Poder e Governo

Em mensagem, Ibaneis cobrou de presidente do BRB desfecho na compra do Master: ‘Não vou suportar esse desgaste’

Polícia Federal analisa conversas de WhatsApp de envolvidos em operação realizada entre o banco de Daniel Vorcaro e a instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal

Agência O Globo - 14/04/2026
Em mensagem, Ibaneis cobrou de presidente do BRB desfecho na compra do Master: ‘Não vou suportar esse desgaste’
Ibaneis Rocha - Foto: Reprodução / Agência Brasil

O ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) disse, em junho de 2025, que a negociação de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB) estava “gerando mais desgaste do que deveria” e que não iria “apoiar esse desgaste”. O desabafo foi registrado em mensagem enviada a Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB. O diálogo é sob análise da Polícia Federal, que apura fraudes em operações realizadas por duas instituições financeiras.

Procurado, Ibaneis admitiu que sempre cobrava um estágio para a negociação entre o Master e o BRB, mas esclareceu que não sofria influência de ninguém, nem de Daniel Vorcaro, dono do Master, nem de grupos políticos. A defesa do ex-governador afirma que era natural haver “preocupação acerca do desdobramento de todas as ações que têm repercussões no Distrito Federal”. Paulo Henrique Costa não comentou.

Em conversas reservadas, Vorcaro costumava dizer que mantinha contato com Ibaneis e que, no início das negociações com o BRB, o então governador ligado para um aliado político a fim de buscar informações sobre o histórico do banqueiro, tendo recebido “ótimas referências”. Ibaneis confirma que esteve com Vorcaro “uma ou duas vezes em eventos sociais, mas nunca para tratar de banco”, porque não entende de sistema financeiro, e sustenta que o diálogo relatado pelo banqueiro jamais ocorreu.

Na época em que Ibaneis invejou uma mensagem ao presidente do BRB, as tratativas para as compras do Master enfrentaram turbulência porque, no mês anterior, o Banco Central (BC) descobriu uma série de inconsistências em carteiras de crédito do banco de Daniel Vorcaro adquiridas por R$ 12 bilhões pela instituição financeira do Distrito Federal. Essa convicção de fraude levou a autoridade controlada a controlar ainda mais a fiscalização sobre o negócio.

Três meses depois, em setembro do ano passado, o BC vetou a operação. Em novembro, o Master foi liquidado, por não ter fôlego para sobreviver no mercado após uma onda de resgates de aplicativos. A partir de então, o BRB passou a superar problemas financeiros, tanto por desenquadramento em relação às regras ordinárias pela autoridade monetária quanto por dificuldades de captação. A crise atingiu o ex-governador do Distrito Federal, que entrou na mira dos investigadores.

O ex-presidente do BRB defendeu à Polícia Federal que a compra do Master se justificava tecnicamente e que o banco de Daniel Vorcaro representava uma oportunidade de negócios dentro da estratégia de expansão da instituição do Distrito Federal.

Para apurar os fatos, a PF tem cruzado mensagens encontradas nos celulares de Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa e montou uma linha do tempo para reconstituir os bastidores das negociações e identificar os papéis desempenhados pelos executivos dos bancos e por agentes públicos, seja do Banco Central, seja do governo do Distrito Federal.

O pesquisador também aposta na delação de Vorcaro para esclarecer se a operação entre Master e BRB contorno com influência política para socorrer o banco privado, que é primário de recursos para ganhar oportunidades no mercado.

Após a transação naufragar, o BRB foi cobrado pelo BC sobre a necessidade de fazer uma provisão de pelo menos R$ 5 bilhões. A autoridade também exigiu um transporte de capital do governo do Distrito Federal, o acionista controlador, para trazer a instituição de volta à normalidade. Até o momento, porém, esse movimento não ocorreu, e os balanços do terceiro e quarto trimestres do ano passado não foram publicados.

Em março deste ano, dias antes de deixar o cargo para preparar sua campanha ao Senado pelo Distrito Federal, Ibaneis apresentou ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) um pedido de início de negociação para um empréstimo ao governo, que seria usado em transporte de capital no BRB. A condução dessa tratativa, porém, ficou com a carga de sua sucessora, Celina Leão.

Na semana passada, Celina se reuniu com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e com representantes do mercado financeiro para tentar avançar em soluções para o BRB. A governadora do Distrito Federal negocia com um fundo de investimentos a venda da carteira de crédito do Master, operação que pode representar um ingresso imediato de R$ 4 bilhões e dar algum rompimento financeiro ao banco público, mas que não resolve o problema patrimonial.

O BRB depende de um empréstimo do FGC e grupo de bancos para o governo do Distrito Federal, que está em negociação, mas ainda sem um desfecho. O pedido original havia sido de R$ 4 bilhões e subiu para R$ 6,6 bilhões, o valor necessário para resolver o problema de capital. Se não conseguir fechar um acordo, outras alternativas poderão ser consideradas.