Poder e Governo

Pagamentos do Master a autoridades aumentaram 27 vezes enquanto Vorcaro buscava ampliar influência política

Documentos da Receita mostram salto de repasses a ex-presidente, ex-ministros e dirigentes partidários entre 2023 e 2025

Agência O Globo - 09/04/2026
Pagamentos do Master a autoridades aumentaram 27 vezes enquanto Vorcaro buscava ampliar influência política
Pagamentos do Master a autoridades aumentaram 27 vezes enquanto Vorcaro buscava ampliar influência política - Foto: Reprodução / Agência Brasil

Os pagamentos do Banco Master a políticos, ex-ministros e dirigentes partidários cresceram 27 vezes entre 2023 e 2025, período em que o dono da instituição, Daniel Vorcaro, intensificou sua atuação para ampliar influência em Brasília e viabilizar saídas para a crise enfrentada pelo banco. Dados declarados à Receita Federal indicam que os repasses, que somaram R$ 1,5 milhão em 2023, saltaram para R$ 41,7 milhões em 2025. Em todo o período, foram R$ 65,8 milhões.

O avanço expressivo coincide com a estratégia do banqueiro de se aproximar de figuras centrais do poder político. Como O GLOBO mostrou, Vorcaro costumava afirmar que havia feito “fortes amigos” em Brasília e que não era possível “andar sem proteção política” no país. A ampliação dos pagamentos acompanha esse movimento de construção de uma rede de influência, que incluiu desde ex-presidentes até auxiliares de governos recentes.

Os dados mostram que, em 2023, os pagamentos ainda eram residuais — cerca de R$ 1,53 milhão. No ano seguinte, já em meio a negociações críticas envolvendo o futuro do banco, o volume arrecadou para R$ 22,6 milhões. O salto mais relevante ocorre em 2025, quando os desembolsos atingem R$ 41,7 milhões, lança uma alavancagem da estratégia de contratação de consultorias, pareceres jurídicos e interlocução política.

Entre os principais beneficiários está o ex-presidente Michel Temer, cujo escritório de advocacia recebeu R$ 10 milhões em 2025, segundo a declaração do Master. O emedebista foi contratado para atuar como mediador na tentativa de venda do banco ao BRB, operação considerada crucial para a sobrevivência da instituição. Em declarações públicas, Temer afirmou que atuou na mediação e que os valores recebidos seriam inferiores aos declarados — cerca de R$ 7,5 milhões.

Outro nome de destaque é o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que recebeu R$ 14 milhões por meio de sua consultoria entre 2024 e 2025. Durante esse período, ele atuou na aproximação de Vorcaro com o governo federal e chegou a levar o banqueiro a uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.

Também aparece na lista o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, com R$ 5,93 milhões entre 2023 e 2025; o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, com R$ 18,4 milhões em 2024 e 2025; e o advogado e ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, com R$ 3,8 milhões. O ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento recebeu R$ 6,2 milhões no período.

No campo partidário, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, recebeu R$ 2,1 milhões entre 2024 e 2025. Já a empresa do ex-prefeito de Salvador ACM Neto recebeu R$ 5,4 milhões entre 2023 e 2025. 

A intensificação desses vínculos não se deu apenas por meio de contratos formais. Vorcaro também compartilhava agendas e deslocamentos com figuras centrais da política. Em 28 de agosto de 2025, por exemplo, o banqueiro passou em um jatinho de Brasília para São Paulo ao lado do senador Ciro Nogueira (PP-PI), dos deputados Isnaldo Bulhões (MDB-AL) e Rodrigo Gambale (Podemos-SP), além dos ex-ministros Fábio Faria e Bruno Bianco. Os registros indicam que o grupo acessou o hangar do aeroporto às 15h, e a aeronave decolou cerca de meia hora depois, sem outros voos compatíveis no período.

A viagem ocorreu em um momento sensível para o banco, poucos dias antes de o Banco Central vetar a operação de venda ao BRB — considerada a principal tentativa de salvar a instituição. Os passageiros confirmaram reservadamente a não presença de voo, e mensagens obtidas pelo investigador indicam que Vorcaro estava em posição naquele dia.

O episódio reforça a proximidade do banqueiro com lideranças políticas em meio à tentativa de destravar soluções para o Mestre.

Em mensagens demonstradas pelo investigador, Vorcaro se referiu a Ciro Nogueira como “grande amigo”, e o senador chegou a apresentar proposta no Congresso para elevar o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), na medida em que beneficiasse diretamente o modelo de negócios do banco.

Além das viagens, a rede de contatos incluía encontros ocasionais, participação em eventos e até a disponibilização de aeronaves para aliados. Em outro episódio, Vorcaro colocou um presidente à disposição de dirigentes partidários durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 em São Paulo, segundas mensagens demonstradas pelo investigador.

Procurados, os citados alegaram que os serviços prestados foram legais e compatíveis com suas atividades profissionais. Rueda declarou que realizou “atividade profissional legítima, regular e plenamente compatível com o exercício da advocacia”, em caráter técnico. Wajngarten disse que presta serviços regulares e devidamente declarados.

Meirelles afirmou que manteve contrato de consultoria “em caráter opinativo” sobre macroeconomia. Lewandowski declarou que prestou consultoria jurídica após deixar o STF e que suspendeu suas atividades ao assumir o Ministério da Justiça. A empresa de ACM Neto informou que não teve acesso aos dados para validar os valores, mas afirmou que os contratos foram formais e legais. A defesa de Vorcaro não comentou.

A Polícia Federal investiga o caso e descobre se houve irregularidades nas relações entre o banco e agentes públicos ou privados. Até o momento, não há condenações, e os envolvidos negam qualquer ilegalidade.