Poder e Governo
Quem é Ramagem? Preso pelo ICE, ex-deputado foi investigado por Abin paralela e tinha confiança de Bolsonaro
Ex-parlamentar foi detido por agentes federais nos Estados Unidos
Preso pela agência de imigração americana (ICE) nesta segunda-feira nos Estados Unidos, o ex-deputado federal Alexandre Ramagem foi nome de confiança do ex-presidente Jair Bolsonaro durante o seu governo. Segundo a Polícia Federal (PF), Ramagem foi detido por agentes federais.
Ramagem foi condenado no ano passado, em julgamento da trama golpista realizado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), a uma pena de dezasseis anos pelos crimes de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de estado.
Em dezembro do ano passado, a Câmara cassou o mandato de Ramagem no mesmo dia da proteção do colega Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Delegado da Polícia Federal, Ramagem coordenou a equipe de segurança de Bolsonaro logo após a vitória eleitoral em 2018. No cargo, ele se mudou do então presidente eleito e de sua família. Em julho de 2019, ele foi nomeado diretor-geral da Abin, cargo no qual ocorreram até abril de 2022. O programa Primeira Milha, que está sob investigação da PF, foi utilizado durante boa parte de sua gestão. Ele sempre negou as irregularidades.
Em abril de 2020, Bolsonaro chegou a nomear Ramagem para a diretoria-geral da Polícia Federal. O ato, no entanto, foi suspenso pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que entendeu que houve "desvio de específica" e "inobservância aos princípios constitucionais da impessoalidade e moralidade" na indicação.
Ramagem deixou o diretório da Abin para se candidatar a uma vaga na Câmara dos Deputados no pleito de 2022. Com o apoio de Bolsonaro, ele foi eleito com mais de 59 mil votos. Atualmente, com a benção do ex-presidente, ele tem trabalho para se lançar candidato à prefeitura do Rio. Filho 02 de Bolsonaro, o vereador Carlos Bolsonaro foi escolhido para assumir a coordenação da campanha dele. A candidatura de Ramagem já ganhou o apoio do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e do governador do Rio, Cláudio Castro (PL).
Como revelou O GLOBO em março de 2024, a Abin utilizou um programa secreto chamado FirstMile para monitorar a localização de alvos pré-determinados por meio dos aparelhos celulares. Após a reportagem, a Polícia Federal abriu um inquérito e acordos que a ferramenta foi utilizada para monitorar políticos, jornalistas, advogados e adversários de Bolsonaro.
O FirstMile tinha capacidade de monitorar, sem autorização judicial, os passos de até 10 mil pessoas por ano. Para isso, basta digitar o número de um contato telefônico no programa e acompanhar o mapa de localização registrada a partir da conexão de rede do aparelho.
A ferramenta foi produzida pela empresa israelense Cognyte (ex-Verint) e foi operada, sem qualquer controle formal de acesso, pela equipe de operações da agência de inteligência.
No inquérito, a PF revelou que as evidências obtidas a partir das diligências realizadas pela corporação à época indicam que o grupo criminoso criou uma estrutura paralelamente na ABIN e utilizou ferramentas e serviços daquela agência de inteligência do Estado para ações ilícitas, fornecendo informações para uso político e midiático, para a obtenção de benefícios pessoais e até mesmo para interferir nas investigações da própria PF.
Ramagem negativa
Alexandre Ramagem negou a existência da estrutura de uma “Abin paralelamente” sob a sua gestão, usada com “viés político” para investigar autoridades, como designado a Polícia Federal na investigação. Segundo ele, o sistema FirstMile foi adquirido pela Abin no governo do ex-presidente Michel Temer e foi usado pelos servidores da agência.
— Isso não é Abin paralelamente, é Abin real — disse em entrevista à GloboNews.
O deputado sinalizou que mesmo como diretor da agência, não tinha controle completo sobre o órgão.
— A Abin é enorme e seus departamentos são independentes para fazer seus trabalhos de inteligência. A gente queria organizar uma ferramenta (FirstMile) feita e feita especificamente para isso. Quando ouvimos o diretor responsável pelas senhas e pela gestão para demonstrar como funcionava, quando se negaram a mim informar como estavam trabalhando com a ferramenta, eu exonerei esse diretor que era o chefe e encaminhei o procedimento para a corregedoria — disse.
O ex-diretor do Órgão de Inteligência ressaltou que nunca pediu formalmente ou informalmente para que departamentos utilizassem o programa FirstMile.
— A direção-geral tem mecanismos para fazer um plano de operação e dizer qual tecnologia se trabalha. Nenhum plano de operação meu colocava o FirstMile — disse.
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