Poder e Governo

Queiroz vira ‘xerife’ de Saquarema oito anos depois de acusação de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro

Com o apoio do antigo chefe, ex-assessor atua como subsecretário de Segurança na cidade

Agência O Globo - 12/04/2026
Queiroz vira ‘xerife’ de Saquarema oito anos depois de acusação de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro
Queiroz vira ‘xerife’ de Saquarema oito anos depois de acusação de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução

Pivô da investigação sobre rachadinha envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o policial militar reformado Fabrício Queiroz mantém influência em cargos públicos, oito anos depois, sob a guarida de aliados do antigo chefe. Desde o ano passado, o ex-assessor de Flávio é subsecretário de Segurança e Ordem Pública de Saquarema, na Região dos Lagos do Rio, graças a uma costura com o ex-prefeito Antonio Peres, que comanda o diretório municipal do PL. Queiroz também emplacou em 2025 o filho, Felipe, como assessor na secretaria estadual de Ciência e Tecnologia, comandada pelo deputado bolsonarista Anderson Moraes (PL).

Dois interlocutores de Queiroz ouvidos pelo GLOBO afirmam que a nomeação na prefeitura de Saquarema foi um ajuste entre Peres e Flávio Bolsonaro — que antes havia tentado alocar o ex-assessor em Campos dos Goytacazes, mas teve portas fechadas pelo então prefeito Wladimir Garotinho. Peres é aliado de longa data do deputado federal Altineu Côrtes (PL-RJ).

Queiroz já havia feito amizades em Saquarema ainda na campanha de 2018, quando acompanhava Flávio na montagem de candidaturas do extinto PSL. À época, ele conseguiu emplacar o filho em um time de futebol em Saquarema, e recebia carona de moradores para se deslocar à cidade e assistir às partidas.

Na política local, a avaliação é que o cargo na prefeitura contribui para “tranquilizar” Fabrício Queiroz, que já reclamou em 2022 por se sentir abandonado pela família Bolsonaro em sua frustrada candidatura a deputado estadual pelo PTB. Procurado, Queiroz afirmou ter sido orientado pela prefeitura de Saquarema a não dar entrevista.

— Por mim, não teria problema nenhum falar, mas esse é um ano eleitoral e não quero correr o risco de perder o cargo no município —justificou Queiroz em telefonema ao GLOBO.

Em 2024, ele concorreu a vereador pelo PL e terminou como primeiro suplente em Saquarema. Caciques locais do partido cogitaram nomear um dos três vereadores do PL na prefeitura, para abrir espaço a Queiroz na Câmara. O plano não foi adiante porque o próprio Queiroz acabou nomeado.

Na secretaria, comandada por um sargento da PM, Queiroz virou uma espécie de “xerife”: ele supervisiona a atuação da Guarda Municipal e costuma dar as caras em eventos dentro e fora da cidade. Em março, por exemplo, ele acompanhou o então secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas (PL), e o ex-governador Cláudio Castro (PL) na inauguração de uma base do Segurança Presente em Saquarema. No fim do ano passado, posou ao lado de Flávio e do então secretário de Polícia Militar, Marcelo Menezes, em uma cerimônia em homenagem aos policiais que participaram da megaoperação no Complexo da Penha, que terminou com 122 mortos.

Guarda armada

Em Saquarema, Fabrício Queiroz já defendeu o uso de arma de fogo pela Guarda Municipal, proposta que por ora não foi adiante. No ano passado, a secretaria lançou uma “ronda ostensiva municipal” com uniformes e viaturas similares às da Polícia Militar. No início deste ano, Queiroz —que é subtenente reformado da PM —renovou seu porte de arma de fogo, embora interlocutores na cidade afirmem que ele não é visto andando armado.

Queiroz chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ) como um dos operadores de um esquema de recolhimento ilícito de salários de assessores de Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio, que veio à tona em 2018. O caso acabou arquivado pela Justiça do Rio, na esfera criminal, após uma longa discussão sobre em qual instância deveria ter tramitado, o que levou tribunais superiores a anular uma série de provas obtidas pelo MP.

Em entrevistas recentes, Flávio procurou transferir para Queiroz a responsabilidade do desvio de recursos em seu gabinete, e disse que o ex-assessor tinha “autonomia” no trato com outros funcionários. O próprio Queiroz, que recebeu depósitos de R$ 2,079 milhões de assessores entre 2007 e 2018, chegou a dizer à Justiça do Rio que os pagamentos foram “sem anuência” de Flávio.

O MP, porém, procurou desmontar essa versão na denúncia original, e anexou mensagens de Queiroz nas quais ele admitiu que precisava “prestar contas” da rachadinha a seus superiores. Os promotores também mostraram que Queiroz fez um depósito de R$ 25 mil em espécie, em agosto de 2011, na conta bancária da mulher de Flávio. O depósito ocorreu dias antes de ela pagar a primeira parcela da compra de um apartamento em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio.

Em ocasiões posteriores, entre 2014 e 2018, o MP apontou que Flávio recebeu R$ 275 mil em depósitos fracionados, quase sempre de R$ 2 mil cada, o que permitia “burlar a obrigatoriedade de identificação dos depositantes”.

Quando os indícios de rachadinha vieram à tona, Queiroz atuou junto ao advogado Gustavo Botto para alinhar depoimentos de ex-assessores de Flávio — embora Botto estivesse formalmente constituído como advogado de Flávio, conforme apontou o Ministério Público.

Anos depois, e apesar da tentativa atual de distanciamento, Flávio e Queiroz voltaram a trocar demonstrações de fidelidade. Na campanha de 2024, o senador foi a Saquarema, chamou Queiroz de “candidato do Bolsonaro” e pediu votos para o ex-assessor se eleger vereador.

— Para entrar na política tem que ter couro grosso, e o Queiroz tem. A gente está do lado certo da história. (...) Quero voltar com o presidente Bolsonaro aqui em Saquarema para dar um abraço na (atual prefeita) Lucimar e no Queiroz — declarou Flávio na ocasião.

Procurado, o senador não se manifestou. A prefeitura de Saquarema informou, em nota, que a nomeação de Queiroz “atendeu estritamente a critérios técnicos”, e citou o fato de ele ser “um PM reformado com 30 anos de experiência”. A secretaria estadual de Ciência e Tecnologia não respondeu sobre a atuação de Felipe Queiroz na pasta.