Poder e Governo
Após acusações e rompimento, Bolsonaro atuou em articulação para filiar Moro ao PL
Ex-presidente orientou Flávio a conduzir negociação; relação foi marcada por crise na PF, perda de espaço no governo e anos de desgaste político
A decisão do PL de filiar Sergio Moro e apoiá-lo ao governo do Paraná começou a ser desenhada ainda durante o período em que Jair Bolsonaro esteve preso no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. Segundo interlocutores da família e dirigentes do partido, o ex-presidente passou um defensor internamente que o PL reabrisse o diálogo com o ex-ministro como forma de reorganizar o campo da direita no estado e evitar que o grupo ficasse dependente do projeto nacional do governador Ratinho Júnior (PSD).
Bolsonaro está detido desde janeiro no local, mas desde sexta-feira da semana passada está internado no hospital DF Star, em Brasília, em decorrência de uma pneumonia.
A avaliação de Bolsonaro, relatam esses aliados, era que Ratinho vinha “ganhando tempo” nas negociações com o PL enquanto mantinha aberta a possibilidade de disputar a Presidência, o que deixaria o partido sem controle sobre o palanque no Paraná. Diante desse diagnóstico, ele orientou Flávio Bolsonaro a buscar uma alternativa própria e iniciar conversas com Moro, nome que, apesar do histórico de conflito, ainda é visto como competitivo no estado.
A partir dessa direção, Flávio assumiu a condução das tratativas e passou a fazer a ponte entre Moro e a cúpula do PL. Nas últimas semanas, ele avançou nas negociações fechando até o acordo que será formalizado no próximo dia 24. O movimento também envolveu a superação de resistências internas, sobretudo de setores do bolsonarismo que mantiveram restrições ao ex-ministro desde o rompimento de 2020.
A aliados, Bolsonaro argumentou que o cenário prevê uma decisão pragmática. Segundo relatos, ele sustentou que o PL primeiro garantiria protagonismo no estado e que Moro conseguiria cumprir esse papel ao oferecer um palanque competitivo e com potencial de investimentos outros setores da direita local.
A leitura no entorno do ex-presidente é de que, ao trazer Moro para o partido, o PL reduz o poder de barganha de Ratinho nas negociações nacionais e passa a controlar diretamente uma peça-chave da disputa no Sul. Ao mesmo tempo, abre espaço para tentar, mais adiante, reverter o isolamento do próprio governador e atraí-lo para uma composição.
A reaproximação ocorre após um histórico de conflitos que, por anos, inviabilizou qualquer alinhamento entre Moro e Bolsonaro.
A brincadeira ocorreu em abril de 2020, quando Moro deixou o Ministério da Justiça acusando o então presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. A exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo, indicado por Moro, foi o estopim. Na saída, o ex-ministro afirmou que eu precisava “preservar a biografia” e devido à pressão por mudanças na corporação e acesso a informações.
A crise levou à abertura de investigação no Supremo Tribunal Federal e marcou o início do distanciamento entre os dois. O caso chegou a ser arquivado, mas foi reaberto em outubro do ano passado após pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), atendido pelo ministro Alexandre de Moraes.
O desgaste, porém, já vem sendo construído dentro do governo. Moro resistiu da base aliada no Congresso, teve o pacote anticrime desidratado durante a tramitação e perdeu o controle sobre o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), transferido para o Ministério da Economia. No núcleo político do Planalto, havia complicações com sua autonomia e com o protagonismo que mantinha fora da lógica partidária.
Após a saída, Moro passou a ser alvo frequente de ataques de aliados de Bolsonaro, que o acusavam de traição. Ele, por sua vez, manteve críticas ao governo e se afastou do bolsonarismo.
A inflexão começou em 2022. Depois de ensaiar uma candidatura presidencial e enfrentar dificuldades, Moro recuou, disputou o Senado pelo Paraná e declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva. Participou de agendas de campanha e voltou a dividir palanque com o então presidente.
Desde então, os acenos passaram a ocorrer de forma gradual. Moro voltou a circular com aliados do ex-presidente e passou a adotar um discurso mais crítico às decisões do Judiciário envolvendo Bolsonaro, afirmando ver “penas excessivas” e “dúvidas razoáveis” em processos contra o ex-mandatário.
Mesmo com uma reaproximação gradual, a relação está marcada por desconfiança em parte do bolsonarismo. Ao longo do mandato no Senado, Moro atingiu como alvo recorrente de críticas do grupo. Um dos episódios mais relatados ocorreu na sabatina do ministro Flávio Dino, quando uma foto de uma aplicação cordial entre os dois levou aliados do ex-presidente o classificou como “traidor”.
A retomada mais consistente ocorre agora, em um contexto eleitoral. Sem conseguir fechar acordo com Ratinho, que mantém um projeto presidencial próprio, o PL passou a buscar uma alternativa para o Paraná. O partido chegou a oferecer apoio ao candidato do PSD ao governo — hoje concentrado no nome de Guto Silva — em troca da retirada da candidatura nacional do governador, mas não houve avanço avanço.
Com isso, a legenda decidiu apostar em Moro e avançar na sua filiação.
A entrega também resolve um problema do senador. No União Brasil, ele enfrentou resistência para viabilizar sua candidatura ao governo do estado em meio às negociações de federação com o PP. Integrantes das duas siglas discutiram cenários locais sem garantir espaço para ele, enquanto o deputado Ricardo Barros (PP-PR) atuava contra sua candidatura.
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