Poder e Governo

Pagamentos do Master reforçam conexão com políticos da Bahia ligados ao governo, oposição e Centrão

Documentos apresentados pelo banco à Receita Federal revelam contratações de consultorias

Agência O Globo - 10/04/2026
Pagamentos do Master reforçam conexão com políticos da Bahia ligados ao governo, oposição e Centrão
- Foto: Reprodução

Os documentos entregues pelo Banco Master à Receita Federal reforçam a conexão da instituição financeira com os políticos da Bahia, incluindo nomes ligados ao governo, Centrão e à oposição.

O material, obtido pelo GLOBO, trouxe novos detalhes de pagamentos que já foram revelados ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), pré-candidato ao governo da Bahia, e um familiar do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

A exposição ao caso fez com que dois grupos adversários costurassem um acordo para que o caso Master não fosse um assunto na campanha eleitoral. A avaliação de interlocutores políticos de ambos os campos que exploram o assunto pode render desgastes tanto para ACM Neto quanto para o grupo de Wagner, que vai apoiar a reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT).

Além disso, os documentos da Receita também revelaram pagamentos a uma empresa do ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento, que ocupou o cargo no governo Bolsonaro e foi o principal auxiliar na pasta de João Roma, que deve concorrer ao Senado. Também há registros de pagamentos a uma empresa do filho do senador Otto Alencar (PSD-BA), aliado do PT.

Serviços de

No caso de ACM Neto, os dados da Receita Federal apontam o pagamento de R$ 5,4 milhões ao ex-prefeito por meio de sua empresa de consultoria entre 2023 e 2025. Em nota, o ex-prefeito de Salvador informou que "não pode validar os valores" por não ter tido acesso aos dados.

Ainda segundo ele, a relação com o Master foi firmada “sem que qualquer dos sócios da A&M ocupasse carga pública à época da formalização e execução do contrato”. O pré-candidato diz que fez análise da "agenda político-econômica nacional" e fez uma série de reuniões com representantes do banco.

O texto destaca ainda que ele se colocou à disposição do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) para prestar esclarecimentos e pediu a apuração do “vazamento de dados fiscais sigilosos”.

Convas de crédito

Também foi possível identificar transferências de R$ 14 milhões de 2022 a 2025 para a empresa BN Financeira, que tem como sócia Bonnie Toaldo Bonilha, nora de Jaques Wagner — Bonilha é casada com um enteado do senador. O contrato foi firmado em 2021. No último ano, os pagamentos atingiram R$ 7 milhões.

O GLOBO atraiu o senador e a empresa. A firma negou qualquer ligação com Wagner e destacou que foi fundado em 2021 e prestou serviços ao Banco Master entre 2022 e 2025. A BN também afirmou que está à disposição para qualquer esclarecimento adicional e que espera que todos os fatos sejam integralmente esclarecidos com maior brevidade.

"Os contratos tiveram por objetivo a prospecção e indicação de operações e convênios de crédito público e privado. Os únicos sócios da empresa são Moisés Dantas e Bonnie Bonilha. Não existe qualquer investigação ou apuração policial quanto ao tema, pois não existe qualquer irregularidade. ⁠⁠Todos os recursos captados pela BN Financeira se deram de forma oficial, contabilizada e mediante emissão de nota fiscal, distribuídos formalmente aos sócios e declarados à Receita Federal", afirmou.

Filho de senador

As informações prestadas à Receita também mostram pagamentos a outra empresa ligada a um político baiano: de 2022 a 2025, o Master repassou R$ 12 milhões à Mollitiam Financeira.

A firma foi criada em 2011 e é propriedade de outras duas companhias: uma delas, a M&A Participação, pertence a Otto Alencar Filho. Ex-deputado federal e atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, ele também declarou participação pessoal na Mollitiam nas eleições de 2022. Procurado, Otto Filho afirmou que a M&A, empresa pela qual é sócia da firma que recebeu do Master, possui ações em diversas empresas de diferentes setores.

"Todos os serviços dessas empresas foram devidamente faturados; receitas, despesas e investimentos contabilizados; e impostos pagos, respeitando as leis e boas práticas. É importante frisar que a M&A Participação não é administradora de nenhuma das empresas que possuem ações e cotas", afirmou.

Outro nome que aparece é o da empresa Meta Consultoria, que pertence ao ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento. Ele chegou a ter uma convocação aprovada pela CPI do Crime Organizado em razão de sua participação como diretor no Banco Pleno, ligado a Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro no Master. Segundo os registros de pagamento, a empresa dele recebeu R$ 6,2 milhões em 2025 do Master.

Ascensão de Augusto Lima

A relação do Master com a Bahia se origina com a entrada de Augusto Ferreira Lima no quadro societário da empresa. O empresário, que também foi preso durante a deflagração da Operação Compliance Zero, em novembro do ano passado, viu seus negócios dispararem após a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) durante o governo Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil de Lula.

No negócio, Lima adquiriu o Credcesta, um cartão de benefícios direcionado inicialmente para todos os servidores públicos da Bahia. Sua operação se expandiu para todo o país em parceria com o Banco Master.

Além de ter boa circulação entre políticos baianos, Lima também tem bom trânsito em . Em janeiro do ano passado, ele se casou com Flávia Peres, ex-ministra do governo Bolsonaro, ex-deputada federal e ex-mulher do ex-governador do DF José Roberto Arruda.

Em fevereiro, Costa defendeu a decisão que tomou quando era governador e argumentou que a operação de cartão de crédito consignado foi o que viabilizou o negócio.