Poder e Governo

Proposta de delação de "Beto Louco" prevê ressarcimento bilionário ao Estado

Empresário revela nomes de magistrados e servidores envolvidos em esquema de sonegação fiscal no setor de combustíveis

Agência O Globo - 14/04/2026
Proposta de delação de 'Beto Louco' prevê ressarcimento bilionário ao Estado
Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como "Beto Louco" - Foto: Reprodução

A proposta de delação premiada apresentada por Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como "Beto Louco" — um dos principais alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 — prevê ressarcimento de até R$ 1 bilhão em tributos sonegados do Estado. O empresário é suspeito de comandar um complexo esquema de lavagem de dinheiro, sonegação e adulteração de combustíveis.

O acordo de colaboração, que envolve também outros foragidos, aguarda agora decisão do procurador-geral de Justiça do Estado de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, sobre sua aceitação ou recusa.

Um dos pontos de impasse na negociação é a ausência de detalhes, segundo fontes do Ministério Público (MP), sobre o envolvimento de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) no esquema de sonegação fiscal. Promotores exigem que a defesa de Beto Louco apresente provas mais robustas sobre essa ligação.

Inicialmente, o valor sugerido para a devolução de impostos era de cerca de R$ 400 milhões. No entanto, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP) estima que a sonegação de ICMS pode ter alcançado R$ 1,38 bilhão. Após negociações, o valor proposto para ressarcimento subiu para aproximadamente R$ 1 bilhão.

Além disso, o MP discute o valor total das multas a serem aplicadas ao empresário. A Sefaz já havia autuado empresas ligadas a Beto Louco em cerca de R$ 300 milhões.

Segundo fontes próximas ao acordo, Beto Louco apresentou documentos preliminares que podem embasar as investigações. Entre as informações fornecidas estão nomes de magistrados e servidores responsáveis por fiscalizações no setor de combustíveis, além de números de telefone que podem ajudar a aprofundar as apurações.

O compromisso de ressarcir os cofres públicos, considerado um dos pontos mais delicados em acordos desse tipo, foi destacado por interlocutores. Geralmente, acusados relutam em aceitar esse tipo de condição. A informação sobre o valor foi publicada pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO.

A Polícia Federal investiga a relação entre o esquema e postos de combustíveis ligados ao PCC. Cerca de mil estabelecimentos associados à facção movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Conforme as investigações da Carbono Oculto, Beto Louco era responsável por gerir as empresas Copape e Aster, utilizadas para fraudes fiscais e lavagem de dinheiro.

O grupo liderado por Beto Louco e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo" — apontado como principal articulador da organização — expandiu suas atividades para toda a cadeia produtiva do setor, inclusive adquirindo usinas de etanol mediante intimidação de fazendeiros. Mourad é dono da distribuidora de combustíveis Aster e teria uma rede de postos em nome de laranjas, além de ligação com a Copape, formuladora de combustíveis.

A fuga dos empresários, que percorreram mais de 9 mil quilômetros até um país no norte da África, ocorreu após passarem a ser investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Atualmente, ambos estão na lista de foragidos da Interpol e negociam o acordo de delação com o Ministério Público de São Paulo por meio de seus advogados.

No ano passado, uma tentativa anterior de acordo — na qual os empresários mencionavam políticos — foi rejeitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).