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MP-MT pede abertura de investigação sobre deputado gravado comemorando licitação

Após a repercussão do aúdio, Valmir Moretto publicou uma nota nas redes sociais e disse que se tratou de um "vício de linguagem"

Agência O Globo - 19/03/2026
MP-MT pede abertura de investigação sobre deputado gravado comemorando licitação
Valmir Moretto (Republicanos-MT) - Foto: Reprodução / Instagram

Osolicitou nesta quinta-feira ao Tribunal de Justiça do estado para que instaure uma investigação para apurar o caso do deputado Valmir Morettto, gravado comemorando uma licitação durante um evento em Pontes e Lacerda no início da semana. Um outro procedimento no âmbito cível foi aberto pelo MP. Após a repercussão do aúdio, Moretto publicou uma nota nas redes sociais e disse que se tratou de um "vício de linguagem".

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— Quase 200 milhões — diz o deputado no áudio, que circulou nas redes. Ele acrescenta — É, três obras lá. Duas é Agrimat, uma é a minha.

Nesta terça-feira, um microfone captou Moretto afirmando ao governador Mauro Mendes que, de três obras, uma era sua, durante um evento no qual o governo do Mato Grosso anunciou investimentos no município de Pontes e Lacerda.

Posteriormente, o deputado se defendeu e afirmou ter usado um "vício de linguagem", pois havia sido um dos fundadores da empresa de construção civil em questão. Na nota, ele diz ter deixado a empresa após se eleger.

— A comemoração não era sobre o vencimento da licitação. A minha alegria, minha felicidade é pela realização. Foram muitos anos de trabalho, três anos de trabalho em busca de desenvolvimento para a nossa região — disse Moretto

A declaração de Moretto alvo de controvérsia nesta terça-feira aconteceu durante um evento para anunciar a construção do Hospital Estadual do Sudoeste Mato-grossense, em Pontes e Lacerda. Segundo disse o governo do Mato Grosso, no local diversos convênios e autorizações para obras foram assinados, superando o valor de R$ 200 milhões, "o que possivelmente foi o objeto da fala do deputado Valmir Moretto". A obra do hospital ainda não teve a licitação iniciada, acrescenta o governo.

"Em relação às obras de Infraestrutura na região, é preciso reforçar que os processos licitatórios seguem critérios técnicos e a legislação vigente para participação das empresas. Não há nenhuma obra contratada pelo estado cuja empresa vencedora tenha no quadro societário qualquer parlamentar", diz a nota.

Veja abaixo a transcrição do áudio:

Valmir Moretto: Quase R$ 200 milhões só ali

Mauro Mendes: Já começou ou não?

Valmir Moretto: Não

Mauro Mendes: Mesma coisa, enrolada também?

Valmir Moretto: Todas as três, todas as três obras.

Mauro Mendes: Tá licitado isso, não tá? Essas duas

Valmir Moretto: Todas as três.

Mauro Mendes: Quem ganhou?

Valmir Moretto: Duas, a Agrimat, e uma, a minha

Réu por direcionar licitações

Moretto é réu em um processo que corre no Tribunal Regional Federal da 1ª Região por direcionar licitações a empresas ligadas a ele. Na acusação, o MPF afirma que é Valmir Moretto é o dono oculto da Oeste Construtora, antes chamada VL Moretto. O deputado deixou o quadro societário em 17 de dezembro de 2018, antes de assumir o cargo, e passou o controle da empresa para o irmão, Glenio Moretto. Segundo o MPF, ele, no entanto, seguiu dando ordens. Entre a saída de Valmir da empresa e março de 2019, o deputado teria recebido R$ 1 milhão de Glenio, o que seria um indicativo que ele se mantém como beneficiário.

A ação é resultado da Operação Trapaça que mirou Moretto e outros políticos do estado. Na época dos casos investigados, antes da Oeste Construtora mudar de dono e nome, o deputado era prefeito de Nova Lacerda. O esquema funcionava em parceria com o então prefeito do município de Salto do Céu, Wemerson Prata. Segundo o MPF, os gestores davam às licitações "aparência de concorrência, quando, na verdade, o resultado já estava pré-determinado e o real executante do contrato não seria necessariamente a pessoa jurídica vencedora". O esquema funcionava de forma cruzada, de modo que a emprea de Moretto não concorria em Nova Lacerda, nem a empresa de Prata em Salto do Céu.

A ação ainda corre na Justiça Federal do Mato Grosso. Os acusados foram intimados a enviar as alegações finais no início do ano.