Poder e Governo
PSD muda de posição e agora defende voto aberto na eleição indireta para o governo do Rio
Mudança ocorre diante da perspectiva de derrota do grupo de Eduardo Paes na Assembleia Legislativa
Cerca de um mês após defender o voto secreto em uma eventual eleição indireta para o governo do Rio, o PSD mudou de posição durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), iniciado na terça-feira, e passou a apoiar a votação aberta. A guinada ocorre em meio à percepção de que o grupo do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) tende a ser derrotado na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), mesmo se a votação para secreta.
Disputa nos bastidores
Aliados de Paes vieram defendendo o voto secreto para os 70 deputados estaduais como única chance de derrotar o grupo do deputado estadual Douglas Ruas (PL) na Alerj. Em uma espécie de "teste" para a eleição indireta, Ruas conquistou 45 votos no fim de março para se eleger presidente da Alerj.
A votação foi anulada pela Justiça do Rio por desrespeito a trâmites legais, mas foi encarada por ambos os lados como um sinal de que Paes tem poucas chances de vitória dentro da Assembleia.
— Se (o STF) entendeu que deveria ser eleição indireta, que então seja preservada a oportunidade de uma votação aberta, para que a população conheça de fato, com transparência, como foi essa votação — afirmou o advogado Thiago Fernandes Boverio, do PSD, durante o julgamento no Supremo.
Contradição nas manifestações
O mesmo advogado havia defendido, em petição ao STF em 12 de março, que a "determinação do voto aberto fere diretamente um dos principais pilares que garantem a legitimidade do processo eleitoral, seja qual for a sua modalidade de realização, que é o voto secreto ou o sigilo do voto".
Na ocasião, o PSD se posicionou contra a lei aprovada pela Alerj que previa “votação nominal, aberta e exclusivamente presencial” para a eleição indireta. O partido de Paes defendeu o voto secreto para garantir que apenas cada deputado soubesse em quem votou.
“É uma forma de evitar pressão sobre a assembleia eleitoral, bem como evitar a compra de votos ou qualquer outro tipo de cooperação, garantindo que o resultado da votação expresse realmente a vontade dos eleitores”, argumentou o advogado em março.
Contexto político e psicológico
Na época, como o ex-governador Cláudio Castro (PL) ainda não havia sido condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no caso Ceperj, discutiu-se apenas o formato da eleição indireta para preencher a vaga no Executivo. Com a notícia de Castro no dia 24 — após sua renúncia ao governo —, o PSD passou a defender que a eleição deveria ser direta, com participação popular.
Paralelamente, o partido buscava articular uma candidatura competitiva na Assembleia para o caso de eleição-tampão ser indireto. Uma das apostas foi o deputado estadual Chico Machado, então no Solidariedade, que abriu conversas com o PSD. No início de abril, porém, Machado se filiou ao PL, partido de Ruas.
Dissidências e desafios internos
Apesar da aposta de Paes em possíveis traições na base de Ruas caso a votação fosse secreta, a eleição anulada para a presidência da Alerj mostrou que o PSD também enfrentou dissidências internas. Naquela votação — que foi aberta —, dois deputados do próprio PSD, Lucinha e Munir Neto, contrariaram Paes e votaram em Ruas.
Além disso, parte dos deputados recém-ingressos no PSD e no MDB, aliado de Paes, também é eleito próximo a Ruas. Reservadamente, lideranças partidárias ouvidas pela GLOBO avaliam que, independentemente do formato da votação, a tendência é de derrota do ex-prefeito na Alerj.
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