Poder e Governo

Com Bolsonaro em casa, Michelle ganha mais poder de decisão para a campanha

Novo cenário dá à ex-primeira-dama controle do dia a dia e deve reforçar divergências com a condução política de Flávio

Agência O Globo - 24/03/2026
Com Bolsonaro em casa, Michelle ganha mais poder de decisão para a campanha
Michelle Bolsonaro - Foto: Reprodução / Agência Brasil

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu nesta terça-feira prisão domiciliar a Jair Bolsonaro por ao menos 90 dias, deve ampliar o poder de Michelle Bolsonaro sobre os rumos da campanha de 2026. Segundo aliados ouvidos pelo GLOBO, a ex-primeira-dama passa a concentrar o acesso cotidiano ao ex-presidente e tende a influenciar diretamente decisões políticas, num momento em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mantém agenda intensa fora de Brasília, devido à pré-campanha.

A própria decisão autoriza visitas frequentes de advogados, condição que permite a Flávio acesso ampliado ao pai. Aliados, no entanto, reconhecem que a rotina do senador deve limitar essa presença. Com viagens previstas e compromissos de campanha, incluindo participação no evento conservador CPAC, nos Estados Unidos, na quinta-feira, ele tende a manter atuação mais à distância, enquanto Michelle concentra o convívio diário.

A leitura no entorno é que a domiciliar acelera um movimento que já vinha em curso desde a crise do Banco Master e a internação do ex-presidente: Michelle avança sobre a articulação política enquanto Flávio conduz, à distância, a montagem dos palanques. A diferença de atuação tem produzido atritos, sobretudo porque a ex-primeira-dama não participa das reuniões da pré-campanha nem se engajou nas agendas organizadas pelo senador.

A avaliação de aliados é que a reunião de Michelle com Moraes, realizada na véspera da decisão, reforçou sua posição como principal articuladora do entorno. O encontro, no qual ela levou o parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) favorável à domiciliar e fez um apelo pessoal ao ministro, foi lido como um ponto de inflexão na atuação da ex-primeira-dama. Flávi também se reuniu com Moraes na semana passada.

Ao GLOBO, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) destacou o papel de Michelle nas articulações e o tom adotado no encontro:

— Michelle é uma mulher de fé e decidiu levar essa luta para um nível de oração. Ela tem orado pela vida do ministro desde o ano passado. Ontem falou com o coração, depois de um dia inteiro de oração. O ministro foi extremamente respeitoso com ela.

Interlocutores relatam que Michelle mantém resistência à estratégia de alianças liderada por Flávio e, em conversas reservadas, já indicou preferência por uma alternativa à sua candidatura, tendo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como principal referência. A relação entre os dois é antiga e próxima e, no entorno do PL, é vista como um contraponto ao núcleo político liderado por Flávio.

Aliados ponderam que a hipótese de Tarcísio como alternativa nacional hoje é tratada como superada, já que o governador deve disputar a reeleição em São Paulo. Ainda assim, a proximidade com Michelle é lida como sinal de distanciamento em relação à estratégia do senador e como fator de pressão interna no desenho da campanha.

Com Bolsonaro em casa, aliados avaliam que essa influência tende a deixar de ser lateral. Michelle deve ganhar margem para organizar agendas, filtrar interlocutores e interferir na definição de palanques, áreas hoje centralizadas por Flávio. O redesenho ocorre em meio a divergências já abertas em estados estratégicos, como Distrito Federal, Ceará e São Paulo.

A fixação de um prazo de 90 dias para a domiciliar foi mal recebida por parte dos aliados. Em conversas reservadas, parlamentares afirmaram que a medida deveria ter sido concedida por tempo indeterminado e viram na limitação um fator de incerteza política.

Apesar do alívio com a saída da prisão, a decisão não altera a estratégia do grupo no Congresso. Aliados sustentam que a domiciliar não encerra a ofensiva pela revisão das penas. A discussão sobre dosimetria segue vinculada ao ambiente político no Senado e à resistência do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), à instalação de uma CPI sobre o caso do Banco Master.

Para derrubar vetos e avançar na pauta, será necessária a convocação de uma sessão conjunta do Congresso, etapa que também está pendente para a formalização de novos colegiados e vem sendo evitada por Alcolumbre.

A mesma leitura foi reforçada por Damares, que afirmou a colegas que a domiciliar não substitui a mobilização mais ampla:

— É preciso pensar em todos os presos injustiçados.

Já o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), reagiu à leitura de que a medida teria impacto político:

— Isso jamais pode ser tratado como cálculo político.