Poder e Governo

Centrão e governo articulam estratégias para conter impacto eleitoral do caso Master diante de possível delação de Vorcaro

PP e União Brasil reúnem documentos para comprovar serviços ao Master; governo minimiza conexões e tenta transferir desgaste à oposição.

Agência O Globo - 22/03/2026
Centrão e governo articulam estratégias para conter impacto eleitoral do caso Master diante de possível delação de Vorcaro
Centrão e governo articulam estratégias para conter impacto eleitoral do caso Master diante de possível delação de Vorcaro - Foto: Reprodução / Agência Brasil

Enquanto o Palácio do Planalto avalia os possíveis danos de uma eventual delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, congressistas e líderes do Centrão traçam estratégias para minimizar o desgaste político. Embora o foco principal esteja atualmente no Judiciário, parlamentares admitem um clima de apreensão, sentimento compartilhado por integrantes do governo. No Congresso, uma das ações é reunir documentos que justifiquem a relação de políticos com Vorcaro e o banco Master.

Defesa e reação

Uma das táticas cogitadas pelo Centrão é apresentar dados que amparem a alegação de ausência de conflito de interesses ou recebimento de vantagens em troca de eventual proteção política ao banqueiro.

Do lado do governo, há indícios de vínculos de Vorcaro com nomes do PT da Bahia, como o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, além de prestação de serviços ao banco pelos ex-ministros Guido Mantega e Ricardo Lewandowski. No Centrão, a proximidade mais explorada até o momento é entre os presidentes do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e do União Brasil, Antonio Rueda.

Integrantes do Centrão afirmam que a orientação é evitar declarações públicas e responder apenas diante de fatos concretos na delação. Avalia-se que a colaboração premiada pode se estender por meses.

A percepção predominante é que a delação pode desencadear uma reorganização política, dependendo dos atingidos e do grau de detalhamento das acusações, com potencial para impactar desde alianças regionais até negociações nacionais nas eleições deste ano.

Contestação

Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionam a pertinência de uma delação de Vorcaro. Alegam que dados bancários e celulares do banqueiro já estão sob posse da Polícia Federal e seriam suficientes para fundamentar as investigações.

O governo tem sustentado o discurso de que o caso Master envolve, sobretudo, políticos da direita. Perfis alinhados ao governo divulgaram nas redes sociais conteúdos apelidando o escândalo de "Bolsomaster".

As ligações de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, com Jaques Wagner e Rui Costa são minimizadas. O argumento é que não há, até o momento, fatos concretos que indiquem que Lima foi beneficiado no Credcesta, cartão de crédito consignado para servidores públicos operado pelo governo da Bahia. Após a privatização, em 2018, um decreto do então governador Rui Costa alterou regras e ampliou o mercado do cartão.

Nesta semana, veio a público que a nora de Wagner recebeu R$ 11 milhões do Master, segundo o portal Metrópoles. O valor foi pago à empresa BK Financeira, de sua propriedade. Em nota, o senador afirmou não ter participado de qualquer negociação ou intermediação. Além disso, Lula recebeu Vorcaro em dezembro de 2024 no Planalto, fora da agenda oficial. O banqueiro foi levado por Guido Mantega, que atuava como consultor do Master.

No Centrão, um aliado do presidente do União Brasil afirma que ele está reunindo documentos detalhando sua atuação como advogado para o Master. Uma suposta reunião com Rueda foi mencionada em mensagem do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.

O ex-prefeito ACM Neto (União-BA), que alega ter prestado consultoria ao Master, também prepara documentos que comprovem sua atuação, segundo interlocutores. Conforme revelou o GLOBO, o pré-candidato ao governo da Bahia recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag, segundo relatório do Coaf. Já Ciro Nogueira declarou que renunciará caso seja comprovado seu envolvimento em fraudes no banco.