Poder e Governo

Procurador-geral do MA aponta 'rede de laranjas' e pede afastamento de vice-governador, que alega perseguição

Aliado Flávio Dino critica 'vazamento criminoso' que, segundo ele, tem 'objetivo eleitoreiro'; caso vem em meio a atritos com governador Carlos Brandão e disputa por apoio de Lula em 2026

Agência O Globo - 21/03/2026
Procurador-geral do MA aponta 'rede de laranjas' e pede afastamento de vice-governador, que alega perseguição
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). - Foto: Reprodução / Instagram

O procurador-geral da Justiça do Maranhão Danilo José de Castro Ferreira pediu o afastamento imediato, por meio de decisão em caráter liminar, do vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão (PT), por suposta ligação com um esquema de lavagem de dinheiro, transferência atípica de valores milionários e crimes contra a administração pública. O petista criticou o vazamento da investigação, que, segundo ele, tem “objetivo eleitoreiro” e disse que não aceitará “perseguição política travestida de atuação institucional”.

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O pedido do procurador-geral foi encaminhado ao Tribunal de Justiça do Maranhão. De acordo com documento obtido pelo Estadão, Camarão teria usado parentes e policiais militares de sua segurança para captar R$ 6,3 milhões e outros R$ 4,7 milhões em imóveis de luxo em São Luís. Ferreira sustenta que o petista se beneficiou de uma rede de "laranjas" para ocultar transferências milionárias via Pix. Segundo ele, o dinheiro que circulou na conta ligada ao Camarão não é salário, mas tem origem em "receitas de outra natureza", sendo incompatível com a renda declarada. O procurador também pediu ao tribunal que seja apurado quem vazou as informações protegidas por sigilo judicial.

Pelo Instagram, Camarão afirmou ter recebido "com indignação o vazamento violação do suposto pedido de afastamento". Ele disse que nunca teve acesso ou ciência à investigação em que se baseou na manifestação do procurador-geral e disse que o procedimento tem "clara específica de exposição seletiva e constrangimento público".

O petista revelou "estranheza" na suposta proximidade de Ferreira com Marcus Brandão, irmão do governador Carlos Brandão, do qual é vice, mas com quem rompeu no fim de 2025. Camarão afirmou que vai entrar com medidas judiciais para que seja investigado um "possível aparelhamento" da PGJ.

“Minha trajetória pública ilibada de 25 anos não será manchada por esse tipo de prática. O Maranhão não pode retroceder a um tempo em que as instituições eram aparelhadas para fins de pressão política”, acrescentou Camarão.

Atritos

O pedido de afastamento vem em meio aos atritos políticos entre a ala vinculada ao governador Carlos Brandão (sem partido) e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ex-chefe do Executivo maranhense. Ligado ao magistrado, Camarão atuou no secretariado nos dois mandatos em que Dino comandou o governo.

Os dois grupos disputaram o apoio do presidente Luiz Inácio da Silva (PT) na corrida ao Executivo estadual. Neste mês, Carlos Brandão se antecipou à definição da chancela petista e lançou uma pré-candidatura ao governo do sobrinho Orleans Brandão (MDB), de quem deseja alavancar a imagem como seu sucessor. Foi um novo ponto de tensão com aliados de Dino, cujos apoiadores buscam consolidar a candidatura de Felipe Camarão.

Pelas redes sociais, neste mês, Camarão publicou imagens de Brandão num ato político do passado para rebater as alegações do governador de que nunca houve acordo pela sua candidatura. O vice afirmou que o chefe do Executivo maranhense desrespeitou um acordo com o PT Nacional.

"Só vencemos por causa de Lula/PT (garantido por eu ser o vice) e pela força/popularidade de Flávio Dino. Ocorre que será DESCUMPRIDO por razões familiares, por causa do programa segundo emprego para o sobrinho e pela traição ao povo do Maranhão. Da minha parte, só posso pedir desculpas por ter ajudado a eleger a neo oligarquia e dizer ao povo: SERÃO DERROTADOS EM OUTUBRO!", escreveu Camarão, em mensagem no Instagram.

A ruptura ganhou força após o vazamento de gravações de conversas nas quais aliados de Dino cobraram do grupo de Brandão o cumprimento de acordos firmados durante a eleição de 2024.

Como mostrou O GLOBO, o diretório estadual do PT afirma que uma decisão sobre o nome da sigla na corrida pelo Palácio dos Leões será de Lula, mas admite que o cenário preferencial seria uma candidatura de terceira via, que unisse as alas rompidas.