Poder e Governo

Proposta de delação premiada de "Beto Louco" já foi entregue ao Ministério Público de São Paulo

Alvo da Operação Carbono Oculto, empresário revelou nomes de magistrados e servidores envolvidos no esquema de sonegação fiscal no setor de combustíveis

Agência O Globo - 10/04/2026
Proposta de delação premiada de 'Beto Louco' já foi entregue ao Ministério Público de São Paulo
Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como "Beto Louco" - Foto: Reprodução

Está sob análise do procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sergio de Oliveira e Costa, a proposta de delação premiada apresentada pelo empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como "Beto Louco". Ele é um dos principais investigados pela Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, sob suspeita de liderar um esquema de lavagem de dinheiro, sonegação e adulteração de combustíveis. Os documentos já foram protocolados junto ao Ministério Público de São Paulo (MP/SP).

Revelações e compromissos

Segundo fontes com conhecimento das tratativas, Beto Louco forneceu documentos preliminares que indicam o potencial do acordo. De acordo com uma das fontes, o empresário revelou nomes de magistrados e servidores públicos responsáveis por fiscalizações no setor de combustíveis, todos supostamente envolvidos no esquema. Ele também disponibilizou números de telefones celulares utilizados por ele, que podem conter informações relevantes sobre as fraudes e demais envolvidos.

O aspecto mais relevante, segundo as fontes, é o compromisso assumido por Beto Louco de ressarcir os cofres públicos pelos prejuízos causados pelas fraudes fiscais. As investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo e pela Secretaria da Fazenda do Estado (Sefaz-SP) apontam que as empresas Copape e Aster Petróleo sonegaram mais de R$ 1,3 bilhão em ICMS entre janeiro de 2020 e abril de 2021. A informação foi inicialmente divulgada pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO.

Relação com o PCC e expansão do esquema

A Polícia Federal investiga a ligação entre esse esquema e postos de combustíveis associados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Aproximadamente mil postos ligados à facção movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Conforme as apurações da Operação Carbono Oculto, Beto Louco era responsável pela gestão das empresas Copape e Aster, utilizadas pelo grupo para praticar fraudes fiscais e viabilizar a lavagem de dinheiro.

O grupo, liderado por Beto Louco e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo" e apontado como principal nome da organização, expandiu suas atividades para toda a cadeia produtiva do setor, incluindo a aquisição de usinas de etanol, com relatos de intimidação de fazendeiros para forçar a venda de propriedades.

Fuga e negociações

Beto Louco e Mohamad Mourad fugiram do Brasil, percorrendo mais de 9 mil quilômetros até um país do norte da África. Segundo investigadores, a fuga ocorreu após ambos se tornarem alvos da Polícia Federal e do Ministério Público. Atualmente, os dois figuram na lista de foragidos da Interpol e negociam a delação premiada com o Ministério Público de São Paulo por intermédio de seus advogados.

No ano passado, uma tentativa de acordo em que os empresários mencionavam políticos foi rejeitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).