Poder e Governo

'Quando o povo toma decisão, temos que aceitar', afirma Lula sobre possível vitória de Flávio Bolsonaro

Presidente diz à revista alemã que Brasil não tem espaço para fascistas e evita confirmar corrida à reeleição

Agência O Globo - 17/04/2026
'Quando o povo toma decisão, temos que aceitar', afirma Lula sobre possível vitória de Flávio Bolsonaro
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento no Rio de Janeiro - Foto: © ANSA/EPA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato à reeleição, afirmou que aceitará o resultado das urnas caso Flávio Bolsonaro (PL) vencerá as eleições de outubro. Após divulgação de pesquisas Datafolha e Genial/Quaest, o senador apareceu pela primeira vez à frente do petista em um cenário simulado de segundo turno, segundo levantamento do GLOBO em parceria com o Instituto Locomotiva.

Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, Lula foi questionado sobre a liderança do filho do ex-presidente em pesquisas de um possível segundo turno e reforçou o respeito à vontade popular.

— Quando o povo toma uma decisão, seja de direita, de esquerda ou do centro, temos que aceitar esse resultado. Eu nunca teria imaginado que um metalúrgico, que já foi líder sindical como eu, fosse eleito três vezes para a presidência. Mas aqui estou eu! — destacado.

Na conversa, o presidente afirmou não temer que o Brasil seja dominado pelo autoritarismo.

— O Brasil continuará sendo um país democrático no futuro. Além disso: vamos vencer esta eleição e garantir que nossa democracia se torne ainda mais estável. Aqui não há espaço para fascistas; para pessoas que não acreditam na democracia. Essa ideologia de direita que governa o mundo não tem futuro. Em vez de ideias, ela apenas espalhou ódio e mentiras — disse Lula.

Lula evitou confirmar sua candidatura à reeleição, afirmando que “depende”, mas ressaltou estar se preparando para isso. Como mostrou O GLOBO, aos 80 anos, o presidente indicou que pode reconsiderar sua participação no pleito.

— Haverá uma convenção partidária em qual meu partido discutirá os principais nomes. Estou me preparando para isso. Minha cabeça e meu corpo estão 100% em forma. Quero chegar aos 120 anos! — afirmou à Der Spiegel.

'Trump não foi eleito imperador do mundo'

No campo internacional, Lula criticou países que exercem poder econômico, militar e tecnológico para importar relações internacionais e reiterou a importância da Organização das Nações Unidas (ONU) na preservação da paz global. Ele voltou a defender que África e Oriente Médio tenham assento no Conselho de Segurança e questionou a ausência de países como Brasil e Alemanha no órgão. O entrevistador lembrou que Washington, sob o comando de Donald Trump, demonstra pouco interesse em mudanças nesse sentido.

— Trump não foi eleito imperador do mundo. Ele não pode ficar ameaçando os outros países com guerra o tempo todo. precisamos colocar esse mundo em ordem; ele está prestes a se transformar em um único campo de batalha. No ano passado, foram gastos 2,7 trilhões de dólares em armas e nas forças armadas. Esse dinheiro poderia ser o melhor empregado no combate à fome ou ao analfabetismo na África ou na América Latina — respondeu Lula.

Lula relatou ter conversado com seus “amigos” Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia) e Emmanuel Macron (França) para convocar uma reunião do Conselho de Segurança, na esperança de que Trump participasse do encontro com outros líderes mundiais.

— Ninguém aceitou a proposta. É como se estivéssemos à deriva em alto mar, em um navio sem capitão — disse Lula, antes de criticar os efeitos inflacionários de conflitos globais, como os do Oriente Médio e da Ucrânia. — Não pode ser que Trump comece uma guerra com o Irã e quem acabe pagando a conta dessa guerra sejam os pobres da África ou da América Latina, que terão de gastar mais dinheiro com feijão, carne e verduras. O secretário-geral da ONU, António Guterres, deveria convocar imediatamente uma Assembleia Geral Extraordinária para que Trump, Putin e os outros prestem contas.