Poder e Governo

Lula diz que 'mais gente' deveria acompanhar depoimentos de Vorcaro: 'Delação pode ser comprada'

Agência O Globo - 08/04/2026
Lula diz que 'mais gente' deveria acompanhar depoimentos de Vorcaro: 'Delação pode ser comprada'
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira que "mais gente" deveria acompanhar os depoimentos da possível delação premiada do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, porque pode ser uma "delação comprada".

— Tem que prestar depoimento com testemunha. A delação... Tem gente que fala que o Vorcaro não popde fazer delação... Vorcaro pode fazer delação. A vedação é sempre delicada. Tem que ter mais gente acompanhando,. porque pode ser uma delação comprada.

Pré-Campanha

Com o governo já em modo eleitoral, a seis meses do pleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou em entrevista na manhã desta quarta-feira o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), seus prováveis ​​adversários. O petista recorreu à defesa da soberania nacional, um dos temas que pretende explorar na campanha, para atacar os adversários. Em outro momento, admitido que você precisará apresentar "algo novo" para pleitear um novo mandato.

O presidente está investindo na pré-campanha na estratégia de comparação entre o seu governo e o ex-presidente Jair Bolsonaro. O ex-governador de Goiás, que entrou na corrida na semana passada, também virou alvo nesta quarta-feira.

— Ele quer vender para os Estados Unidos (Flávio Bolsonaro) uma coisa que é tão importante para o Brasil, é como se ele pegasse o petróleo e desse para eles. É uma vergonha inclusive o que o Caiado fez em Goiás, o Caiado fez um acordo com empresas americanas fazendo concessão do que ele não pode fazer, porque é da União, se a gente não tomar cuidado, essa gente vai vender o Brasil — disse Lula, em entrevista ao portal ICL Notícias.

No fim de março, durante participação na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, Flábio Bolsonaro afirmou que o Brasil pode ser “a solução” para reduzir a dependência americana da China em terras-raras. Já Caiado, em março, antes de dexiar o governo de Goiás, assinou um memorando de entendimento entre seu estado e o governo dos EUA para estabelecer uma parceria na exploração de minerais críticos e terras raras.

Durante a entrevista desta quarta-feira, Lula conseguiu que precisasse apresentar um programa de governo com novidades na campanha eleitoral. Há um reconhecimento entre parte dos aliados de que o presidente enfrentou uma "fádiga de material" em razão de sua longa trajetória política.

— Eu falo que não decidi que vou ser candidato ainda, mas certamente vai ter uma convenção no mês de junho, e eu, para ser candidato, vou ter que apresentar um programa, alguma coisa nova para este país. Alguma coisa para que a gente não fique só no: "fica um mandato, acaba com a fome, sai, volta e acaba com a fome de novo".

Lula também afirmou que o Estado não pode ser "sequestrado" pelo orçamento secreto e criticou os pagamentos pendentes em cláusulas no topo do funcionalismo público.

— Eu não quero um estado em que a gente fique subordinada, quase que sequestrada pelo orçamento secreto. Isso não é correto, nem para o Congresso nem para o Executivo. Temos que executar o orçamento porque a sociedade me deu mandato para executar. Não é possível que você não acabe com os penduricalhos na história desse país, é preciso acabar com a promiscuidade política — afirmou.

Ao todo, 16 ministros deixaram os cargos por causa da eleição. Também com esse foco, o governo debate medidas para conter o endividamento da população, que chegou a um patamar recorde.

Ministério da Segurança

O presidente voltou a dizer que aguarda a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança para criar um ministério dedicado à área.

— Na hora que aprovar a PEC, na semana seguinte será anunciada a criação do Ministério da Segurança Pública inclusive com orçamento, porque não dá para fazer segurança pública com esmola, se for necessário um orçamento novo, um orçamento robusto, a sociedade precisa que nós entremos em ação

O texto já foi aprovado pelo Senado e está em discussão na Câmara. Lula disse ainda que há uma tentativa de “consolidar a ultradireita” no próximo pleito.

— Há uma tentativa de consolidar um esquema de ultradireita nesse país que passa por colocar um fim na democracia, porque eles começaram a sonhar em fechar o STF, principalmente falando que tem fraude nas urnas, desacreditando em tudo que é instituição da democracia. Essa eleição será decisiva para ver se queremos democracia ou não — complementou o presidente.

Negociações nos estados

Além disso, como mostrado O GLOBO, o desenho dos palanques nos estados está avançando. O PT caminha para ter seu menor número de candidatos a governador e vai abrir espaço nos palanques na tentativa de ampliar a adesão à campanha à reeleição. O partido trabalhou, até o momento, com nove nomes próprios nos estados.

As articulações do período de pré-campanha vão ganhar novos fôlegos a partir desta semana, com o fim da janela partidária, na sexta-feira, e o encerramento do prazo de desincompatibilização para quem deseja disputar o pleito em outubro. Dez governadores renunciaram aos mandatos na tentativa de concorrer a outras cargas.

A legenda decidiu abrir mão da cabeça de chapa em favor de aliados de centro e centro-esquerda, especialmente em áreas onde o bolsonarismo é mais forte, caso do Sul do país. Reservadamente, os dirigentes petistas afirmam que o cálculo é “perder por menos” na comparação com 2022 no Rio Grande do Sul, Paraná e em Santa Catarina, sob pena de risco para o novo mandato.

Dentro da mesma estratégia, o Senado se tornou prioritário diante da possibilidade de crescimento da oposição a partir da próxima Legislatura. No Rio Grande do Sul, a legenda deverá rifar Edegar Pretto (PT), que já esteve na pré-campanha, em nome do apoio a Juliana Brizola (PDT), enquanto o deputado federal e ex-ministro Paulo Pimenta (PT) concorrerá ao Senado.

Em Santa Catarina, o empresário Gelson Merisio migrou para o PSB em uma aliança que também incluirá o PDT. Para o Senado, a aposta no estado será Décio Lima, presidente do Sebrae, para reconquistar uma vaga que a legenda já teve, entre 2002 a 2010, com Ideli Salvatti. Já no Paraná, o PT vai apoiar a candidatura do deputado estadual Requião Filho (PDT) ao governo, com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, tentando voltar à Casa chefiada por Davi Alcolumbre (União-AP).

— O centro da estratégia não é eleito governador, é reeleito Lula. Não estamos iludindo achando que vamos fazer 50% ou 60% para Lula em Santa Catarina, mas podemos ampliar de 30% (votação de 2022), para 35%. Se chegarmos a uma média de 40% de votação no Sul, contribuímos muito para a reeleição e será uma grande vitória política — afirma o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (PT-SC).

O PT também não terá candidato em colégios com número expressivo de candidatos, como Rio de Janeiro, onde apoiará Eduardo Paes (PSD), e Minas Gerais, palco da tentativa de Lula de convencer o senador Rodrigo Pacheco (PSB) a buscar o governo. Em Pernambuco, Lula ficará com o prefeito do Recife, João Campos (PSB), e no Pará, com a vice-governadora Hana Ghassan (MDB). No Amazonas, a aposta é no senador Omar Aziz (PSD). A aliança com a sigla de Gilberto Kassab deve se repetir também no Mato Grosso, com a médica Natasha Slhessarenko, e em Sergipe, na tentativa de reeleição do governador Fábio Mitidieri.

— O fato de lançarmos menos candidatos a governadores mostra que estamos conseguindo ampliar alianças. O objetivo do bloqueio é a candidatura (à Presidência) da extrema-direita — afirma o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), em referência indireta ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Depois de três anos de relação turbulenta com o Congresso, o PT tem como principais linhas fortalecer a legenda na Câmara, onde mira ampliar a bancada federal em 20 deputados, e evitar que a renovação das cadeiras do Senado vire uma avalanche bolsonarista. A diretriz também será seguida na distribuição de recursos para o fundo eleitoral.

Reflexos na bancada

Petistas críticos à linha de ação da cúpula do partido afirmam que a falta de candidatos ao governador pode enfraquecer a formação da bancada federal. Também pontuam que a estratégia fragiliza a presença do PT nos estados, dificultando o surgimento de lideranças regionais. Por outro lado, os defensores do ponto de vista da presidência do PT argumentam que Lula é o principal puxador de votos para a Câmara.

Dentro desses prêmios, a legenda priorizará a reeleição nos locais que já governam: Piauí, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte, onde também há obstáculos. A situação mais confortável, de acordo com dirigentes, é do governador do Piauí, Rafael Fonteles. Na Bahia e no Ceará, Jerônimo Rodrigues e Elmano de Freitas, respectivamente, enfrentaram riscos e seus antecessores — Rui Costa e Camilo Santana — foram escalados por Lula para fortalecer as campanhas para não haver risco de a legenda perder o comando dos dois estados mais populosos do Nordeste.

O cenário mais delicado ocorre no Rio Grande do Norte, onde Fátima Bezerra, que enfrentou alta desaprovação, abdicou de disputar o Senado após romper com o vice, Walter Alves (MDB), que desistiu de assumir o governo em caso de renúncia do governador. O PT escalou o secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier, para disputar o governo do Estado.

Além dos estados que já comanda, o PT deve concentrar esforços em São Paulo. A maior comissão eleitoral do país terá o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como nome para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ainda que considere uma vitória extraordinária, a legenda quer ao menos repetir a votação de Lula e Haddad em 2022 — o resultado há quatro anos foi considerado decisivo para a conquista do Palácio do Planalto.

Negociações em aberto

Há ainda planos de candidatura própria em aberto: Goiás, onde há também a chance de apoio ao ex-governador Marconi Perillo (PSDB); Maranhão, com a possibilidade de apoio ao prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), ou de lançamento do vice-governador Felipe Camarão (PT); e Roraima, onde a professora Antônia Pedrosa (PT) foi lançada pré-candidata, mas há chance de composição com o vice-governador Edilson Damião (União Brasil).

— É possível, desde que defenda a reeleição e tenhamos um palanque para Lula — afirma o presidente do PT em Roraima, Benedito Paulo.

Em 2002, ano em que Lula foi eleito para o Planalto pela primeira vez, a legenda chegou a ter 24 postulantes a Executivos estaduais. O número oscilou ao longo das disputas, sempre influenciado pela estratégia traçada para a corrida presidencial, que orienta a linha política aplicada pelo PT. Em 2022, eram 13 nomes petistas. A sigla apresentou seu menor número de candidatos em 2010, com dez. Na ocasião, embalada pela popularidade em alta de Lula, o PT montou uma aliança de dez partidos em torno da candidatura de Dilma Rousseff.