando riscos jurídicos e políticos.

Assim, Guilherme Delaroli permaneceria no comando da Casa como presidente em exercício, garantindo continuidade administrativa e preservando o arranjo político construído pela base. A alternativa é vista como uma forma de contornar incertezas jurídicas sem abrir a mão do controle político da Alerj.

Na oposição, além do boicote, houve retrocesso na tentativa de apresentar uma candidatura competitiva. O deputado Vitor Junior (PDT) retirou seu nome da disputa após a confirmação de que a votação seria aberta. Aliados avaliam que não haveria ambiente para uma disputa equilibrada nessas condições.

O PDT ingressou com uma ação judicial pedindo que a eleição seja realizada com voto secreto na madrugada desta sexta-feira. A legenda argumenta que o modelo aberto exige a independência dos deputados e fere princípios do processo legislativo ao expor publicamente as escolhas individuais.

A disputa, entretanto, deve ultrapassar os limites da Alerj. Deputados de esquerda afirmam que, caso a eleição seja mantida com voto aberto e o resultado confirmado, a estratégia recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar anular o pleito. O objetivo é solicitar a convocação de uma nova eleição, desta vez sob a regra do voto secreto.

Segundo esses parlamentares, o argumento central será o de que o formato atual não garante plena liberdade de voto, já que os parlamentares poderiam sofrer retaliações políticas por suas posições — seja dentro da própria Casa, seja em suas bases eleitorais ou relações com o Executivo.

O ambiente de incerteza jurídica se soma a um momento de rearranjo político no estado do Rio. A eleição para a presidência da Alerj ganhou peso estratégico diante da possibilidade de desdobramentos na linha sucessória do governo e da influência que o comando da Casa exerce sobre pautas e articulações no Legislativo.