Poder e Governo
Entrevista: Lula 'demorou demais' a decidir sobre posição do PT no Rio Grande do Sul, reclama ex-governador Tarso Genro
Ex-governador gaúcho diz que indefinição da cúpula agravou tensões no PT no estado, rebate críticas da direção nacional e avalia que apoio a Juliana Brizola pode fortalecer projeto eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026
Após a retirada da pré-candidatura de Edegar Pretto ao governo do Rio Grande do Sul, em meio à pressão da direção nacional do Partido dos Trabalhadores para apoiar Juliana Brizola, o ex-governador Tarso Genro afirma que Luiz Inácio Lula da Silva “demorou demais” a se posicionar sobre o impasse no estado. Em entrevista ao GLOBO, ele minimiza a tese de intervenção no diretório gaúcho, critica a condução da crise pela cúpula petista e defende a construção de uma frente ampla em torno da reeleição de Lula, apesar dos desgastes internos.
Ex-presidente da OAB:
Após anúncio da escolha do PSD:
Por que Edegar Pretto seria um candidato melhor que Juliana Brizola?
O Edegar teve uma votação surpreendente nas eleições ao governo em 2022. Ele se comportou como um verdadeiro líder político, articulado várias relações na sociedade e quase foi ao segundo turno, com uma diferença de apenas dois mil votos, em um momento altamente negativo para a esquerda no estado. Isso fez com que a base partidária e intelectual concluísse que ele seria um candidato vitorioso desta vez, mas aí entraram os contrapontos. Corretamente ou não, a direção nacional concluiu que trazer a Juliana pode fortalecer o projeto de reeleição do presidente Lula, mas isso só será testado nas urnas.
Na segunda-feira, o senhor declarou que ninguém no Rio Grande do Sul aceitaria uma intervenção. Qual a sua percepção agora?
Não houve intervenção, pois isso só ocorre quando há a destituição da direção partidária local. Eu reitero que não aceitaria algo do tipo. Essa foi, na verdade, uma orientação para que nosso partido se mova na direção da unidade, mesmo que represente tirar nosso candidato. O Edegar fez uma formulação mais importante do que precisa ser construída aqui no Rio Grande do Sul, que é a unificação em torno da reeleição do presidente Lula.
Como o senhor recebeu a orientação do PT Nacional para o diretório gaúcho apoiar Juliana Brizola ao governo?
Hoje par sobre o país o perigo do fascismo. Isso nos obriga a fazer uma reflexão profunda, com a necessidade de promover uma integração entre esses dois projetos neste momento. Na minha opinião, o Edegar tomou uma decisão politicamente adequada ao aceitar, de bom grado, a orientação que veio da Executiva Nacional. Seria uma perda política para o Rio Grande do Sul esses partidos terem dois candidatos.
O senhor acredita que o presidente Lula demorou a se posicionar sobre essa racha?
Acho que demorou demais. Pelo que eu sei, o Lula sugeriu ao Edinho que se fizesse um esforço em torno da Juliana. Tenho a impressão de que pelas suas ações, com a crise mundial e o acúmulo de tarefas problemáticas que seu governo está tendo, ele foi deixando um pouco. Acho que essa seria uma definição mais tranquila e com uma compreensão menos custosa se fosse feita com mais antecipação e de uma maneira mais clara. O resultado final é a formação de uma ampla frente política, embora isso tenha criado determinados percalços em nossos debates internos. Isso tudo é superável, e agora temos que olhar para a frente.
O presidente nacional, Edinho Silva, classificou como “etnocentrismo político” a resistência a Juliana. O que pensa sobre essa declaração?
Ele é um quadro atualizado dentro do partido, mas penso que esse é um argumento equivocado, de quem não estudou com profundidade a história do Rio Grande do Sul. É uma visão de fora. Aqui, estamos acostumados a ter debates bem duros dentro do partido, mas sem perder o respeito. Troquei ideias com membros da Executiva Nacional, inclusive com Edinho, de quem sou amigo pessoal. Informei de maneira permanente o que estávamos fazendo, sobre o nosso candidato foi escolhido pelas instâncias locais do partido.
O que o PDT precisa fazer para conquistar o apoio dos partidos que estavam com Edegar?
O PDT nunca nos engana. Eles sempre disseram que não tinham condições de adesão à candidatura do PT, já que as bases internacionais não estavam acostumadas com essa aproximação entre nós. Preliminarmente, acho que eles deverão apresentar um programa claro para o primeiro ano de governo. Quando eu governei, o PDT ocupou cargos de primeiro escalonamento, mas saiu da gestão e, nas eleições seguintes, apoiou meu adversário. Então, uma exigência que deve se ter é firmar um acordo político, já no primeiro ano, para percorrer os três posteriores juntos e pensar na reeleição ou em ter outro candidato unitário.
Muitos petistas definem Juliana como sendo "aliada ao neoliberalismo" e, há alguns anos, ela teceu críticas públicas ao PT. Como fica a imagem dela agora?
Uma frente política é uma frente entre desiguais. Esse sistema de aliança não se faz em nome do socialismo, mas em nome da democracia, da defesa da soberania e da proteção aos pobres e excluídos, o que é perfeitamente adequado à doutrina do PDT. Se quisermos levar pessoas por caminhos que consideramos errados, temos que receber-las de braços abertos, e não cobrar o passado. A Juliana é derrotada, lutadora e representa as parcelas mais avançadas do PDT. Se ela for a candidatura mais adequada ou não, a eleição será demonstrativa.
Em 1998, o PT Nacional interveio no Rio de Janeiro para determinar que o diretório local apoiava Garotinho, o que o núcleo rejeitava. Quais as diferenças e semelhanças o senhor está avaliando entre o que ocorreu aqui e o que está em andamento aí?
A diferença é substancial. No Rio, determinaram ao partido uma conduta. Aqui no Rio Grande do Sul foi diferente, pois veio uma orientação política a ser aplicada por vários regionais, dentro das normas partidárias, sem arbitragem.
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